Perfil

Laura Alcaraz Gomes: Eterna guerrilheira

Ela não se vê em outra profissão e fala do desafio de assumir, sozinha, o programa criado pelo pai

Por Márcia Farias

É com a tranquilidade de quem sabe o que faz que ela se prepara para mais uma edição do Guerrilheiros da Notícia. Na Ulbra TV, chega esbanjando simpatia em ritmo acelerado. Logo, quer saber o que está preparado para o dia, fala sobre alguns detalhes da atração e começa a se arrumar para entrar no ar. Entre retoques na maquiagem e no cabelo, a jornalista conversa sobre assuntos diversos. Assim é a rotina antes de Laura Alcaraz Gomes entrar no ar.

O programa criado pelo pai, o advogado e jornalista Flávio Alcaraz Gomes, falecido em 5 de abril deste ano, é o maior desafio dela, atualmente. Tocar a atração sozinha, apesar da saudade, é o que tem movido a vida de Laura e a tornado “mais forte a cada dia”. “Sei que, em algum lugar, ele está muito feliz de ver os Guerrilheiros de volta”, orgulha-se, ao comentar que o programa, antes na TV Pampa, agora se destaca em outra emissora. A filha de Maria Clara e irmã do juiz militar Alcides vem de família pequena, “mas muito unida”. A mesma simplicidade com que vivia no bairro Belém Novo, na Zona Sul de Porto Alegre, onde pescava lambari, quebrava coquinho para comer no chão e andava descalça, é o que traz consigo até hoje.

Laura acredita que o Jornalismo é uma profissão que não dá brecha para o erro e que deve sempre trabalhar com a verdade. Vêm da profissão as duas características atribuídas a si mesma: “Sou perfeccionista, mesmo achando que poderia ser mais tolerante. Também sou muito sincera, não sei fingir nem ter duas faces”. Aos 55 anos e divorciada , é mãe do Rubens, 31 anos, arquiteto e sócio-diretor da Santana Inamoto, e da Paula, 28, designer e dona da loja coletiva Pandorga. Dizendo-se muito presente na vida dos herdeiros, ela também garante ser parceira e agregadora. O desejo para o futuro, aliás, está ligado à prole: quer ter muitos netos. O sonho, conta feliz, deve começar a ser realizado já no ano que vem.

Nos bastidores

Longe das câmeras, Laura tenta manter a mesma simplicidade com que foi criada. Ficar em casa, cuidar dos passarinhos, da horta e dos cachorros da raça Pastor Alemão, o Argos e a Ule, fazem dela alguém mais feliz. “Se puder, entro em casa na sexta de noite e só saio na segunda de manhã”, confessa, completando que adora receber a família e os amigos em volta da mesa. Cozinheira de mão cheia, conta que faz de tudo, “desde o básico que uma mulher tem que saber fazer, que é um feijão e um arroz, até o prato que quiseres que eu faça”. A preferência, porém, passa pelo forno: “Adoro fazer diversos tipos de assados”.

Apesar do ritmo frenético como jornalista, tem algo que não faz, a não ser que tenha que trabalhar ou viajar: só sai de casa depois do meio-dia. E a explicação é simples, Laura acredita que precisa cuidar da sua vida, de si e da própria casa. O dia começa com um bom café da manhã e a leitura de todos os jornais. As práticas são seguidas pela navegação na internet e pela organização do dia. O retorno, porém, é tarde. Dificilmente vai retornar para casa antes das 21h. Quando sobra tempo, ainda tenta encaixar na rotina algum exercício físico.

Outro prazer na vida é viajar, pois diz que é uma prática necessária para todo mundo. Entre os lugares que conheceu, Paris é a cidade preferida e, sempre que pode, volta lá, sozinha ou acompanhada da família. Já a Grécia e a Turquia são os próximos destinos, se possível ainda neste ano. Na literatura, tem uma obra de cabeceira, que a acompanha há muitos anos e foi presente dos pais, o livro Filosofia da Vida, de Will Durant, lido sempre que acha necessário. Com filmes não tem preferências, diz que basta ser divulgado que aceita assistir.

