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Eu não saberia ser um jornalista frio, diz Felipe Sales, repórter que cobriu o ataque à creche de Blumenau

Felipe Sales, repórter da NSC TV, foi um dos profissionais de imprensa que cobriu o assassinato das crianças do Centro de Educação Infantil Cantinho do Bom Pastor, em Blumenau, Santa Catarina. O crime, ocorrido em 5 de abril deste ano, deixou quatro crianças mortas e cinco feridas.

Ao entrevistar o pai de uma das vítimas, o jornalista não conseguiu conter a emoção e se desculpou. Para falar sobre o desafio de uma cobertura tão difícil e dolorosa e sobre sua postura empática, solidária e humanizada, Felipe Sales conversou com Coletiva.net. Nesta série exclusiva, o repórter abordou questões como humanização do jornalista, limites e respeito às vítimas e familiares e novas orientações do Ministério Público quanto à exposição dos fatos e autoria do crime.

Apesar de já ter tido duas experiências anteriores cobrindo fatos trágicos, Felipe ressaltou que essa cobertura teve um peso maior, tendo em conta que as vítimas são crianças. Ao tentar descrever como foi esse dia que marcou sua trajetória, ele relembrou o documentário sobre a atriz Daniela Perez, em que Glória Perez afirma: “O mais bizarro nos dias que mudam a sua vida é que eles começam estranhamente normais”.

E aquela quarta-feira, segundo ele, foi assim. “Eu estava no ‘Bom Dia Santa Catarina’, lá em Itajaí, falando sobre o ‘The Ocean Race’, a maior regata do mundo, fazendo vivo em alto-mar. Foi o ‘Bom Dia’ mais solar da minha carreira e, minutos depois, a chave virou de uma maneira muito brutal.”

Confira a primeira parte da entrevista logo abaixo:

1) Como foi que você ficou sabendo do ocorrido, como foi sua rotina de trabalho neste dia?

A gente estava cobrindo a ‘The Ocean Race’. Até o momento eu era a única equipe da NSC em Itajaí. A minha jornada começou às 5h30 e a minha demanda era fazer o ‘Bom Dia’. Terminou o programa e fui para a sala de imprensa ouvir a sonora, decupar o texto. E nisso a nossa repórter aqui de Blumenau, a Suelen Eskelsen, mandou um áudio no grupo, e ela estava muito apavorada. Ela estava voltando de uma pauta, e passou em frente à creche, e viu duas ou três viaturas do Samu.

Na desconfiança jornalística, por voltar, foi a primeira equipe a chegar ao local. Quando ela entendeu o que estava acontecendo, entrou em uma inquietação, em um pânico muito grande, e mandou aquele áudio do grupo dizendo: “Gente, eu tô aqui numa creche e, aparentemente, têm crianças mortas, e o cara fugiu”. E eu, em Itajaí, ouvindo, recebi com desconfiança, e o cinegrafista que estava comigo também falou: “Não, não pode ser”. Mas aí o cinegrafista que estava com a Suelen mandou o segundo áudio, também em choque, porque ele chegou a ver as crianças no parquinho, e ele só conseguia dizer no áudio: “É surreal o que eu tô vendo”. Aí eu olhei para o meu cinegrafista e falei: “Cara, aconteceu algo muito grave, e é verdade”.

Em questão de minutos, a minha chefe direta, que fica em Blumenau, ligou-me mandando eu esquecer a reportagem e pediu para eu voltar para Blumenau, avisando que estava chamando reforços de Florianópolis e Joinville, e que o jornal iria começar uma hora mais cedo. No caminho as coisas foram se consolidando, o cenário foi se desenhando. Rádios começaram a me acionar para entrar ao vivo, o G1 começou a perguntar o que eu já tinha.

Então, mesmo não estando no local dos fatos, eu já comecei a acionar fontes. Só que as fontes estavam todas resolvendo problemas, então elas não iam se preocupar em falar comigo naquele momento, porque, obviamente, tinha uma emergência muito grande para ser atendida: “Desculpa imprensa, mas depois vocês”. E como eu estava na estrada, eu não conseguia colaborar. Até que eu tive que ser sincero e dizer que não estava lá, e que enquanto eu não chegasse, não conseguiria colaborar, porque as informações estavam naquele local.

2) Como foi sua chegada, o choque e se apropriar das informações?

O meu primeiro ponto foi o batalhão onde ele se entregou. O trânsito estava muito acima do comum. A gente só se posicionou. Cada motorista passava e gritava palavras de condenação. Do batalhão eu fui para a frente da creche, e aí minhas colegas Ana Cristina Machado e Suelen foram me ambientando.

