Esta coluna é uma mistura de decepção, desabafo e sugestão de pauta tendo como foco o processo de participação dos Voluntários nas Olimpíadas 2016 e Paraolimpíadas 2016 no Rio de Janeiro – e em alguns capitais para a disputa do futebol.
Com objetivo de viver uma experiência de vida e também satisfazer a curiosidade de jornalista, fiz minha inscrição prévia para ser um dos 70 mil voluntários nos Jogos Olímpicos de 2016. Depois de cumprir algumas etapas do processo de seleção desde 2014, fui selecionado para uma entrevista presencial no dia 26 de agosto, em Porto Alegre. Pelo que li no site e pelas informações recebidas, os organizadores (COI, COB e COL) não se responsabilizariam pelas despesas de deslocamento daqueles candidatos que residem em cidades onde não há escritórios para a realização das entrevistas. Até aí, tudo bem, se o candidato está disposto a investir vai arcar com o deslocamento e hospedagem, digamos se mora em Campo Grande e vai fazer a entrevista no Rio ou Minas, dependendo da sua área de atuação.
Nâo sei se sempre foi assim nas Olimpíadas anteriores e nas Copas do Mundo. Eu sei que o voluntário tem vários compromissos, deveres e poucas vantagens e, talvez, valha a pena toda a dedicação para viver uma experiência marcante, fazer novas amizades e até aparecer ao lado de um grande atleta. Sem dúvida que isso vale a pena, mas a decepção ficou por conta dos termos do “contrato” entre as partes. São vários itens, quase todos restritivos, até que se chega a um dos últimos onde está esclarecido que os organizadores garantem o transporte metropolitano no Rio de Janeiro, alimentação e o uniforme. Todas as demais despesas, as maiores, é claro, como deslocamento e hospedagem, ficam por conta do voluntário.
Ora bolas, como é isso? Questionei-me antes de assinar o termo de compromisso e participar da entrevista em grupo. Será que realmente vale a pena? Fiz a pergunta a algumas pessoas que também esperavam pela entrevista e estas, talvez mais imbuídas por viver uma nova experiência, disseram que sabiam das despesas, mas que não se importavam em pagar transporte e hospedagem, alguns por 10, 15 ou até 30 dias.
Tudo bem que o “espírito olímpico” consiga impregnar as mentes dos voluntários. Mas fiquei pensando se eu não seria mais um “boi de piranha” pagando para ser voluntário. Afinal, teria que pagar minha passagem e ficar hospedado em algum hotel duas ou três estrelas, comendo no bandejão e ganhando vale-transporte para se deslocar até os locais de trabalho. Enquanto isso, dirigentes do COB, COI, COL e outros assessores vão ficar em hotéis cinco estrelas, andar de carro com motorista, comendo em restaurantes chiques graças às diárias que variam entre 200 e 600 dólares.
Quem paga isso? Os patrocinadores, obviamente, mas também os dedicados voluntários, que vão gastar seu dinheiro para realizar um sonho, enquanto os outros vão gozar do bom e do melhor, ganhar manchetes e conceito sem gastar um tostão sequer… e até economizar parte da diária, se foram espertos. Ah! Sem contar os inúmeros convites de patrocinadores e entidades ligadas ao esporte para almoços, jantares e festas.
Será que os organizadores não poderiam ao menos tentar algum acordo com alguma empresa aérea e alguma rede de hotéis para conceder um bom desconto aos voluntários. Mas que nada, se os voluntários querem viver uma maravilhosa experiência que paguem por isso? ? Faça um cálculo, são 70 mil voluntários, a grande maioria de fora do Rio. Será que não seria interessante conseguir alguns convênios e parcerias? Depois da decepção, tai o desabafo. Agora fica a sugestão de pauta: quem sabe algum jornal, rádio ou TV faça uma reportagem sobre esse sistema, contando como se desenvolve esse sistema e quanto lucram os organizadores explorando esse “desejo incontido” dos candidatos. Ah, certamente alguém dirá: “não vai mudar, pois para 70 mil vagas devem se inscrever 300 mil candidatos”. Quer dizer, vai sobrar gente disposta a bancar a boa vida dos dirigentes do COI, COB e COL. Eu preferi “enterrar” um sonho, mas não me submeter a um processo de exploração.

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