Perfil

Emanuel Mattos: Com o Jornalismo no coração

Dedicado, competente e ético, ele teve importante participação em veículos importantes. Pelas redações, conquistou admiração e muitas amizades.

Emanuel Mattos sempre soube o que queria: ser jornalista. Para alcançar seus objetivos, teve que vencer alguns obstáculos e apostar nas oportunidades que foram aparecendo. Nascido José Emanuel Gomes de Mattos, em 29 de maio de 1951, considera-se porto-alegrense da gema. “Nasci no Centro da capital, na maternidade São Manoel.” Filho da cabelereira Hermy Lony – filha de imigrantes alemães – e do sargento das Comunicações da Aeronáutica, radialista e jornalista José Mauro – natural de Icó (CE), Emanuel tem dois irmãos, Ariel, o mais velho, e Ícaro, o caçula da família. Da infância, diz ter recordações interrompidas. Aos quatro anos de idade, mudou-se com a família para Florianópolis, onde o pai foi atuar como apresentador de programas nas rádios Anita Garibaldi, Jurerê e Guarujá. “Lembro da participação do Cauby Peixoto. Ele estava em um hotel a duas quadras da rádio e levou quase uma hora para chegar no programa, porque as pessoas queriam abraçá-lo e tirar fotos”, recorda. “Meu pai era muito dinâmico”, completa. 

Os pais separaram-se em meados de 1956, e a mãe voltou com os filhos para o Rio Grande do Sul. “Viemos sem nenhum recurso. Minha mãe conseguiu bolsas escolares para os filhos. Eu fui estudar no Dom Feliciano, um colégio interno em Gravataí.” Em 1958 o pai morreu, vítima de um acidente cerebral, aos 29 anos. “Minha mãe, eu e meus irmãos fomos para Florianópolis em um avião da FAB (Força Aérea Brasileira). Chegando lá, recebemos a informação de que meu pai tinha morrido no Rio de Janeiro, para onde havia sido removido a  fim de ser submetido a uma cirurgia após sofrer um acidente vascular. Ele faleceu durante a operação e lá foi enterrado”, lamenta.

Dos seis aos 15 anos de idade, o jornalista passou dentro de instituições internas. Concluiu o ginásio no Colégio Champagnat em 1966. Aprendeu a ser organizado e disciplinado e recorda que sua grande preocupação era o estudo. “Como tinha bolsa, não podia repetir o ano. No Dom Feliciano, uma vez por mês o aluno que conquistava as melhores notas recebia uma medalha para usar no peito. Eu consegui algumas vezes e era uma grande satisfação”, comemora.

A paixão pelo jornalismo começou ainda na infância. “Meus amigos de bairro diziam que eu era jornaleiro porque catava os jornais da rua para ler. Também sempre me interessei por esporte. Colecionava revistas e montava minha seleção com os melhores jogadores do mundo”, conta.

A hora da virada

Antes de se aventurar pelo mundo da informação, Emanuel atuou por seis anos em bancos e financeiras. Em 1973, decidiu prestar vestibular para ingressar no curso que sempre almejou. “Eu queria estudar na PUC porque era a melhor universidade. Sempre soube que faria um único vestibular, em uma única universidade e para um curso apenas, que era Jornalismo”, afirma.  E ele tinha razão. Conquistou uma das 50 vagas oferecidas e iniciou uma grande mudança em sua vida. “Quando ouvi meu nome pelo rádio na lista dos aprovados, eu estava trabalhando. A sensação é indescritível. Foi como se uma mão me puxasse para cima e me tirasse do meio de uma multidão”, recorda, orgulhoso de sua conquista. “Sabia que a partir dali minha vida mudaria, como de fato mudou”, completa. 

Por algum tempo, conciliou o trabalho bancário com as aulas da faculdade de Comunicação, mas uma oportunidade não demorou a chegar: um estágio inicialmente, com metade da remuneração que recebia. Mas Emanuel não se intimidou e seguiu seu ideal. “Entrei como estagiário de esportes na Zero Hora em 1974. Fiz um teste, passei e fui. Estava em uma fase que se continuasse como bancário começaria a conquistar cargos importantes e nunca mais seria jornalista”, avalia. A vida de estagiário durou pouco: um mês e 15 dias. Depois desse período, veio o convite para atuar como setorista na Folha da Manhã. “Foi o Antonio Britto quem me chamou. Fui ganhando o dobro que ganhava como bancário e o triplo do que ganhava como estagiário”, diz.

Em setembro de 1974, retornou ao grupo RBS para atuar como redator de esportes no vespertino chamado “Hoje”. Nove meses depois o jornal fechou, mas o jornalista continuou no grupo, na equipe de esportes da Zero Hora até o final dos anos 70, quando trocou o jornal pela Revista Placar. De 1979 a 1983 permaneceu na revista, sendo que nos dois últimos anos trabalhou em São Paulo. “Achei que só voltaria para Porto Alegre em um caixão”. De volta à capital gaúcha e à Zero Hora, assumiu o cargo de editor de esportes.

Em novembro de 1985, abraçou um novo desafio na cidade que é sua grande paixão: Florianópolis. “Fui ser subeditor-chefe do Diário Catarinense, que seria lançado em março de 1986. Inicialmente, éramos eu e o Armando Burd. Começamos a montar a equipe. Liguei para o Marques Leonan (professor universitário) e pedi que ele me mandasse os melhores alunos. Começaram comigo Eduardo Tessler, Silvio Bressan, David Coimbra, que até hoje é um dos meus melhores amigos, entre muitos outros”, recorda.

