Perfil

João Baltezan: A vida pelo rádio

Dono de quatro emissoras e após 51 anos de atuação no meio, ele não pensa em parar de trabalhar

Por Márcia Farias

Ele vive para o rádio há 48 anos. É dono de quatro emissoras – rádios Caçapava, Camaquense (AM e FM), Cultura de Jaguarão (AM e FM) e Cultura de Santa Vitória do Palmar – e do jornal Gazeta Regional, que circula em Caçapava semanalmente há 25 anos. João Baltezan Ferreira, o dono de olhos azuis que brilham e se enchem de lágrimas a cada recordação mais afetiva, conta sua trajetória com uma surpreendente riqueza de detalhes. Mesmo aos 77 anos, ele não tem dificuldade alguma em lembrar datas, lugares e nomes – inclusive sobrenomes.

É esta memória que permite a Baltezan, como é conhecido no mercado, lembrar fatos emocionantes, inesquecíveis e até divertidos. Ele começa voltando 64 anos e recordando como tudo começou: foi o primeiro jornaleiro da Folha do Sul, jornal de Caçapava do Sul, onde morava com a família. “Eu era um garoto e passava as manhãs geladas entregando os exemplares nas casas”, lembra. Desta experiência também guardou um imenso carinho e admiração pelo primeiro chefe, Paulo Salzano Vieira da Cunha.

Outra pessoa importante na trajetória de Baltezan foi a sua tia Ofélia Maya, que o acolheu quando decidiu estudar em Porto Alegre. Ao falar nela, emociona-se: “Foi uma das mulheres mais importantes da minha vida. Ela me tinha como um filho”. Sobram elogios para duas mulheres também importantes em sua vida, a mãe, Florisbela Ferreira, e a esposa, Odaléia Ferreira. Para elas, também não poupa elogios. “Uma me deu a vida e o incentivo que sempre precisei, a outra esteve do meu lado nos momentos difíceis e gloriosos”, avalia.

As ‘filhas’

“Só encontrei pessoas boas na minha vida. Nunca alguém que quisesse me prejudicar”, comemora Baltezan, ao contar como se tornou diretor de tantas emissoras. A primeira foi a rádio Caçapava, que neste mês completou 60 anos no ar. A empresa lhe foi vendida simbolicamente, em ato público, com direito a um discurso emocionado do primeiro dono, o médico Paschoal Pery Gomes. Ele declarou que, apesar das propostas financeiramente atraentes que recebera, havia decidido deixar ‘sua filha’ para quem tinha certeza que ia lhe ser fiel. O futuro dono era Baltezan. “Homem de grande capacidade intelectual, o Paschoal foi o melhor amigo que tive”, ressalta em tom de profundo agradecimento.

A aquisição das demais veio alguns anos depois, de forma gradativa, e, segundo conta, em todas as oportunidades, ele foi procurado. Nunca precisou buscar investimentos ou contatar empresário, as chances foram surgindo e os contratos especificados de forma a sempre beneficiá-lo. Muitos empresários diziam que só venderiam seus estabelecimentos se fosse para Baltezan. “Na compra da rádio Camaquense, demorei dois anos para pagá-la”, exemplifica.

Apesar da aquisição vitoriosa, este não foi o começo da trajetória. As Emissoras Reunidas, grupo de rádios que foi pioneiro no Rio Grande do Sul e detinha a transmissão de 14 frequências, foram a chance que ele recebeu de iniciar a carreira. Aos 16 anos, tinha a carteira assinada com o cargo classificado como “contínuo” (hoje, office boy). Após 34 anos, deixou a empresa como Chefe de Relações Públicas. O emprego nas Emissoras Reunidas lhe rendeu experiência, contatos e imensa gratidão aos superiores, que sempre lhe deram liberdade para seguir com seus investimentos nas demais rádios.

O advogado por formação e radialista por vocação conta que desde pequeno tinha dois objetivos definidos: trabalhar muito e cursar Direito. Conforme suas palavras, os dois foram atingidos. “Em toda minha vida tive obsessão por trabalho.” Como não poderia ser diferente, Baltezan ainda teve experiência em assessoria de imprensa, com o Coronel Ildefonso Pereira de Albuquerque, quando este esteve à frente da Companhia Estadual de Silos e Armazéns (Cesa).

