Perfil

Milton Cougo: De olho na notícia

Repórter cinematográfico fala da vida por trás das lentes

Era 1980 quando a TV Gaúcha – hoje RBS TV – enviou colaboradores para cobrir as eleições do Uruguai. Em função da ditadura, a equipe foi, durante todo tempo que esteve em Montevidéu, vigiada pela repressão. Na última noite, os jornalistas da emissora ligaram para o apartamento de um colega, dizendo que estavam sendo torturados, aos gritos. Ele, por sua vez, acordou o motorista, com quem dividia o quarto, e os dois, extremamente assustados, foram até a entrada do hotel. Foi quando encontraram os autores da ligação às gargalhadas e perceberam que não passava de uma brincadeira. Este foi o “batizado” da primeira viagem internacional do repórter cinematográfico Milton Cougo.

Há mais de 20 anos ele atua atrás das câmeras. O pai de Rainer, estudante de Administração, e Christian, formando em Odontologia, se diz realizado com a profissão, e “cheio de gás para novos desafios”. Para ele, tudo que se faz na vida deve ser bem feito. “Sempre me dediquei a tudo que me propus”, garante. Vice-presidente da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos (Arfoc), ele fala muito em sonhos. “Independentemente da profissão, não se pode deixar de sonhar, acreditar e trabalhar, pois só assim algo pode ser realizado.”

Emoção é o sentimento que norteia a conversa com Milton. Entre lembranças, lágrimas e risos, o repórter, que atua há cinco anos na Unidade de Comunicação do Sistema Fiergs, fala dos momentos marcantes que a carreira trouxe, das recordações da infância, vivida em Bagé, e das paixões que o motivam a levar a vida com bom humor.

Rumo ao topo

Milton entrou no caminho das imagens por acaso, aos 19 anos. A vontade e a necessidade de trabalho levaram-no a procurar uma vaga de auxiliar de repórter cinematográfico – na época, conhecido como Pau de Luz – na RBS. A indicação foi do primo Antônio Flores, editor de imagens da empresa. Vaga assegurada, o gosto pelas câmeras passou a fazer parte da sua vida. “O mundo das imagens era completamente diferente para mim, mas não demorou muito para eu incorporar a profissão.” Sempre muito ‘xereta’, como ele se denomina, perguntava tudo para todos, sempre em busca de mais conhecimento.

Tinha um ano de casa quando surgiu a oportunidade de assumir a equipe em que trabalhava. O coordenador saiu de férias e deixou o setor sob sua responsabilidade. “Mesmo apavorado com a missão que tinha recebido, e com colegas bem mais velhos que eu, tratei todos com muito respeito e isso me garantiu o sucesso”, avalia. Foi a primeira provação que Milton recebeu na profissão. O segundo reconhecimento não demorou muito.

Quando tornou-se operador de VT (VídeoTape), função interna da emissora, percebeu que tecnicamente tinha acertado na escolha, pois passou a ter contato diário com os equipamentos. Foi nesta época que começou a desejar o cargo mais alto do setor – o de repórter cinegrafista especial, segundo conta, era o profissional mais requisitado na escala de importância.

Na falta de um funcionário para captar algumas imagens após uma partida final de Campeonato Gaúcho, Milton se dispôs e conseguiu a chance de usar a criatividade. Mesmo inexperiente, produziu o que precisava e até um pouco mais. Captou imagens desfocadas, com planos abertos, fechados, entre outros. No dia seguinte, recebeu um recado do chefe, através do mural da RBS, elogiando o trabalho e a coragem dele. O momento foi um divisor de águas, pois, a partir deste dia, passou a competir com profissionais que já tinham muita experiência. “Naquele tempo existia um plano de carreira, e, quando finalmente surgiu a vaga para repórter cinematográfico, eu fui o escolhido”, conta, visivelmente emocionado.

O que a vida trouxe

Milton veio ao mundo pelas mãos de uma parteira. O filho da dona de casa Terezinha Castro Cougo, a quem chama de guerreira, perdeu o pai, o sargento do Exército Romeu Borba Cougo, aos sete anos. “Foi um período bem difícil, especialmente para minha mãe, que ficou sozinha com três filhos (ele tem duas irmãs, Eliane Terezinha e Rosa Lúcia)”, conta, às lágrimas, para logo dizer que, na época, sentiu-se ‘o homem da casa’.

Sobre a infância na Fronteira, lembra dos retornos à Campanha. Nas férias escolares, o repórter visitava a família, em General Vargas, interior do Estado, e de lá guarda muitas lembranças. Tirava leite de vaca, buscava o gado, auxiliava na plantação de batata, jogava bolinha de gude, brincava de laçar leitão e andava a cavalo. “Essas coisas do campo eram muito gostosas. Todo este contato com a terra mantinha o meu vínculo com o campo”, recorda. As práticas permaneceram até a adolescência, quando passou a ter “uma vida mais urbana”.

Como todo menino, a paixão pelo futebol sempre foi muito presente, mas no caso de Milton o interesse virou rotina. Privilegiado por seu porte físico, durante quatro anos jogou nas categorias de base do Sport Club Internacional, apesar de declarar-se gremista. A paixão era tanta que, mesmo ganhando da mãe uma banca de frutas, para que pudesse ter o próprio sustento, priorizou o futebol e os estudos e, por conta disto, o empreendimento fechou. Uma lesão no braço o fez largar o esporte. As ‘peladas’ só aconteciam com os amigos do bairro Jardim do Salso, onde morava, no ‘sangue e areia’, apelido dado a um campo de futebol, pois qualquer tombo tornava-se um machucado.

