Jornalismo constava em uma lista de quase 10 profissões que Dica Sitoni gostaria de seguir. É que ela achava que podia ser muitas coisas ao mesmo tempo. Sempre adorou música, para ouvir e para cantar. Artes Plásticas também poderia ter sido um caminho, mas a área ainda não era reconhecida como profissão. Veterinária, Direito, Psicologia, Publicidade e Educação Física também estiveram na tal lista e, garante, teria sido feliz em qualquer uma delas. Motivada pelo time do coração, Dica queria mesmo era cobrir os jogos do Grêmio. Alertada de que não poderia “fazer vestiário”, já que, na época, repórter tinha acesso livre a qualquer espaço dos estádios, o contra-argumento era simples: “Se médico pode analisar homens e mulheres, eu também posso fazer vestiário”. O tempo passou e a vontade de acompanhar o clube tricolor ficou de lado, mas a de seguir no Jornalismo ficou mais forte a cada semestre cursado na Famecos.
Com mais de 30 anos de carreira, Juraci Sitoni Nunes ficou para trás e deu lugar à Dica Sitoni. “Meu nome foi uma homenagem à minha avó materna, com quem sou muito parecida fisicamente. Já fui Juraci, mas nunca gostei do nome. Hoje, sou apenas Dica”, explica. Hoje diretora de Jornalismo da Secretaria de Comunicação e Inclusão Digital do Estado, diz que não dá bola para nada material. “Cargos vão ficar registrados na minha história, apenas isso. Ser diretora, por exemplo, sou hoje, amanhã não serei mais.”
E o clima pesou…
Logo após ter se formado, em 1984, Dica foi trabalhar em Foz do Iguaçu, no Paraná, ao lado do então noivo e colega de profissão, Renato Hofmann. No local, a dupla atuava como repórteres, editores, fotógrafos, diagramadores, enfim, todas as funções que um jornal pequeno exige. “Foram seis meses tensos”, recorda. Das diversas produções, duas matérias fazem com que as lembranças do período não sejam as melhores.
Na primeira, Dica escreveu sobre a forma como a Polícia Federal tratava os portadores do vírus HIV. “Em tempos de tantas dúvidas sobre a Aids, descobri um preso que era tratado como bicho por acharem que ele era soropositivo. Fui até a cadeia, conversei com ele, vi cenas horríveis”, detalha a jornalista, que ainda lembra do título da matéria: ‘Polícia Federal tem medo da Aids’. A reportagem desagradou a categoria.
Para contribuir com a antipatia da corporação, veio a segunda reportagem. Em Foz existia a Guarda Mirim, que, segundo Dica, era “uma forma disfarçada de explorar o trabalho infantil”. Ao descobrir que integrantes do grupo sofriam abusos, inclusive sexuais, a jornalista publicou a denúncia. A matéria resultou em questionamentos, represália e perseguição. “Olhava pela janela e via um policial encarando meu apartamento. Descia do prédio, tinha um carro deles na frente. Chegaram a me chamar para dizer que eu deveria fazer outra matéria desmentindo a primeira, mas me neguei”, revela.
Assustado, o casal resolveu voltar para Porto Alegre. A pressão era tanta que mandaram os móveis por transporte aéreo, mas vieram de ônibus para despistar. O resultado imediato da experiência foi uma depressão, que a manteve trancada em casa por alguns meses. “Foi difícil superar. Hoje, entendo que foi um risco que precisava ser corrido. É o preço que se pagava por fazer aquele tipo de Jornalismo”, reflete.
Por todos os lados
Antes mesmo de se formar na faculdade, teve a primeira experiência com veículo de comunicação. A Cooperativa dos Jornalistas foi para Dica uma grande escola, como ela denomina. “Trabalhava como revisora no Coojornal e tive a oportunidade de trabalhar ao lado dos grandes mestres da época”, relembra, citando colegas como Rafael Guimaraens, Osmar Trindade, Eduardo Bueno, entre outros. O gosto pelas matérias mais aprofundadas foi adquirido neste período, pois, conforme relata, as produções da cooperativa eram muito mais do que informativas, “eram investigativas e instigativas”.
O Jornal do Comércio, onde atuava com uma equipe que praticava o que Dica chama de ‘Jornalismo puro’; o Correio do Povo, onde conheceu o atual marido, o jornalista e presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Celso Schröder; as rádios Band AM e FM, onde concretizou a antiga paixão de trabalhar com o meio; as experiências menores ou mais curtas como o jornal alternativo Denúncia; o trabalho eventual para uma revista de Turismo; a atuação na Folha de Caxias, como editora e, depois correspondente; e a editoração da revista Porém, que tratava “dos dois lados das histórias” – tudo isso fez de Dica uma profissional que conheceu os dois lados do balcão e que não se arrepende da escolha que fez, “nem por um segundo”.
