Perfil

Lauro Schirmer: De bem com a vida

Com 43 anos de RBS, ele marcou a história da imprensa gaúcha, passando por veículos como Diário de Notícias, A Hora, TV Piratini e Zero Hora, cuja redação dirigiu por 20 anos.

Lauro Schirmer, 77 anos, dedica a vida ao jornalismo e à cultura. Mesmo com a carreira consolidada, marcada por prêmios e pela publicação de livros, procura engajar-se em grandes projetos, como a viabilização de um teatro para a Ospa (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre) e a produção da biografia de Flores da Cunha. Atual coordenador do Comitê de Cultura do Grupo RBS, possui uma trajetória de 43 anos na empresa e assegura ter energia para muito mais. Com seu bom-humor, deixa transparecer no dia-a-dia a satisfação de quem trabalha com o que gosta.

Ao longo de sua infância e adolescência, Lauro, que é natural de Cachoeira do Sul, morou em várias cidades do Estado. Os estudos, realizados em instituições metodistas por influência da família, demandaram o nomadismo. Passou por São Leopoldo, no Colégio Sinodal, por Passo Fundo, no Instituto Educacional, e por Porto Alegre, no IPA, sempre em regime de internato. Retornou à cidade natal por volta de 1946 e logo descobriu seu gosto pelo jornalismo. Por não ambicionar a vida acadêmica, acabou aprendendo o ofício na prática, trabalhando nos veículos locais.

Começou na Rádio Cachoeira, também atuou no Jornal do Povo e, por fim, tornou-se correspondente do Diário de Notícias, periódico da capital. Enquanto firmava-se na profissão, vivenciava seus primeiros grandes romances e muito cedo, aos 19 anos, casou-se. A escolhida foi Lucy Carvalho, com quem permaneceu unido por sete anos. “A cidade era pequena, com pouca coisa para se fazer, então os jovens casavam cedo”, diverte-se. No mesmo ano, nascia sua primeira filha, Flávia Schirmer, e, pouco depois, o caçula Gerson Schirmer.

Ainda nessa época, o jornalista deu vida à reportagem “24 horas com Getúlio”, que se tornou uma espécie de marco em sua carreira. Veiculada pelo Jornal do Povo em 1949, a matéria foi escrita após uma viagem feita por ele à fazenda do irmão de Getúlio Vargas. Lauro acompanhava seu conterrâneo João Neves da Fontoura, um político de destaque na época e, embora não pudesse fazer anotações, registrou conversas curiosas entre as duas figuras públicas. “Eles não faziam idéia da minha profissão, eu era um novato”, contextualiza. O texto ganhou grande repercussão: foi publicado no Diário de Notícias e distribuído para todos os veículos pertencentes ao então poderoso grupo Diários Associados, que possuía jornais e rádios nos principais pontos do país.

De mala e cuia

A mudança para Porto Alegre, no começo da década de 50, foi motivada por sua filiação ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). “Cheguei a ser candidato a deputado estadual, em Cachoeira, em 1954”, conta. A campanha política não teve sucesso, mas facilitou seu ingresso no jornal A Hora, onde trabalhou até 1959, passando pelas funções de repórter, cronista esportivo, diagramador e secretário de Redação. Nesse período também cursou dois anos de jornalismo na PUC, mas nunca concluiu a graduação. “Eu estava absorvido pela prática da profissão”, justifica.

Despediu-se de A Hora para experimentar a rotina da TV. Chefiou o departamento de Jornalismo da recém-inaugurada TV Piratini, também do grupo Associados, e chegou a conquistar o 1º Prêmio ARI de Televisão, então instituído pela Associação Riograndense de Imprensa. A reportagem premiada, gravada na Santa Casa, falava sobre a primeira cirurgia cardíaca extra-corpórea feita no Brasil. Em 1963, a convite de Maurício Sirotsky Sobrinho, ele passou a dirigir o telejornalismo da TV Gaúcha, dando início a sua longa trajetória no Grupo RBS.

Mais tarde, em 1970, novamente acompanhando Maurício Sirotsky, Lauro voltava à mídia impressa assumindo a direção da redação de Zero Hora, cargo no qual permaneceu por 20 anos. Desta época ele recorda com carinho e destaca sua conquista, junto com a equipe Opinião ZH, do prêmio Opinión, concedido pela Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). A distinção deveu-se a uma série de editoriais contra a corrupção no governo Collor e destacou o jornal como o primeiro – e, até agora, o único – premiado pela SIP no país.

