Petrópolis: "Todos na cidade perderam alguém", diz Cleber Rodrigues

Repórter gaúcho da CNN contou em entrevista exclusiva ao Coletiva.net que encontrou cenário de um filme de terror no município

Cleber Rodrigues sentado em meio a destruição da rua Teresa - Crédito: Arquivo pessoal

Informado que subiria a serra do Rio de Janeiro para cobrir a chuva forte que atingiu Petrópolis, o repórter gaúcho da CNN Cleber Rodrigues chegou no município às 6h da manhã da quarta-feira, 16, e ficou até o domingo, 20. Em entrevista exclusiva à  equipe de Coletiva.net, o jornalista contou que encontrou um cenário de filme de terror: "Eram ruas bloqueadas em razão da lama, entulhos, pedras e carros. Aos poucos percebemos que todos na cidade perderam alguém", relatou.

Quando se deslocava para Petrópolis, ainda na estrada, já imaginava que a cobertura seria importante, mas não tinha ideia de que seria na proporção que foi. Por isso, além do preparo físico para caminhar em meio aos destroços provocados pela chuva, Cleber precisou gerenciar o lado emocional. "Foi preciso trabalhar as emoções para passar a informação para quem está assistindo sem interferir na notícia", disse.

O jornalista fez questão de destacar a solidariedade dos colegas de profissão: "Não há rivalidade ou competitividade entre veículos de Imprensa em coberturas como essas, muito pelo contrário, agradeço a colaboração que nossa equipe recebeu desde que chegamos à Petrópolis", salientou. Quando subiu o morro da Oficina pela primeira vez, ao cruzar com outro repórter, recebeu um alerta: "Olha, eu acabei de sair do morro, encontrei com um pai, que está procurando o filho. Ele está estressado e muito exaltado. Vai com calma", antecipou. Foi a dica que precisava para entender o cenário que encontraria e como abordaria as vítimas. 

Solidariedade

"Esta troca de informações sobre qual rua a gente podia acessar, qual ponto seria  seguro parar e o local que o sinal pegava, foi muito importante e eu parabenizo o profissionalismo dos meus colegas", ressaltou. Além do clima amistoso entre os profissionais de Imprensa, Cleber mencionou a solidariedade dos petropolitanos. Sempre que passavam por pontos de busca dos bombeiros encontravam pessoas oferecendo lanches e água ou café. Foi assim que se alimentaram em um dos dias, quando receberam um convite especial, feito por uma criança de nove anos que disse: "Ei, vocês são imprensa, estão trabalhando aqui? Querem tomar um cafezinho ou comer um pão?". A equipe não teve como recusar a oferta. 

Era desta forma que faziam pequenas refeições ao longo do dia, já que saiam do hotel às 5h da manhã e não conseguiam nem tomar café, que só era oferecido aos hóspedes três horas mais tarde. Mas para almoçar só conseguiam parar no final da tarde. 

O jornalista também pontuou o empenho de voluntários, moradores e ONGs de cuidados aos animais em resgatar os bichinhos. "Um policial apareceu com um cachorro no colo. Eu perguntei de onde ele vinha e o bombeiro contou que o cão estava há três dias em cima dos escombros da casa onde morava, esperando pelos donos, que não sobreviveram", lamentou. São cenas como estas que o repórter não esquecerá. 

"Não é fácil virar a chave"

Há duas imagens que não saem da cabeça do jornalista.Uma delas é o rosto da primeira pessoa que o abordou quando chegou ao morro da Oficina, ao lhe contar que havia perdido cinco membros da família, marido, mãe e irmãos. A outra diz respeito a uma livraria, localizada no centro de Petrópolis, que perdeu metade do acervo que tinha. "É outro ponto da cobertura, que representa o prejuízo ao comércio, calculado em R$ 600 milhões, de acordo com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan)", comentou.

Ele salientou que foi uma cobertura impactante, que levará para o resto da vida. "Não é fácil chegar em casa e virar a chave depois de tudo que a gente ouve e vê, mas entra para a história da minha carreira por todas as perdas sofridas", falou. Até então, outras duas pautas o haviam marcado, a primeira delas, o acidente com o voo da Chapecoense, que resultou na morte de 71 pessoas, entre elas 21 profissionais da Imprensa. E, mais recentemente, o incêndio no hospital Federal de Bonsucesso, que provocou a morte de três pacientes em razão das chamas e da fumaça. 

Natural de Sapucaia do Sul, Cleber Rodrigues deixou o Rio Grande do Sul aos 17 anos para morar no Rio de Janeiro. Formado em Jornalismo pelo Centro Universitário Fluminense, possui 12 anos de experiência em veículos de Comunicação. Durante 10 anos, trabalhou na InterTV, afiliada da TV Globo, teve passagem pelo Canal Futura e, atualmente, é repórter na CNN Brasil, no Rio de Janeiro. 

Comments