Façanhas de um repórter

Trabalhou na Bandeirantes por sete anos, a convite de Ubirajara Valdez. Sobre este tempo ele orgulha-se: “Foi um período mágico. A equipe trabalhava por amor, mesmo com condições mínimas.” Mesmo depois de ter deixado a emissora, chegou a fazer trabalhos freelancer para a empresa. Durante um dia “comum”, foi entregar o equipamento e soube de um assalto a um supermercado do bairro Menino Deus. Escutou que a emissora estava sem equipe para enviar. Não pensou duas vezes em se dispor a fazer a cobertura. Foi o que fez. Sozinho, conseguiu um carro e foi até o local, entrevistou pessoas e fez as imagens que achou necessário.

Ao avistar um carro da polícia se dirigindo para um prédio residencial próximo, disfarçou para não alertar os concorrentes e, sorrateiramente, conseguiu chegar onde estava a viatura. Lá, descobriu que os assaltantes estavam escondidos no empreendimento. Ao isolar a área, a Brigada Militar deixou Milton dentro do prédio, enquanto toda a imprensa estava do lado de fora. O cinegrafista fez imagens com exclusividade e chegou, inclusive, a entrar ao vivo na rádio com informações sobre o ocorrido. “Não basta só gostar do que faz, tem que ter atitude”, alerta.

Outro momento marcante da carreira foi a cobertura da campanha para presidente do Paraguai, em 1992, quando passou nove meses no país ao lado de mais 20 brasileiros. Segundo ele, a experiência foi única. “Andávamos de jatinho particular no mesmo dia em que éramos transportados na carroceria de um caminhão. Foi um período de muita aventura”, conta aos risos. Aliás, campanhas políticas fazem parte do currículo de Milton. Ele já participou de períodos eleitorais com todos os partidos brasileiros.

O repórter se orgulha de ter trabalhado em tantas empresas de comunicação. No Rio Grande do Sul, além da Bandeirantes e do Grupo RBS, por onde teve três passagens que somam 15 anos, atuou também na TVE, como supervisor de imagens, e cobriu férias de um colega no SBT. Desse último recebeu um dos mais importantes reconhecimentos da carreira: o Prêmio Esso de Jornalismo. Ao lado de Cristiane Finger, produziu a reportagem ‘Mulheres que amam demais’, e esta foi a primeira vez que uma equipe gaúcha conquistou a categoria de Telejornalismo da distinção. Emocionado ao lembrar do fato, ele é objetivo: “Foi sensacional”.

Longe das câmeras

Foi através de uma amiga em comum que Milton conheceu Sarah, com quem namora há quatros anos, e se derrete em elogios ao falar da companheira. “Uma pessoa maravilhosa. Parceira demais”, afirma. É ao lado dela que ele passa os finais de semana. Longe das câmeras, gosta de viajar, seja para a praia ou para a Serra. Adora caminhar na Redenção, acompanhado de um chimarrão, e de estar em contato com a natureza. Mesmo nos momentos de lazer, ele confessa que não consegue ficar muito tempo sem registrar algumas imagens por simples diversão.

Sobre os filhos, prefere ser objetivo e com lágrimas nos olhos diz: “Eles são tudo”. Milton fala pouco da relação com os rebentos, mas garante que tudo o que faz é pensando neles. Até mesmo o incentivo aos estudos. “Se eu não me dediquei, não é porque não quis, mas porque priorizei o trabalho”, revela. Ele não chegou a cursar Jornalismo, sua formação é a experiência. Hoje, termina o ensino médio e tem planos de cursar a faculdade de Cinema.

Aos 50 anos, se considera ‘um cara leal’ e superprotetor com quem o cerca. Não admite desrespeito e acredita que seu lado sentimental é um defeito, pois as coisas doem mais. O primeiro presidente da Arfoc a ser cinegrafista, e não fotógrafo, se diz realizado, pois “seria injusto pensar diferente”. Milton garante que, até hoje, recebeu mais elogios do que críticas e não tem lema de vida. “Tenho fé”, resume. Entre seus projetos está tirar do papel o documentário ‘Profissionais da imagem – A vida por trás das lentes’.

Ensinando para vida

Uma das atividades que mais encanta Milton é ensinar, ou como ele prefere dizer, “passar informações”. E não poderia ser diferente, já que encara a qualificação profissional como essencial no crescimento. A busca pelo conhecimento, segundo ele, deve ser constante. Durante cinco anos treinou diversos iniciantes, na RBS, e tem muito orgulho disso, pois acredita ter preparado muitos dos alunos para a vida e não apenas para a profissão.

O interesse por ministrar cursos começou pela característica de ser ‘xereta’, como ele mesmo brinca diversas vezes. Quando ainda era auxiliar de cinegrafista, na RBS, Milton foi disponibilizar o equipamento para um profissional que palestrava. Não poderia participar do evento, mas “foi ficando” e assistiu toda a especialização. Alguns anos após, a curiosidade deu resultado. Tornou-se instrutor do projeto Caras Novas, da mesma emissora.

Ver o sucesso dos colegas de profissão que foram seus alunos é motivo de orgulho. Saber que teve alguma participação na caminhada deles exalta o repórter cinematográfico. “Nunca pensei em treinar concorrentes, pois acredito que há espaço para todo mundo no mercado de trabalho. Se o cara for melhor que eu, mérito dele.”

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Autor

Márcia Christofoli

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