Pelo RS

Demissão em anúncio de capa: como aconteceu o fim do Diário da Manhã

Para entender o caso, Coletiva.net conversou com ex-empregados do veículo, bem como entidades representativas do Jornalismo

“Demissão nas manchetes!”. Foi assim que a jornalista Isadora Vilanova começou o seu post em uma rede social, para falar sobre o fechamento do Diário da Manhã, que tem sedes em Passo Fundo e Carazinho, e como os colaboradores souberam do fato. Conforme a profissional, que trabalhava no jornal havia um ano e um mês como repórter, produzindo matérias para o impresso e para o portal, além de cobertura de eventos, todos na redação tomaram conhecimento do acontecimento pelo anúncio publicado na capa do impresso. Para entender a situação, a reportagem do Coletiva.net conversou com outros ex-empregados do veículo, bem como com entidades representativas de classe, para saber sobre a posição delas diante do ocorrido.

Todos os jornalistas questionados confirmaram a versão da colega, afirmando que a direção da empresa não fez nenhum comunicado oficial, nem mesmo no dia da publicação. “O que tivemos foram informações e boatos que um colega ia passando para o outro. Percebemos que poderia ser a última edição na quarta-feira, 31, pois os anunciantes começaram a ligar e questionar por que os contratos tinham sido cancelados”, afirmou Isadora. “Sabíamos que o jornal poderia fechar em algum momento, seguindo a onda da situação dos jornais impressos pelo Estado, mas não imaginávamos que seria de uma hora para outra e sem um aviso prévio e oficial”, completou.

Já Mara Stefens disse que soube “momentos antes do fechamento da última edição, ao fazer a revisão da capa que circularia no dia seguinte”. A comunicadora possui cerca de 15 anos dedicados à empresa na cidade de Carazinho, onde trabalhou como colunista social, repórter e editora do impresso e on-line, e como produtora, repórter geral, de Esporte, apresentadora na rádio Diário (pertencente ao grupo que coordena o jornal). Ainda foi narradora esportiva. “Foi lá que tive a primeira oportunidade de realizar este objetivo”, abordou. 

Sem comunicado oficial, também não houve justificativas, por parte da diretoria, em relação ao encerramento das atividades. “Imaginamos que seja por questões financeiras, falta de gestão ou por não quererem inovar e seguir nas atividades”, afirmou a comunicadora de Passo Fundo. Para Mara, a única justificativa veio no comunicado de demissão recebido na quinta-feira,1º, em que diz que não seria mais conveniente mantê-la no quadro de colaboradores. “Tenho consciência de que isso ocorreria, a julgar pelo avanço no modo de se fazer Comunicação. Muitos grupos têm optado por encerrar a circulação de impressos. Confesso que não imaginei que seria tão rápido, uma vez que em pequenos centros as comunidades ainda são apegadas a este tipo de veículo”, afirmou a repórter de Carazinho.

A reportagem do portal também entrou em contato com a direção para ter mais informações sobre o fechamento, bem como do próprio veículo, assim como fez na primeira matéria publicada sobre o caso. A direção, no entanto, afirmou que não iria se manifestar. Dessa forma, não há dados oficiais, mas foi possível apurar que três jornalistas atuavam no local, sendo dois em Passo Fundo e um em Carazinho.

Desligamentos e apoio de entidades

Após ver o anúncio, os colaboradores procuraram o Recursos Humanos para proceder ao desligamento. “Acreditamos que a empresa irá cumprir com o que prevê a rescisão”, disse Isadora.  “No dia seguinte, ao chegar na redação, recebi o comunicado da demissão”, explicou Mara, que também acredita que os direitos trabalhistas serão pagos conforme a situação de cada um. “Foi a informação que tive e confio que será feito desta forma”, destacou. 

Para ajudar com estas questões burocráticas, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) tem acompanhado o caso e auxiliado os profissionais para orientá-los a respeito dos seus direitos e dúvidas relacionadas à demissão. Procurada pelo Coletiva.net, a presidente do Sindjors, Laura Eliane Rocha, enviou uma nota em que afirma ainda que lamenta o fechamento do veículo e que isso representa um fato prejudicial para o acesso à informação. Além disso, repudia a forma como a equipe de jornalistas tomou conhecimento, o que, para ela, é reflexo da reforma trabalhista, que retirou diversas salvaguardas de direitos e age também para enfraquecer os sindicatos. “Mas seguimos resistindo e construindo formas de conscientizar da importância da sindicalização como forma de amparo aos profissionais no mercado de trabalho.”