A partir de 1990, o jornalista tornou-se coordenador editorial dos veículos da RBS e, depois de aposentado, chefe do Comitê de Cultura da empresa, função que executa até hoje. Projetos como o Fato Literário, o Salão Jovem Artista e o Histórias Curtas, por exemplo, receberam o seu aval antes de saírem do papel. “O comitê é responsável por examinar os projetos que pedem o apoio da RBS, além de criar novas iniciativas”, explica. Eventualmente, o jornalista ainda atua como articulista e colaborador do ZH cultura.

Registrando a história

O repórter também se aventurou no mundo da literatura ao escrever duas obras sobre os veículos que mais marcaram sua carreira. No primeiro livro, “A Hora – Uma revolução na Imprensa”, lançado em 2000 pela L&PM, ele conta a história do antigo jornal gaúcho. Já em “RBS: Da Voz-do-Poste à Multimídia”, relata a formação da Rede Brasil Sul a partir dos feitos de seu amigo Maurício Sirotsky Sobrinho. O talento para escrever ele atribui a uma frase de Otto Lara Resende: “Para escrever bem, é preciso ler. E eu leio muito!”.

Agora, o sucesso dos primeiros textos o encaminha para um desafio maior, o de escrever uma biografia, seu gênero literário preferido. Para esta empreitada, a figura pública escolhida por Lauro é Flores da Cunha, a quem considera “o melhor governador que o Rio Grande do Sul já teve”. A pesquisa sobre a vida do político já foi iniciada e tem ocupado, em média, quatro horas diárias do jornalista, que já arrecadou muitos livros e está colhendo depoimentos em várias cidades. “Estou descobrindo coisas incríveis sobre ele e, por isso, não tenho pressa de concluir este trabalho”, comenta.

A escolha por Flores da Cunha, ele associa à ausência de biografias das personalidades políticas do Estado. “Existe uma falha em relação a isso”, enfatiza, citando Assis Brasil como exemplo. “Ele ainda não tem uma biografia a sua altura”, afirma. Lauro também lembra de Getúlio Vargas e garante que apenas no ano passado, com Juremir Machado, é que o ex-presidente teve sua história contada por um brasileiro. Sobre o livro que está escrevendo, o jornalista adianta que deve demorar em torno de um ano para publicá-lo e que apresentará o ex-governador “de corpo inteiro, em todos os sentidos”.

Dedicação total

O universo da cultura parece conduzir a vida de Lauro. Fora do trabalho, os espetáculos, filmes e exposições continuam integrando sua rotina e invadem a vida pessoal. Engajado em projetos da área, ele não se limita a apreciar as artes sozinho. É presidente da Fundação Pablo Komlós, entidade privada criada para viabilizar a construção do Teatro da Ospa, causa à qual se dedica intensamente. Mas a briga ainda está longe do fim, como ele mesmo relata: “Estava tudo encaminhado para que uma área do Shopping Total fosse utilizada, mas surgiram problemas com os moradores da região e com o Ministério Público também”.

Admirador da música clássica, freqüenta seguidamente os concertos da Ospa, do Theatro São Pedro e da Orquestra de Câmara da Ulbra e lamenta que a Orquestra Sinfônica da Unisinos não esteja mais na ativa. No final de 2005, diz ter recebido uma notícia maravilhosa. Após nove tentativas, obteve ingressos para assistir a duas óperas, nos dias 24 e 28 de agosto deste ano, de um grande festival alemão que acontece anualmente na cidade de Bayreuph. Embora já tenha viajado mais de dez vezes para o país europeu, o jornalista está ansioso. “O teatro tem apenas 980 lugares que são disputados pelo mundo inteiro”, explica.

A viagem será feita na companhia da jornalista Célia Ribeiro, colunista do jornal Zero Hora, com quem é casado desde o final da década de 50. “Casamos no Uruguai porque naquele tempo não existia divórcio”, recorda. Conheceram-se no jornal A Hora, onde ambos trabalhavam, e cultivaram, ao longo do tempo, um ótimo entrosamento, facilitado pela afinidade profissional. “Temos muito respeito e admiração um pelo outro, tanto no âmbito pessoal como no mercado de trabalho”, orgulha-se.

Ele traz na memória visitas a inúmeros países. Do continente americano, por exemplo, conhece o Canadá, os Estados Unidos, o México, a República Dominicana, Porto Rico, Bogotá, Santiago do Chile, Buenos Aires e Montevidéu. Na Europa, já passou por Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Dinamarca, Alemanha, Áustria, Suíça, Itália, Grécia, Turquia e Israel. Mas, independentemente da extensa lista de roteiros executados, ele viaja diariamente, sem percorrer distâncias. Sua paixão pela cultura o leva a vôos altíssimos sem que seus pés saiam do chão.

Nota da Redação: Lauro Schirmer faleceu em 24/07/2009.

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Autor

Redação Coletiva

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