Este espaço corre o risco de ser monotemático, dedicado à mais arrojada, vitoriosa e exemplar experiência do jornalismo gaúcho nos anos 70 e 80 do século XX. Penso em aproveitar a oportunidade para detalhar a história do COOJORNAL e da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, que pode muito bem, ainda nos tempos de hoje, servir de exemplo para gerações que estejam à procura de um norte profissional, por que não?
Então vamos lá: o COOJORNAL, mensário editado durante oito anos, foi uma das publicações mais marcantes na imprensa brasileira naquela época. Não sou eu quem afirmo: sempre foi um veículo reconhecido nacionalmente pelo exercício profissional – sem viés político-partidário, ressalve-se – do jornalismo e pelo relevante papel que desempenhou na luta pela implantação da democracia no Brasil. Tanto é que foi apontado pelo jornalista e escritor Bernardo Kuscisnky, em seu livro Jornalistas e Revolucionários, como um dos cinco jornais mais importantes da imprensa alternativa brasileira, ao lado de Movimento, Opinião, Pasquim e Versus. Teve ampla repercussão nacional, a ponto de vender mais exemplares nas bancas da Zona Sul do Rio de Janeiro do que em toda a Porto Alegre. Por fim, contribuiu para disseminar a ideia de cooperativas de jornalistas em todo o País. Nos idos de 1980, um total de 14 entidades do gênero foram criadas, todas inspiradas pelo modelo criado pelos gaúchos.
Não foi fácil chegar a ela, a cooperativa. Era o Incra, órgão federal dedicado à reforma agrária, o responsável pela fiscalização e orientação do cooperativismo no País, e seus técnicos tinham enormes dificuldades para assimilar a ideia de haver uma cooperativa que se dedicasse não a cultivar terras ou criar animais, mas voltada para um trabalho antes de tudo intelectual. Houve várias negociações com seus dirigentes até que, estatuto adequado à legislação cooperativista, foi enfim criada a Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre.
Foi um ato memorável. Em plena tarde de um sábado de inverno, em 1974, 67 jornalistas se reuniram na sede da ARI (Associação Riograndense de Imprensa), no centro da capital gaúcha, para fundar aquele organismo inovador e ao mesmo tempo desafiador. Um único profissional presente manifestou descrença em relação ao que se propunha e se retirou da reunião. Assim, 66 jornalistas foram os fundadores da primeira cooperativa de jornalistas brasileira, nascida com o ideal de reunir profissionais da área com o objetivo de criar oportunidades de trabalho e, algum dia, editar um jornal de jornalistas.
Vale sempre ressaltar: a Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre foi uma iniciativa pioneira de um grupo de profissionais que se inquietavam com os rumos e posicionamentos da imprensa gaúcha nos anos 70, no auge da ditadura militar iniciada cerca de 10 anos antes. O que nos movia, como idealizadores e fundadores deste organismo, era o descontentamento com a imprensa que se praticava naquela época, aliado à vontade de nós, os próprios trabalhadores, termos um jornal no qual a orientação editorial e o comando de todo o processo fossem exercidos pelo grupo de profissionais envolvidos.
E por que uma cooperativa, e não uma editora convencional? Porque os próprios cooperativados detêm o controle do negócio e estão diretamente comprometidos com os resultados. Nela não há um dono, um capitalista, que seja o único a ditar as regras. Todos os associados são donos, com direitos e responsabilidades iguais. Este é um grande e decisivo diferencial em relação às empresas convencionais, seja de que ramo forem. O desafio adicional, que alguns críticos apontam como desvantagem do sistema, é que o cooperativismo é um permanente exercício de paciência e compreensão; você tem de aprender a respeitar os direitos dos demais integrantes da sociedade, saber dialogar e, principalmente, dobrar-se ao consenso obtido pelo grupo, mesmo que você discorde de alguns pontos ou premissas estabelecidos.
Com este norte estabelecido, começou a história que pretendo contar a partir de agora.

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