O recente episódio envolvendo Ronaldinho Gaúcho e a torcida do Grêmio mostra o nível de deterioração que a nossa sociedade está vivendo. Alguns torcedores colocaram uma faixa com dizeres ofensivos à mãe do jogador. O árbitro fez com que fosse retirada. Porém, a relação entre o jogador e a torcida gremista está para lá de azedada, desde a saída dele do clube. Resultou que o jogador, ao final da partida, desferiu xingamentos e impropérios à torcida.
Uso esta situação somente como exemplo. Outras já aconteceram em outros clubes e países e, o que é pior, muitas outras acontecerão. O futebol está servindo de espelho para o baixíssimo nível das relações humanas na sociedade brasileira. Não há mais respeito de uns pelos outros. A lógica é unicamente da satisfação pessoal e foco no seu próprio umbigo. Para levar vantagem em tudo e ser malandro, as pessoas entendem que podem passar por cima das outras. São tantos exemplos diários que fica até cansativo narrar. A busca pela satisfação pessoal. E imediata.
Neste contexto, vale desrespeito sim. Como a faixa estendida pela torcida gremista e como os palavrões vociferados pelo atleta. Vale dedo no olho. Vale tudo, como diria o Tim Maia. Esquecem-se estes que buscam esta satisfação imediata, a vantagem e a malandragem, que uma hora a banca recebe. Que a engrenagem que eles ajudam a construir, de desrespeito, jeitinho e malandragem, é a mesma que irá esmaga-los logo ali, quando precisarem do outro. Seja o outro em uma repartição pública, seja para ajudar a dar uma vaga no estacionamento, seja para um gesto de solidariedade quando necessitarem. Este egocentrismo catatônico desumaniza a sociedade. Indivíduos obnubilados em busca de um prazer impossível, porque acaba sendo frustradamente solitário. Se é egocêntrico, por necessidade é solitário.
O paradoxo maior é que o futebol e as torcidas são um esporte e uma manifestação coletivas. O pensamento coletivo por definição e essência procuram um bem maior, comum a todos os envolvidos. Neste caso, não.
Enquanto escrevo, chega a notícia de que o árbitro incluiu em sua súmula a faixa com os dizeres ofensivos. Isto pode resultar em punição para o clube. Entendo que ainda que não haja responsabilidade direta do clube pela manifestação de um ou dois torcedores, ele deve sim ser punido. E explico porque: há alguns anos, era comum os torcedores nos estádios brasileiros jogarem objetos em jogadores dos times adversários, em árbitros e seus auxiliares. Bem comum, aliás. E quando isto parou? Quando começaram as punições severas. Perda de mando de campo, etc. Então, entendo que os clubes devam ser punidos diretamente por manifestações como estas para que elas cessem de vez. E entendo ainda que os clubes são agremiações poderosíssimas no Brasil e, portanto, devem cumprir seu papel social e formador de opinião. Ser omisso muitas vezes é participar de um crime. Está previsto no código penal. Então, que os clubes brasileiros mostrem a sua força cidadã. Exerçam de forma séria o seu importante papel na sociedade brasileira e contribuam decisivamente para começarmos a alterar a sociedade do jeitinho, do malandro, do tudo pode.

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