Luiz Carlos Vergara Marques ainda conserva o tom, a dicção e o ritmo da fala dos tempos do rádio, veículo ao qual dedicou a trajetória profissional. Antes de começar a entrevista, se desculpa pela voz levemente prejudicada por uma gripe. Logo, como se quase esquecesse a própria condição de saúde, mostra-se mais à vontade, sorri, emociona-se ao relembrar fatos, acasos e pessoas que marcaram a carreira. Dono da voz que por 36 anos consecutivos comandou o programa Turfe e Boa Música – atração que percorreu diferentes emissoras -, realizou transmissões de páreos do Parcão (Parque Moinhos de Vento) ao Hipódromo Cristal. Hoje, empresta o nome a uma das cabines do espaço.
Aos 81 anos, costuma brincar que uma amnésia apagou da memória aquela que chama de idade material. “Fiquei apenas com a espiritual: 34 e meio, bem vividos”, diverte-se. O segredo para trabalhar em rádio, segundo ele, é exercitar, familiarizar-se com a latinha. “Parece que o microfone vai te engolir, mas tu engole o microfone, no bom sentido”, afirma, explicando que o profissional deve ter o domínio do aparelho.
De romântico a narrador
A entrada no rádio nunca foi um desejo; tampouco, premeditada. Chegou a Porto Alegre aos 16 anos para concluir os estudos no ginásio (antigo ensino médio). Tinha a intenção de cursar Agronomia e retornar à cidade natal, a fronteiriça Jaguarão, e administrar a fazenda da família. Ao acompanhar um amigo a um teste na rádio Gaúcha, foi desafiado pelo responsável pela programação a ler uma lauda de rádio. “Quando acabei a leitura, ele perguntou: “que rádio tu trabalhaste?””. Nunca havia passado por emissora alguma. Já o colega ao qual acompanhava recebeu como resposta um desanimador “você não serve nem para vender amendoim”.
A proposta imediata foi para que iniciasse como locutor em dois dias. No entanto, ao contar a novidade ao primo Milton Vergara Correia, recebeu o convite para outra avaliação, desta vez na Farroupilha. Foi nessa emissora que, de fato, iniciou a caminhada como radialista. “Eu era locutor romântico. Apresentava o “Acalanto, música e poesia para embalar teu sono””, relembra. Mais tarde, um novo convite o levou à rádio Itaí, emissora que tinha o turfe como principal esporte na programação. Lá, pôde investir no programa “Turfe e Boa Música”, que, além da transmissão dos páreos, trazia notícias diversas, curiosidades e conhecimentos gerais.
Sucesso com a atração radiofônica, Vergara Marques percorreu outras emissoras, como Princesa, Difusora (atual Bandeirantes), Pampa, Sucesso e 1120 AM (hoje Rural). No comando do programa, conquistou os prêmios Negrinho do Pastoreio, J. Bronquinha e Casa do Artista Rio-grandense, e distinções da Gazeta de São Paulo, da Associação dos Cronistas de Turfe de São Paulo, do Jóquei Clube de São Paulo e do Jóquei Clube Brasileiro. O desempenho em frente ao microfone também lhe rendeu o título de Cidadão de Porto Alegre.
Do desafio, a lição
Filho da uruguaia naturalizada brasileira Amélia Vergara Marques e de Clodomir Soriano Marques, Vergara Marques conta que a paixão pelos cavalos vem desde a infância. Quando criança, costumava dependurar-se nas árvores da fazenda da família e apontar os animais, indicando os nomes e parte da árvore genealógica de cada um dos bichos. Recorda que apenas ele e o irmão Clóvis, já falecido, montavam nos puros sangues da família. Acredita que o contato com a espécie desde pequeno teve influência na facilidade que encontrou ao tornar-se narrador de turfe. A criação de cavalos é um hobby até hoje.
Quando menino, ainda em Jaguarão, Vergara Marques estudou no Instituto Porto Alegre, que tinha no currículo um grêmio literário, ao qual, certa vez, ele foi chamado para compor. “Eu, guri, era avesso a essas coisas, achava que não eram masculinas”, lembra, explicando que se rebelou contra a convocação. O pai precisou interferir, ao que ele acabou participando das reuniões.