Acreditar nas pessoas

A gratidão pelas pessoas que o ajudaram é reiterada várias vezes durante a conversa. Para ele, as conquistas são creditadas a estas figuras que lhe proporcionaram diversas vitórias. “Foi uma longa jornada até aqui”, garante, dizendo-se um homem de sorte. E ainda completa: “Ainda bem que sempre fui saudável, porque já foram muitas aventuras nestes anos todos”.

Com entusiasmo e discreta emoção, Baltezan conta uma delas: a chegada em Porto Alegre foi, sem dúvida, uma experiência temerária. Quando decidiu morar na Capital, comunicou aos pais, que, sem muitos recursos financeiros para sustentar o jovem, lhe deram o pouco que possuíam. “Eu não tinha nem mala para trazer minhas roupas. Peguei as poucas que tinha e enrolei em jornal e corda”, conta, para em seguida explicar que a viagem, de muitas horas, foi realizada na carona de um caminhão. “Passei por lugares lindos, que jamais esperei conhecer.” Um deles é, hoje, sua casa em Caçapava do Sul, um grande sítio que mantém há 30 anos.

Arrependimento? Perigo? Medo? Que nada. Ele conta que sempre foi movido por uma fé incrível. “Arrependo-me só do que deixei de fazer. Se voltasse no tempo, não mudaria nada da minha vida”, diz, garantindo que, quando chegar a sua hora, “sairei feliz”.

Sempre muito tempo

Conservador talvez seja uma boa palavra para definir Baltezan. O primeiro caso para mostrar a característica é o casamento: conheceu a esposa num café da manhã, na pensão onde morava. “Estamos conversando há 47 anos”, brinca. Ele concorda com o adjetivo e conta que não gosta de muitas mudanças, que tudo que está bem, tem que permanecer sem ser mexido. “Fiquei 34 anos na mesma empresa, 40 com o mesmo barbeiro, 51 no setor de radiodifusão. É, acho que gosto das coisas como elas têm que ser”, reflete.

E por falar em tempo… ainda faltam três anos, mas o aniversário de 80 já está sendo planejado. A principal meta até lá é escrever um livro, que já tem até título: ’80 anos – Fragmentos de uma jornada’. Na obra, o experiente radiodifusor pretende contar episódios marcantes da carreira. A curto prazo, também tem sonhos e um deles é profissional, como não poderia ser diferente. Até o final deste ano, quer conseguir a concessão de FM para a rádio Caçapava.

Apesar de toda a trajetória, de toda experiência vivida, de todas as vitórias alcançadas, ele não está satisfeito. “O homem tem uma angústia que é da natureza humana. Sempre queremos mais.” Apesar da certeza de que há muito para ser feito ainda, ele diz entender que nada é eterno, nem ele.

Coisas que admira

Não é espantoso que a maior paixão seja pelo rádio e ele reafirma a dedicação dizendo que ama o que faz e deve tudo a este meio de comunicação. O pouco tempo em que não está trabalhando é dedicado à leitura, sejam livros, revistas ou jornais. O gosto é tão grande que mantém uma biblioteca particular, dividida entre as casas de Porto Alegre e de Caçapava, com uma média de 500 exemplares. “Não são muitos, mas de ótima qualidade”, brinca.

Ao acreditar que tudo que possui é fruto de muita luta, Baltezan conta que define sua vida com um exemplo dado por um amigo. Ele é como uma formiguinha, que já carregou o mundo nas costas, mas nunca desanimou. Os feitos na vida e na carreira foram reconhecidos em duas oportunidades: com os títulos de ‘Cidadão Emérito de Porto Alegre’ (proposta do vereador Elói Guimarães) e ‘Colaborador do Exército Brasileiro’ (por sempre dar espaço para a corporação em suas rádios).

O legado que criou não será deixado de lado: considera sua sucessora a filha Fabiane, de 46 anos, que é mãe de Bernardo e é quem dirige as empresas na ausência do pai. A família se completa com a primogênita Luciane, 49, psiquiatra, e com a caçula Leticie, 26, professora de Física e mãe da Bibiana.

O filho mais velho da Florisbela e do Cezário, mais conhecido como Zarico, guarda de herança um ensinamento que diz ter seguido a cada momento: “Honrar a palavra é o meu único lema de vida.”

Clique aqui para conferir em imagens as lembranças de João Baltezan.

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Autor

Márcia Christofoli

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