Sim, eu votei em Obama. Fiz campanha pra ele na internet. Juro! Não cheguei a receber correspondência do comitê do cara, como o sortudo do Emanuel de Mattos, mas falei bem do candidato pra caramba! E ainda falei mal da Hillary, coitadinha, que por minha causa, com certeza, ficou com apenas aquele cargo chato em que ela tem de viajar mundo afora e agüentar bafo de político cachaceiro, ir a posse de presidenta que ela quase confundiu com Walter Mercado e fazer força pra ficar mais que cinco minutos segurando o sorriso azul-vermelho-branco em meio a gente que não sabe nem se vestir protocolarmente.
Se alguém acha que é simplesinho ser a mulher de um ex-presidente que foi reeleito apesar da infidelidade explícita, ser rica, de olhos claros e ter de peregrinar mundo afora sob as ordens de um cara com nome islâmico e afro-descendente, este alguém está se enganando! A loira engole sapo, sim. Mas não é da tia Hillary que eu quero falar. É do Obama, desta vinda tardia ao Brasil, uma visita que não entendo, na minha pouca instrução política internacional. Ainda sou do tempo em que Carmen Miranda era embaixadora do Brasil no Tio Sam e a gente achava lindo tudo, principalmente o Zé Carioca rebolando o rabicho verde e amarelo pelas boas relações nas Américas. E ainda acho lindo, sinceramente! Memórias da infância…
Hoje, cadê o charme, o rito desta submissão consentida aos mais importantes do globo, nos novos romanos! Tudo muito sem graça, sem bananas na cabeça, sem balangandãs, nem mesmo uma piscadela de olho para garantir a cumplicidade. Por mais que as emissoras de televisão tenham tentado me convencer da maravilha que é a visita do Yes, we can e esposa ao Rio e a Brasília, ainda fico esperando o tal grande acontecimento. Sei lá: algo assim tipo mariners descendo dos céus numa coreografia do Carlinhos de Jesus, mostrando a integração entre os dois países pelas armas e pela cultura.
Mas, acho que não – sem ganhar permissão de captar pela Lei Rouanet, os nossos artistas não têm dinheiro para montar um espetáculo destes. A menos que o Andrucha e a Maria Bethânia e o sobrinho da Ana e do Chico Buarque de Holanda pudessem dar uma mãozinha na produção, fazer uns vídeos com poesia, essas coisas.
Pra completar, o Brasil continua fazendo doce na ONU, ficou em cima do muro na questão da Líbia e eu acho que, na verdade, estão querendo é ensinar a presidenta a mostrar humildade se instalando com mãe, tia e agregados numa barraca em vez de palácios do Oscar, o centenário. Só pode ser isso.
De maneira que Barack e Michele aqui chegam e ainda vão comer espaguete de pupunha! Afinal, ele é vegan total e ela também acha que consumir carne é um noooojo! Quanto ao blini de damasco, fiquei com água na boca!
Então, é um desencanto: foi-se o tempo dos chefes de Estado traçando um belo filet ao ponto! Sinal dos tempos, tudo muda: William, o príncipe herdeiro, está quase se casando e não vejo o mesmo entusiasmo que inundou o mundo quando Charles e Diana, ela com aquelas mangas bufantes horrorosas e o olhar de tímida, fizeram com que Paulo Gasparotto, que na época eu editava na finada Folha da Tarde, suspendesse suas férias para fazer, ele próprio, as matérias de cobertura do evento do século para sua coluna! E meu querido Paulo suspender suas férias não é pouca coisa não! Armando Burd, que era o editor dele no Correio do Povo, é testemunha do fato!
Nem o mundinho do show tem novidades coxudas, a não ser que Sharika e seu projeto caritativo sejam parâmetro para um o pessoal do “um novo mundo é possível.” Tudo previsível, tudo aborrecido. Os cariocas vão reclamar da tranqueira no trânsito que a visita de Obama causou, as emissoras de TV insistirão que o populacho ficou bicudo porque o cara que prometeu muito e cumpriu pouco (e ficou sapecado pra sempre em casa, por causa da tal da crise) disse que ia mostrar a cara na Cinelândia mas terminou preferindo o ar condicionado e o cenário reformado do lindo Teatro Municipal.
Começar o ano em março é fogo, eu reconheço. A vida já emperra em janeiro, todo mundo que espera o mesmo Carnaval de sempre enche a cara, faz de conta que se divertiu um monte desfilando anônimo no asfalto numa escola de samba qualquer, e os que sobram fora do coro dos contentes momescos reclamam da vida e já avisam: estamos praticamente em abril, a Páscoa esta chegando, a Erenice e os filhos continuam felizes da vida rindo dos bestas que acham que eles vão pagar na força da lei, mais um canalha vai ganhar uma baita grana no Big Brother e nóis, aqui, traveiz, comemos banana!
