“Aqui eu comprava minhas coisinhas de moça, eu adorava a Sloper, que tristeza, não existe mais”. “Nesta esquina ficava a Casa Louro”. “Aqui a gente atravessava, saindo da rua da Praia, e caía nos bondes, no Praça 15. Que saudade, meu Deus, como era bom andar na Galeria Chaves”. “A Livraria do Globo não existe mais, que horror, este edifício enorme com esta loja sem graça!” Minha mãe, há uns 30 anos, não caminhava pelo Centro de Porto Alegre. A mesma Porto Alegre que ela adotou quando jovem e que ela hoje jura que detesta – diz que queria se mudar para Laguna. “Vim morar com a minha tia, irmã do papai, que era modista, ali na 10 de Novembro, que hoje é a Salgado Filho. Ela fazia roupa fina, coisa chique mesmo, chapéus, a gente sempre andava arrumada”. E interrompe as memórias sobre a tia quando, de carro, passamos pela Riachuelo: “ái, olha só, aqui era a confeitaria Rocco, tinha cada doce! Muito a gente vinha aqui.”
Dona Luci, 82 anos, hoje mal consegue sair de casa. Não porque esteja mal das pernas (o joelho direito incomoda, sim, mas nem mancar ela manca) ou porque esteja ruim da memória. Ela é a cuidadora de meu pai, que teve 8 AVCs e hoje precisa de uma assistência constante, porque não tem quase equilíbrio, e que tenta superar, com bom humor, o começo de alzheimer e de parkinson, além da cardiopatia e o tumor da próstata. Então, Dona Luci sai pouco: corre no armazém da esquina, vai ao supermercado, à fruteira onde compra ovos frescos, mas lamenta mesmo é não mais poder ir à igreja Universal, que, para nosso espanto, ela adotou depois de 40 e tantos anos de kardecismo.
De modo que a ida ao Centro, pela segunda vez em uma semana, e desta vez com direito a caminhar um pouco mais, para ver as antigas paisagens, foi um acontecimento. “Hoje o dia foi especial”, ela dizia, ao chegar em casa, repetindo a frase como um mantra, rindo de seu jeito peculiar, o cabelo branco com o eterno corte chanel, as mãos bonitas apesar de tantos e repetidos maus-tratos na cozinha, na limpeza do chão, no serviço de pintura, cola e costura que executou, anos a fio, na sapataria do meu pai.
“Eu até posso pegar um ônibus se tiver de vir de novo”, ela ameaçou, na saída do banco (em que distribuiu apertos de mão, agradecimentos e “deus te abenço do guarda até a atendente) para, dias depois, me telefonar e dizer: “escuta, tu vais comigo de novo? Eu tenho um pouco de medo de não me achar”. Não tem preço, dona Luci, andar com a senhora pelo Centro de Porto Alegre. Sem braço dado, sem indícios de temor, agarrada em sua bolsa a tiracolo voltada para a frente do corpo, o casaquinho preto de malha pronto para enfrentar qualquer esfriada repentina.
Essa é minha mãe. Passo miúdo mas certeiro. Olhar que força o foco, diante de alguma imagem mais pequena, mas firme. Crítica como sempre foi, conhecedora do que “cai bem” em matéria de comportamento, roupas e acessórios, mesmo que passe anos e anos sem comprar nada. Lembro dela, em lojas, botando prateleiras abaixo, deixando as vendedoras malucas, sem abrir mão do que queria. E ái de quem quisesse lhe empurrar alguma compra: ela sabia ser antipática: “não, minha filha, isso eu não quero, muito obrigada”, e, resmungando, deixava o local, ajeitando a mecha que caía sobre os olhos, com aquele jeito de caminhar com a cabeça meio caída, uma timidez que encobriu, vida inteira, a mulher pequena de tamanho mas imensa de valor. E de exigências. Com os outros, e principalmente com ela mesma.
Hoje, me descobri, num pequeno trajeto, caminhando como minha mãe: cabeça meio inclinada, resmungando por dentro, desconfiada com o entorno, passo rápido apesar de curto. Incrível o que a gente espelha quem nos traz ao mundo e nos cria. Eu, filha única, copio, hoje, descaradamente, Dona Luci.
Com quem discuto por qualquer coisa (e ela adora isso!), com quem falo diariamente ou o dia não se completa, para quem me volto sempre, no bom e no ruim, com sol ou chuva, agradecendo aos céus por ter essa velhinha durona por perto. É ou não é o máximo?