Então, em um primeiro momento, como eu tinha a entrega do conteúdo para fazer, a ideia era já entrar ao vivo, e, infelizmente, a gente já entra no modo automático. A cena já era assustadora, porque quando a gente pensa em creche a gente pensa em um ambiente leve, bonito. E só tinha camburão, viatura, ambulância. Mas eu estava naquele modo de “vamos entregar, estamos com o jornal no ar, quem é meu próximo entrevistado”.

Aí as minhas pernas quebram quando chega o pai do menino Bernardo, que é com quem eu converso. Porque até então, as minhas fontes estavam emocionadas, como o secretário de Educação e os bombeiros. Mas eram perguntas e informações técnicas, investigação, localização do preso e aulas suspensas. Quando eu chego no pai é emocionante. E, até então, eu, que cheguei depois, não tinha encontrado a emoção ainda, eu tinha encontrado a frieza dos fatos. Aí chega o pai do Bernardo dizendo que não vai rezar pela morte do cara, que vai rezar para que as coisas se resolvam, para que o cara evolua. Quando ele compartilhou a última lembrança do filho eu desmoronei. E aí bateu uma sensação de culpa ao mesmo tempo, por entender que não era meu papel, nem tanto pela questão da objetividade jornalística – porque isso a gente está sempre perseguindo -, mas o quanto eu me emocionar em frente às câmeras poderia desviar o olhar do que, de fato, era pertinente naquele momento, que era o drama do pai. Então, por isso que eu peço desculpas por duas vezes.

Depois, até o editor-chefe do ‘Jornal do Almoço’ de Florianópolis, o Túlio, chamou-me e falou que foi-se o tempo em que a gente prioriza os jornalistas-robôs, ‘a gente não se incomoda mais com o que é sensível e humano, tu pode ter direito de te emocionar’. Eu respondi que eu sei que eu posso, mas, ao mesmo tempo, eu não acho honrosa essa minha emoção virar o ponto alto dessa participação ao vivo quando a gente tem um pai emocionado. A minha sensibilidade, a minha dor, nunca vai poder ser maior do que a daquele pai.

Para algumas pessoas que eu conseguia responder as mensagens que chegavam até mim, eu dizia: “Obrigada, mas despende essa tua energia e força para essas famílias. Aqui a gente é o de menos, a gente tem o suporte psicológico da empresa, a gente se vira, a gente está no nosso ofício. Vamos rezar por essas famílias”. Então, foi isso que me incomodou a ponto de por duas vezes eu pedir desculpas, porque eu sou humano, a frase do pai é sensível, mas não é meu papel vir aqui pra frente das câmeras e me emocionar. Isso a gente deixa para o pai.

3) O que a gente aqui enxerga é a empatia da sua parte, um ser humano. O que mais chamou atenção de quem acompanha o seu trabalho foi justamente você não ter escondido a emoção, ter pedido perdão por estar com a voz embargada, segurando o choro. Jornalistas formados há mais tempo vêm de uma escola que ensina a sermos mais sérios e frios, ao reportar fatos trágicos como sinônimo de profissionalismo. Porém, isso vem mudando. Ultimamente vemos jornalistas não contendo a emoção e se mostrando vulneráveis como seres humanos que são. Como você enxerga essa mudança na forma de reportar?

Eu sou muito grato por essa postura ter tomado espaço na redação e se tornar quase que a regra a gente ter o direito de sentir e ser empático. Eu acho que eu não saberia ser um jornalista frio. E desde os meus primeiros vivos no ‘Bom Dia’, no ‘Jornal do Almoço’, eu sempre deixei muito claro o meu lado, quando eu achava que cabia. Eu sempre busquei essa reportagem mais empática, sensível, solidária, risonha, de apertar a mão do entrevistado, de dar um abraço, se possível. Porque acho que não sei ser esse repórter frio da redação das antigas. E que bom ver que as pessoas receberam dessa maneira com empatia e sensibilidade.

O meu cinegrafista que estava comigo neste dia, o Luizão, quando a gente fazia as entradas ao vivo ele se afastava de mim. Aí, em um primeiro momento, eu, na pressa, tinha sempre que chamar por ele: “Luizão, vem, vamos entrar agora em 40s”. Em algum momento isso me irritou e perguntei: “Luizão, por que você está sempre indo pra longe?” E ele falou: “Porque eu não aguento ver isso aqui. Eu prefiro me afastar, virar de costas, do que ver isso aqui. Se alguém está vendo isso e não está se sensibilizado, a pessoa está morta por dentro”. E isso me fez ficar pensando muito nessa questão: somos humanos, somos empáticos, sentimos isso também.


Esta matéria integra uma série de reportagens especiais assinadas pela gerente de Projetos de Coletiva.net, Tássia Jaeger. Ela conversou com Felipe Sales, repórter da NSC TV que atuou na cobertura da tragédia na creche Cantinho do Bom Pastor, em Blumenau, Santa Catarina, ocorrida em 5 de abril de 2023.

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