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Violência Cultivada

O Brasil insiste em tratar a barbárie como exceção quando, na verdade, ela já virou método. Episódios recentes de crueldade, especialmente aqueles que envolvem jovens, não são desvios pontuais nem surtos individuais. São o resultado direto de um ambiente que combina privilégio, impunidade e uma radicalização digital que cresce diante da completa incapacidade do Estado de reagir.

Há um padrão que se repete e que muita gente prefere ignorar. Não estamos falando do estereótipo histórico da criminalidade associado à pobreza. O rosto mais frequente dessa violência extrema é outro: meninos brancos, de classe média ou média alta, com acesso irrestrito à tecnologia, tempo ocioso e uma estrutura familiar e social que os protege das consequências. Um sistema inteiro montado para amortecer quedas, esconder rastros e chamar crime de erro.

A violência não surge do nada. Ela é ensinada, estimulada e recompensada. Em grupos fechados do Discord e outras plataformas, a crueldade virou linguagem. Primeiro como piada. Depois como desafio. Em seguida como prova de pertencimento. Para ser aceito, é preciso destruir alguém. Pode ser um colega de escola, uma pessoa negra, um animal. Quanto maior o choque, maior o aplauso. A lógica é simples, perversa e extremamente eficiente.

Nesse ambiente, a crueldade vira status.

Quando a violência transborda para o mundo real, entra em cena o roteiro mais confortável para todos os envolvidos. O agressor vira doente, psicopata, exceção. O crime é tratado como patologia individual, nunca como falha coletiva. Assim, evita-se discutir o papel da família, da escola, das plataformas digitais e do próprio Estado. Evita-se, sobretudo, falar de privilégio.

Famílias com recursos não enfrentam o sistema, elas o contornam. Resolvem tudo no privado. Terapias caras, mudança de escola, viagens, advogados, silêncio. O jovem não é responsabilizado, é protegido. Enquanto isso, o mesmo Estado que prende, pune e expõe jovens pobres e negros age com complacência quando o agressor tem sobrenome, dinheiro e endereço certo. A mensagem é clara: para alguns, a lei é pedagógica. Para outros, é opcional.

O caso do cachorro Orelha, assim como tantos outros episódios de maus-tratos a animais, não pode ser minimizado. A violência contra animais é, historicamente, a porta de entrada. Um teste de poder. Um ensaio de impunidade. Se é possível torturar um ser indefeso sem consequência, o próximo passo se torna apenas questão de tempo. A criminologia chama isso de teoria do elo. A sociedade brasileira insiste em chamar de exagero, até que o elo se complete e a tragédia atinja pessoas.

O problema não é falta de aviso. É escolha.

Escolha das famílias que confundem proteção com conivência e criam filhos incapazes de lidar com frustração, limites e responsabilidade. Escolha das autoridades que fingem não ver o que acontece em grupos de ódio no Discord e em outras redes, tratando o ambiente digital como território neutro enquanto ele funciona como fábrica de violência. Escolha de um Estado que reage sempre tarde, mal e de forma covarde.

Enquanto o Brasil seguir passando pano para a crueldade travestida de brincadeira, tratando jovens violentos como meninos que erraram e ignorando a escalada que começa nos animais e termina em pessoas, continuaremos produzindo agressores protegidos e vítimas descartáveis. A violência não é um acidente. Ela está sendo cultivada, todos os dias, com silêncio, omissão e incompetência.

Autor

Fernando Puhlmann

Sócio-cofundador da Cuentos y Circo, Puhlmann é um dos principais especialistas em YouTube do país, com um olhar focado em possibilidades de faturamento na plataforma e uma larga experiência em relacionamento com grandes marcas do mercado de entretenimento. Além de diretor de Novos Negócios da CyC, tem também no seu currículo vários canais no país, entre eles o do escritor Augusto Cury, do Gov Eduardo Leite, Natália Beauty e do Grêmio FBPA, sempre atuando como responsável pela estratégia de crescimento orgânico dos canais. Já realizou palestras sobre a nova Comunicação juntamente com diretores do YouTube Brasil como a abertura do 28º SET Universitário da Famecos-PUCRS, o YouPIX/SP e o Workshop YouTube Gaming Porto Alegre. Desde 2013, Puhlmann ministra cursos, seminários e oficinas sobre YouTube, tendo mentorado mais de 30 canais nos últimos anos.
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