José Henrique de Medeiros Mitchell , 58 anos, traz na bagagem 30 anos de atuação na sucursal gaúcha do Jornal do Brasil. Com a maior parte de sua carreira profissional vivenciada durante o período da ditadura militar, guarda histórias curiosas e o gosto por conspirações. Jornalista experimentado, defende o furo como a garantia de boas reportagens, independentemente da atual corrida entre as agências de notícias. Além disso, por não possuir envolvimentos partidários, sente-se livre para criticar políticos de direita ou de esquerda, baseando-se apenas em suas ações. “Tenho a obrigação de respeitar todo mundo, mas de cobrar atitudes também”, explica.
Natural do Rio de Janeiro, mudou-se para Porto Alegre junto com a família aos cinco anos devido ao trabalho de seu pai, Pedro de Medeiros Mitchell, que era médico sanitarista “da primeira turma formada no Brasil”, registra. Filho de Maria Lídia Ferreira Mitchell, José é o terceiro de 11 irmãos e, durante a infância e a adolescência, realizou seus estudos em escolas católicas. Passou pelos colégios maristas Rosário e Assunção e pelo jesuíta Anchieta. A formação religiosa lhe marcou muito, mas não foi incorporada ao seu cotidiano. Define-se como agnóstico e assegura manter a visão humanística, fruto da educação que recebeu.
Suas concepções influenciaram principalmente na escolha pela carreira de jornalista. Optou pela profissão na tentativa de ser útil à sociedade, ingressando, em 1968, na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação Social da UFRGS (Fabico). Sua vida acadêmica coincidiu com o auge da ditadura militar e das lutas do movimento estudantil, experiência que relembra com muitas histórias. Mitchell conta que, certa vez, enquanto conversava com um colega no bar da Universidade, deparou-se com um policial sem farda gravando o diálogo com um microfone que escondia. Porém, seu fio conduzia até uma grande bolsa que, certamente, abrigava um gravador da época, bastante grande.
Longe da política…
O clima tenso dos anos de chumbo, todavia, não lhe trouxe dificuldades pessoais ou profissionais, já que não possuía contato com grupos políticos. Concluiu os estudos, arranjou emprego e casou-se, tudo na década de 70. Embora garanta que acompanhava os acontecimentos de perto, mantendo-se sempre atualizado, o jornalista associa o período a uma atmosfera literária de espionagem e tramas. “Eu acho conspiração a palavra mais bonita da língua portuguesa. Alguém está sempre conspirando, nós é que não sabemos”, justifica.
Para ele, sua fascinação tem origem em seu avô, José Medeiros, que fora coronel do exército atuante na área de informações. Mitchell atribui ao familiar a descoberta antecipada do golpe de Getúlio Vargas, em 1930. A informação teria sido ignorada por militares em postos superiores que “ou não acreditaram ou estavam envolvidos”, deduz. “Quando explodiu a revolução, meu avô e outros militares foram presos em um navio de guerra em Rio Grande”, relata. Genético ou não, seu interesse por investigações, sobretudo as referentes ao mundo da política, tinha um caráter distanciado e isento, o que, mais tarde, lhe abriu portas no mercado jornalístico.
…Perto do Jornalismo
Um ano antes de concluir a graduação, acumulou três estágios em veículos diferentes. O primeiro deles, na sucursal gaúcha do Jornal do Brasil, que cumpria das 12h às 19h. O segundo, na rádio Universidade, onde atuava das 19h à meia-noite. No turno da noite, para finalizar a maratona, dirigia-se à sede da Zero Hora, onde permanecia até as 5h. “Das 5h às 12h me sobrava tempo para viver”, brinca. Em seu currículo está também a passagem rápida pelo extinto Diário de Notícias, ainda na condição de estudante. Mas foi no JB – depois de nove meses de estágio – que ele permaneceu após a formatura, em 1970, quando abandonou os outros dois trabalhos.
Na sucursal do periódico carioca, Mitchell cobria todas as editorias e, em especial, as notícias policiais. Começou com reportagens sobre a Polícia Civil, mas logo descobriu outra fonte: a Polícia Federal. Ele conta que, na época, suas matérias foram as primeiras a falar do órgão, até então desconhecido pela imprensa, em âmbito nacional. “Esse é um dos meus orgulhos profissionais”, revela. Além da visita diária aos federais, passou a cobrir também a área militar e seu setor de auditoria, onde aconteciam os julgamentos dos acusados de subversão. “Às vezes, eu virava a noite assistindo às sessões”, relembra.
Com os anos de profissão, conquistou o acesso fácil às fontes de extrema direita e extrema esquerda, simultaneamente. A façanha, ele explica com o fato de não ter cultivado vínculos partidários ou ideológicos. “Isso me possibilitou, em determinada época, ser o único jornalista de Porto Alegre a transitar nos dois lados”, orgulha-se e afirma que sua única preocupação era a de se destacar como um bom repórter. Ainda assim, recebeu convites para assumir cargos como, por exemplo, o de assessor de imprensa da Polícia Federal. “Algumas pessoas interpretavam o meu comportamento neutro como simpatia às suas causas”, esclarece.
Do jornal para a TV
Apesar da fidelidade ao JB, ele admite ter passado por algumas encruzilhadas em sua carreira. A mais marcante surgiu dentro do próprio jornal, quando foi convidado a assumir a chefia da sucursal de Brasília que, em sua opinião, era a mais importante do veículo. Mesmo envaidecido, o experiente repórter não aceitou a proposta e priorizou a convivência com a família – já prejudicada pela rotina acelerada de seu trabalho. “Acabei fazendo uma opção pela qualidade de vida”, conclui. Mesmo sem a mudança para o Distrito Federal, dedicou-se por três décadas ao jornal, até o fechamento da sucrusal gaúcha, em 2002. “Cheguei a trabalhar sozinho como correspondente da sucursal, depois ela faliu de vez”, lamenta.