Insatisfeito com os adiamentos e com a insistência de serem feitos pilotos diante de uma equipe que já estava preparada, desgastando os profissionais, decidiu deixar o projeto. “Estava na sala do Marcos Dvoskin negociando minha saída quando ele recebeu um telefonema dizendo que o avião do governador Esperidião Amin o aguardava para trazê-lo a Porto Alegre, porque o Maurício Sirotsky não estava bem. Diante do fato, decidi ficar. Foi muito marcante. A morte do Maurício fez com que eu permanecesse no Diário Catarinense”, avalia.

O custo da posição política

Nas eleições de 1986, o jornalista ingressou na atividade em campanhas políticas. De volta a Porto Alegre, trabalhou na campanha de Pedro Simon ao governo gaúcho. Com a eleição de Simon, ele participou da equipe que montou o plano de governo, mas depois da posse trabalhou apenas alguns dias como assessor. “Jornalista na política tem pouco a fazer. É um suicídio profissional. Eu me realizo apenas enquanto estou participando de campanhas”, afirma.

Mais uma vez, voltou para a redação da Zero Hora. Em 1989, ano da primeira eleição direta depois de mais de 20 anos, Emanuel pagou caro por assumir uma posição política. “Corria pela redação um abaixo-assinado de quem era a favor de Lula no segundo turno. Coloquei meu nome. O Paulo Sant”Ana logo disse que eu estava assinando minha sentença de morte”, relembra.  Em janeiro de 1990, estava de férias quando foi chamado por um diretor de ZH.  O jornal tinha um novo projeto para a década do qual Emanuel não fazia parte.

Competente, dedicado, logo conseguiu colocação no Correio do Povo. Passou ainda pelo Jornal NH e, em 1993, retornou à política na campanha de Antonio Britto para governador. Com a vitória de Britto, assumiu um cargo de assessor no Palácio Piratini. Em 1995, o jornalista voltava de um encontro com amigos na Zona Sul quando foi detido pela Brigada Militar e acusado de portar drogas. “Eu realmente tinha bebido e discuti com os policiais”, afirma. A notícia foi divulgada pelos veículos da RBS (Rádio Gaúcha e ZH) mesmo antes do julgamento, abalando a carreira e a imagem do jornalista. “Perdi a credibilidade. O que é um jornalista sem credibilidade? Não é nada”, explica.

Emanuel entrou em licença médica, não conseguiu mais emprego e foi aposentado. Respondeu processo por porte de entorpecentes e, por unanimidade, foi absolvido. Ele, que já havia reivindicado pagamento de direitos trabalhistas com sucesso, decidiu novamente acionar a ZH, desta vez por danos morais. Depois de 10 anos de batalha judicial, finalmente pôde comemorar a  vitória.   

Experiência de vida

Durante a trajetória profissional, Emanuel vivenciou importantes histórias. Participou da cobertura de duas Copas do Mundo, em 1978, na Argentina, e em 1982, na Espanha. “Foi uma experiência muito rica”, avalia. Em 1974, presenciou a morte do lateral-esquerdo do Grêmio e da Seleção Brasileira, Everaldo Marques da Silva. “Estava voltando de uma matéria em Santa Maria quando vimos o acidente na estrada. O corpo do Everaldo veio para Porto Alegre no carro da nossa equipe. Ele tinha participado de um amistoso em Cachoeira do Sul e voltava com a família. Só uma filha dele sobreviveu”, recorda.    

Um dos orgulhos de Emanuel são os três prêmios da Associação Riograndense de Imprensa que conquistou. Em 1978, recebeu o primeiro lugar na categoria Reportagem Esportiva, conquista inédita para a Zero Hora; em 1990, foi o primeiro colocado em Reportagem Geral para o Correio do Povo, como editor de Política do jornal, juntamente com seus quatro repórteres que cobriram a campanha eleitoral daquele ano; e recebeu ainda o primeiro lugar na categoria Crônica, também no Correio do Povo. “E escrevi apenas quatro vezes naquele espaço”, comenta. 

Afastado dos veículos de comunicação, mantém o contato com a profissão através de campanhas políticas com as quais colabora sempre que convidado. Nos momentos de folga, gosta de descobrir ou rever um bom filme e dedica-se à literatura. “Descobri há pouco tempo um livro que se tivesse lido antes não teria cometido tantos erros: A Arte da Prudência, de Baltasar Gracián.” Sempre que pode caminha pelo calçadão de Ipanema, próximo à sua residência na Zona Sul, onde vive com Eduardo, seu companheiro há 25 anos. É dedicado também a seus animais: tem dois cachorros e três gatos.

Para Emanuel, seu grande defeito é ser impulsivo. Das qualidades, destaca ter sobrevivido a todos os impulsos que cometeu. “Eu não faria tudo novamente. Se pudesse recomeçar, faria muitas coisas diferentes”, garante, arrependido dos erros que o ensinaram a ser melhor consigo mesmo. “É muito mais fácil ser uma boa pessoa que uma má pessoa.” Aprendeu também a cuidar mais de si. “Deixei de lado o churrasco e virei saladeiro”, diverte-se. “Hoje como para viver”. Abandonou também a bebida. “Foi a melhor coisa que fiz”, acredita.

Um dos projetos do jornalista é escrever um livro. “Leio muito e me preparo para isso, mas só vou escrever se um dia me sentir preparado e encontrar algum assunto que realmente valha a pena”, avalia. Lamenta não ter concluído a faculdade. “Acho que seria um bom professor”.  

Religioso, vai à missa todos os domingos. “Quando recebo o sacramento da comunhão é como se eu estivesse recebendo aquela medalhinha no colégio, que era tão importante para mim. É sinal de que estou no caminho certo, estou em paz comigo, com Deus e com a vida.” E com a “medalha no peito”, Emanuel está pronto para seguir adiante.

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Redação Coletiva

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