A Política incorporada
Os sensos de justiça, de igualdade e de ética foram valores pregados pelo pai, Alcibio Nunes, falecido quando ela tinha 14 anos. A partir disso, Dica norteou sua vida de acordo com os ensinamentos e acredita que foram eles que a levaram a se filiar ao Partido dos Trabalhadores (PT). Antes, porém, o movimento das Diretas Já, que mobilizou a sociedade no início da década de 1980, influenciou a simpatia pela Política. “Tinha no Jornalismo a minha forma de mudar o mundo. E, na verdade, ainda tenho”, recorda.
Nessa área, acumula passagens por diversas assessorias de comunicação. Quando deixou de atuar em veículo, foi para trabalhar no PT. O governo de Olívio Dutra (199-2002) foi o primeiro, mas Tarso Genro também contou com ela, nas prévias do partido e na campanha para governador do Estado. Com a perda nas eleições e a morte do colega José Eduardo Utzig, que era coordenador geral da campanha, passou mais um tempo reclusa. “Sou portadora da síndrome do pânico. Certas situações desencadeavam a depressão”, revela, salientando que não tem crises há mais de 10 anos.
No mesmo ano, o PT ganhou na presidência da República, com Lula, e não demorou a chegar o convite para trabalhar em Brasília. Era para atuar com Tarso, na criação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão. Com dois filhos pequenos e prevendo que ficaria sem apoio para cuidar da dupla, Dica declinou do convite, mas confessa ter sido o não mais difícil de sua vida.
Sou eclética
Assim como foi quando precisava escolher a profissão, Dica gosta de tudo. Vê quase todos os filmes que chegam ao cinema, sem ter preferência por algum gênero. “Só não vejo aquilo que em nada vai me acrescentar. Não vou ao cinema para ver Duro de Matar, mas, se passar na TV, até vejo.” Em música , não muda a resposta: “Sou eclética. Gosto de sentir a música”. Ela dá como exemplo o fato de não doer ouvir Chitãozinho e Xororó, mas não compraria um DVD deles. Gosta também de Alcione, de Fábio Júnior, de música clássica, mas admira mesmo os Beatles. “Ouvimos eles lá em casa como se fosse uma banda recente. Meus filhos incorporaram essa paixão”, conta.
Apesar da variedade de gostos, tem algo que não há muitas opções. Na gastronomia, é enfática, gosta de massa. “Parei de fumar há mais de 30 anos, de beber há mais de 10, mas parar de comer massa é impossível.” Frequenta pouco a cozinha, mas, apesar da raridade, tem algo que os filhos adoram: “Eles dizem que a minha salada de maionese é a melhor do mundo”. Entre os prazeres também há planos, como o de cursar a faculdade de Letras para dar aula em escolas e atuar com comércio. “Adoro vender, tanto quanto comprar. Sinto uma satisfação medonha”, brinca.
A herança e o legado
Quarta filha de uma turma de cinco, nasceu em Bagé e, mesmo que tenha vindo para Porto Alegre muito nova, considera lá como sendo seu lugar. “Sou de Bagé, estou em Porto Alegre.” Casada há 20 anos com Schröder, diz que ter como marido um colega de profissão ajuda na compreensão mútua. Com as frequentes viagens do companheiro, Dica se esforça mais para estar com os filhos. “Mesmo me dedicando no trabalho, eles contam com a minha presença em tudo. Por isso, são minha prioridade”
Paula, de 17 anos, tal qual a mãe, expressa vontade de seguir carreira em diversas áreas. Toca contrabaixo, faz aula de canto, gosta de moda e namora também o Jornalismo. “Já falei que ela pode ser o que quiser. O importante é que seja feliz”, ensina. A mesma indecisão não é enfrentada por Gabriel, de 10 anos: ele quer ser jogador de futebol. Treina na Escola de Futsal do Internacional, o que é uma “tristeza” para mãe, torcedora do arquirrival. “Ele nasceu com uma bola no pé. Mal caminhava e se escorava nos móveis para chutar a bola.” O último uniforme colorado que deu ao filho gerou risadas. Gremista fervorosa, Dica foi até a loja do Inter para satisfazer um pedido do filho. Ao fazer o pagamento, entregou seu cartão que possui o emblema do tricolor. “A caixa ficou me olhando por alguns segundos. Prontamente perguntei: Ué, gremista não pode comprar aqui? Acabei rindo e expliquei que o pai era colorado”, conta.
A primeira vez que Dica engravidou, o filho nasceu prematuro e sobreviveu apenas 12 dias – depois, ainda teve dois abortos espontâneos. Talvez as perdas expliquem a empolgação com que fala dos herdeiros: “Quero estar perto em cada momento deles. Meu pai era um homem muito forte e acho que esta é uma das maiores heranças que ele me deixou. Na medida do possível, tento aumentar a minha força”.