A Associação Riograndense de Imprensa também retornou ao portal com uma nota oficial, na qual manifesta sua preocupação com a extinção de mais um veículo de Comunicação do interior. Além de prestar solidariedade à direção, aos profissionais de imprensa e aos demais colaboradores do jornal, “a ARI se coloca à disposição para garantir a preservação do jornalismo profissional e independente como instrumento de democracia, justiça social e desenvolvimento”, registra.

Em busca de recolocação no mercado

Mãe de dois filhos menores de 10 anos, Mara está em busca de uma nova oportunidade. “Desempenhei muitas funções no Diário, adquiri muita experiência, aprendi com grandes profissionais que por lá passaram. Creio que essa bagagem me ajudará em novas conquistas”, acredita. 

Autora da postagem que incentivou essa reportagem, Isadora Vilanova disse que o conteúdo foi um desabafo frente à situação e que, quando optou por escrever, foi pelo compromisso com a profissão e com o trabalho ao qual se dedicou. “Eu trabalhei um ano no jornal, mas tem colegas com mais de 25 anos de trabalho que souberam por terceiros. Uma situação que vai contra o que eu defendo e prezo, ficar calada seria concordar com tanto descaso”, falou ao Coletiva.net. “O mercado de trabalho evoluiu e situações assim devem ser abominadas. Minha perspectiva é encontrar um ambiente saudável e de valorização para trabalhar e que não saia prejudicada de toda essa história”, destacou. 

Confira as notas da ARI e do Sindjors na íntegra:

ARI

Nota Oficial

Passados exatamente um ano da interrupção de circulação do jornal, O Informativo do Vale, de Lajeado, a Associação Riograndense de Imprensa ARI volta a manifestar sua preocupação com a extinção de mais um veículo de comunicação, do Interior do Estado. A direção e o Conselho Deliberativo da entidade lamentam o fim do Jornal Diário da Manhã de Passo Fundo, que cobre também a cidade vizinha de Carazinho.

Fundado em 28 de novembro de 1935 por Túlio Fontoura, o veículo que faria 87 anos, prestava inestimáveis serviços à comunidade de Passo Fundo, Carazinho e Região. Ao mesmo tempo em que se solidariza com a direção, os profissionais de imprensa e demais colaboradores do jornal, a ARI se coloca à disposição para garantir a preservação do jornalismo profissional e independente como instrumento de democracia, justiça social e desenvolvimento.

José Maria Rodrigues Nunes – Presidente da ARI 

Luiz Adolfo Lino de Souza – Presidente em exercício do Conselho Deliberativo da ARI

Sindjors

Porto Alegre, 06 de setembro de 2022

Ao Coletiva.net

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors) lamenta profundamente o fechamento do jornal Diário da Manhã de Passo Fundo, cujo último exemplar circulou no dia 31 de agosto de 2022.

O fechamento de um veículo de Comunicação com 87 anos de existência e tradição em uma importante região do Estado, onde já trabalharam dezenas de profissionais e que também representava um espaço significativo de trabalho com seu portal, jornais e rádios, é sempre um fato prejudicial para o acesso à informação que a população tanto necessita e para a economia local.

A diretoria do Sindjors, além da sua solidariedade aos profissionais demitidos, está em contato com os/as jornalistas para orientá-los a respeito dos seus direitos e dúvidas relacionadas à demissão.

Repudiamos, no entanto, a forma como a equipe de jornalistas tomou conhecimento do fechamento do veículo, sem qualquer aviso ou comunicado oficial aos que a ele se dedicaram, sem a devida consideração. Isso é reflexo da reforma trabalhista, que retirou diversas salvaguardas de direitos e age também para enfraquecer os sindicatos. Mas seguimos resistindo e construindo formas de conscientizar da importância da sindicalização como forma de amparo aos profissionais no mercado de trabalho.

Saudações sindicais!

Laura Eliane Lagranha Santos Rocha

Presidenta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS

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