Na primeira oportunidade de declamação de poesia, recebeu uma vaia. Insatisfeito, pediu que lhe dessem uma nova chance. O resultado veio através de aplausos. O acontecimento, acredita, teve influência muito grande no seu destino como radialista. “Tenho certeza que a experiência da oratória me ajudou muito no meu primeiro teste no rádio.” Do episódio, ele também tirou a lição de que tudo é suscetível de transformações. “Quase tudo na vida que se tem uma concepção, é possível mudar”, conclui.
Por outras ondas
Cercado pelo universo feminino, se diz um apaixonado pelas mulheres e diverte-se ao contar que aprendeu a lidar com as características delas, como, por exemplo, o descarado ciúme da neta. Viúvo de Carmen há três anos, afirma que foi “muito bem casado”. Hoje, divide o sobrado onde vive com a filha Ísis, professora e diretora em uma escola, e a neta Nathália, que em breve se formará em Direito.
Apesar do gosto apurado pela música erudita, à qual atribui a responsabilidade pelo espírito jovial, revela-se um grande admirador do tango, do bolero e, principalmente, do samba. Livros também são muito bem-vindos. Integrante de um grupo de literatura, tem na leitura uma atividade com a qual recheia os dias.
O companheirismo e a dedicação às amizades são para Vergara Marques as suas principais qualidades. Já o defeito, acredita, fica por conta do que chama de “ser um mau inimigo”, pois, mesmo que quisesse, não conseguiria guardar mágoas ou rancores.
O círculo de relacionamentos não se restringe ao meio do rádio e da comunicação. Na verdade, envolve pessoas de diversos ramos de atividades e essa variedade de perfis é algo que ele preza muito. Por isso, gosta de reunir os parceiros em almoços e jantares. Lembra que em uma dessas reuniões, um amigo comentou sobre o que seriam dos encontros no dia em que Vergara partisse. A resposta foi enfática: “Está maluco? Vocês precisam dar continuidade a isso”.
A morte dos colegas de profissão é um acontecimento que tem sentido muito nos últimos anos. “Minha geração está passando. Morreu o Cândido (Norberto), o (Jorge Alberto Beck) Mendes Ribeiro, que começou junto comigo, o (João Baptista Mendes) Sayão Lobato…”, lamenta.
Deixando a latinha
Era 1954, mais precisamente, dia 24 de agosto daquele ano, quando Vergara Marques protagonizou um momento histórico do rádio. Na época locutor na Gaúcha, faltavam 10 minutos para anunciar a radionovela “O poder do ódio”, quando foi informado do suicídio do então presidente Getúlio Vargas. Com a família materna favorável ao líder populista e a paterna contrária, diz que soube reconhecer a força da informação e não teve dúvidas: substituiu o capítulo da atração por música clássica. “Deu um rolo, tu nem imaginas”, recorda, aos risos. “E para encontrar no acervo canções eruditas? Foi uma briga. O diretor artístico disse que eu não tinha autoridade, mas acabei fazendo”, explica, relembrando que a atitude lhe rendeu muitos cumprimentos à época.
“Toque de focinho para o cavalo “tal””, narrou Vergara Marques passadas quase quatro décadas, numa noite de segunda-feira. Com a expressão, anunciava o vencedor em uma disputa acirrada do turfe, na qual dois animais ultrapassaram a linha de chegada “cabeça a cabeça”, e ainda sem saber iniciava a sua despedida do rádio.
A informação dada por ele foi questionada, mas, em breve, confirmada pelo registro fotográfico do hipódromo. “Mas tu é galo, Vergara”, ouviu do mesmo amigo que havia desconfiado da sua precisão. Sempre defendeu que era preciso saber a hora de parar e o elogio o fez perceber que o momento havia chegado. “Eu pensei: “está na hora de parar como galo, não como frango, nem como galinha””, explica. Cerca de um mês depois, ao ser chamado para renovação do contrato, comunicou a decisão.
Até a aposentadoria, efetuada pela Universidade AM, da Ufrgs, em 1993, Vergara Marques contabilizou 42 anos de trabalho no meio radiofônico. Se ele se sente uma pessoa realizada? Não tem dúvidas. “Posso dizer que fui muito feliz no rádio e isso é o suficiente para eu concluir que sim. Afinal, fui radialista na concepção da palavra”.