Desde então, Mitchell passou a integrar a equipe de telejornalismo da RBS TV a convite de Raul Costa Júnior, diretor da emissora. “Sou muito agradecido a ele, que apostou na minha capacidade”, enfatiza. Na condição de pauteiro, é responsável pelos programas Jornal do Almoço, RBS Notícias e, eventualmente, sugere temas para o Bom Dia Rio Grande. Na atual função, seus princípios humanísticos são decisivos no momento de definir o que é ou não notícia. “Eu recebo telefonemas de todos os lados”, conta, expondo a preocupação em priorizar as situações de menosprezo com a população pobre, como no caso da saúde pública. “Esses problemas me indignam e, mesmo que de forma limitada, tento ajudar a resolvê-los com o meu trabalho”, idealiza.
Apesar de estar muito satisfeito com o novo desafio profissional, confessa que sua saída do JB foi o acontecimento mais triste e, ao mesmo tempo, mais emocionante de sua vida. “Triste porque dei minha alma à empresa e emocionante porque descobri a solidariedade da minha categoria”, explica. Ele conta que alguns colegas de profissão que conhecia apenas de vista lhe telefonaram para dar apoio e entraram em contato com diversos veículos para lhe conseguir um novo emprego. “E sem eu pedir!”, exclama. Para ele, o companheirismo presente entre os jornalistas é indiscutível.
Histórias inéditas
Ao longo de 30 anos no JB, o jornalista publicou incontáveis reportagens que, juntas, são capazes de formar um panorama histórico. Algumas, inclusive, venceram prêmios. Em seus textos, descreveu o dia-a-dia de cidadãos comuns na época dos governos militares e, também, de políticos e militantes. “O meu grande objetivo sempre foi saber o que acontecia e contar essas histórias”, declara. Contudo, em tempos de censura, nem todas as narrativas podiam ser feitas e, aquelas que ele não pode fazer no passado, reuniu em um livro que deve ser lançado nos próximos meses. Em férias a partir do dia sete de março, ele aproveitará o período para negociar com editoras interessadas.
Sem posição política definida, assegura que sua obra não pende nem para a direita nem para a esquerda e busca diferenciá-la das demais publicações sobre o assunto não criando heróis. Mitchell parte do princípio de que ninguém é totalmente bom ou mau. Um de seus capítulos, intitulado “A democracia sufocada pela direita e pela esquerda”, traduz com exatidão essa postura. “Minha inspiração é o autor inglês Graham Greene, que diz sempre existir um espaço de redenção em meio ao pecado”, associa.
Segundo o autor, seus escritos trazem relatos de gestos nobres praticados por pessoas acusadas de torturas e assassinatos, “coisas que ninguém pode imaginar”, adianta. Também defende que, “assim como a direita torturou e matou, a esquerda nunca defendeu a democracia e queria implantar um regime socialista, uma ditadura do proletariado”. As fortes declarações prometem despertar críticas de ambos os lados, mas ele diz estar preparado, já que divulgará fatos que enaltecem a decência das pessoas, independentemente de sua orientação política. Para exemplificar suas colocações, cita o caso recente do presidente Lula: “Se dizia que a esquerda era incorruptível. O PT mostrou que isso não é verdade”. Polêmico, o livro ainda não ganhou um título.
Sem descanso
Ele não faz projeções para o futuro. Diz estar feliz com sua atuação na RBS TV devido às pautas bem aceitas e à confiança dos colegas. Além disso, encontrou no trabalho em uma emissora local o que não conseguira até hoje pôr no jornal carioca: o contato com a comunidade a quem se dirige. “Me sinto satisfeito por poder interferir na realidade a qual eu estou inserido”, expressa. Mas o sucesso profissional lhe exigiu um grande empenho, fazendo com que ele passe pouco tempo em casa. É casado há 32 anos com Maria Aparecida, 55, e pai de um casal de filhos, Igor, 25, e Tatiana, 30. “Ainda não tenho netos”, reclama.
Nas horas livres, gosta de estar junto com a família e estreita o contato em função de uma característica curiosa: não dirige. “Minha mulher é minha motorista, meus filhos também”, diverte-se. Os motivos são indefinidos, vão desde a falta de vontade de aprender a guiar, até a fobia pela direção. Sempre que necessário, utiliza também lotações e táxis. A preferência culinária também foge dos padrões. É louco por batata, em todas as suas variações. Também gosta de ler e ouvir música de diversos estilos, desde que não seja Hip Hop, “só palavreado, sem melodia”, como ele define. Entre os cantores preferidos estão Paul McCartney, Brian Adams, Eric Clapton e Elton John.
Mitchell não pretende se aposentar tão cedo, mas já diminuiu o ritmo de trabalho nos últimos anos. “Eu era um workaholic, hoje não sou mais”, garante. Na lista de seus feitos, está a conclusão de 24 matérias publicadas em uma única edição do JB, no mesmo dia. Ele conta que, por essas e outras, os amigos brincavam chamando-o de esquizofrênico. Conhecido por sua persistência na luta por furos, sua maior qualidade e também seu maior defeito, alerta que o dia em que deixará suas atividades profissionais ainda está muito distante.