As músicas preferidas são locais. Primeiro, Música Popular Brasileira (MPB): “Adoro os nossos cantores”. Depois, as regionais: “Sou bairrista. Adoro tomar chimarrão ao som de uma boa música tradicionalista”. Apesar do gosto, diz não dispensar outros três estilos: jazz, clássica e música francesa.

A opção pelo Jornalismo

Mesmo com a certeza, desde pequena, de que Comunicação era seu destino, para satisfazer a vontade do pai, Laura frequentou a faculdade de Direito por dois anos e meio. A vontade de entrar no Jornalismo foi tão grande que matriculou-se no curso às escondidas da família. Por seis meses, manteve a vida acadêmica nas duas faculdades, mas não demorou a abrir o jogo e admitir que o que queria mesmo era ser jornalista.

O encanto com a profissão garante ter surgido ainda na adolescência. Por volta dos 15 anos, começou a acompanhar o pai pelos corredores da Caldas Júnior (hoje, Grupo Record), servindo café, arrumando livros e aprendendo a datilografar em máquinas de escrever. A aceitação e o orgulho do pai com a escolha de Laura vieram após a sua formatura, em 1983, pela Famecos. Flávio atuava na Zero Hora como colunista e dedicou um dos textos à conquista da herdeira. O título dizia tudo: ‘Bem-vinda à tribo, filhinha’.

“Tive no meu pai um dos melhores amigos da minha vida. Apesar das brigas por termos personalidades fortes, sempre houve muito respeito entre nós.” É assim que Laura resume a relação com Flávio. Obviamente, nem tudo foram flores e carregar a comparação com o pai permaneceu durante toda a carreira. Quando muitos diziam que ela só havia conseguido ir para a TV graças à grife paterna, ela não ligava, pois tinha uma convicção: “Ele sempre dizia que, se achasse que não era boa naquilo, arranjaria outra coisa para eu fazer.”

Suando frio

A admiração foi colocada à prova nos anos 1980, quando Laura tinha 19 anos e seu pai cumpriu um período na prisão pela morte de uma jovem que estacionara um carro na frente de sua casa. “Foi um momento muito triste na minha família. Mas meu pai sempre disse que não se sentia culpado pelo ocorrido, pois foi um acidente. Eu sempre acreditei nele. Apesar da dor, foi um momento de união.” A situação talvez seja a melhor explicação do seu lema de vida ser a frase ‘Sem ressentimentos’. Ela entende que o coração ferido e magoado não vai adiante e, por isso, prefere tocar a vida sem mudar absolutamente nada do passado.

Desafio é sempre algo motivador em sua vida, mas teve um em especial, que considera o maior e mais difícil de todos. Com mais de 20 anos de profissão, a jornalista recorda da estreia na frente das câmeras. Já era produtora do Guerrilheiros da Notícia há seis anos e continuava ouvindo de Flávio que deveria sair dos bastidores e participar da bancada. Apesar do medo, resolveu ceder aos incentivos paternos e, finalmente, no dia 15 de março de 1996, “engatou a primeira” e deslanchou na frente das câmeras. “Estava apavorada, achando que ia morrer, que o meu coração ia parar. No fim, fui super bem recebida pelos telespectadores”, recorda. A experiência parece ter dado certo. Um ano depois da estreia, quando precisava viajar a trabalho, Flávio já deixava a filha no comando do programa.

A paixão que diz sentir pela TV é tanta que é difícil acreditar que o começo da profissão não tenha sido neste veículo. E nem em outro. Laura deu os primeiros passos como jornalista atuando em assessoria de imprensa. Trabalhou por seis anos no Governo do Estado, no departamento de Saúde da Secretaria de Justiça. Após, passou cinco anos no Palácio do Governo, nos anos 1970 e 1980. Não bastasse, houve ainda a experiência na Assembleia Legislativa, como assessora do então deputado Sanchotene Felice. Acabou? Não. Laura também prestou assessoria de imprensa para a extinta agência de propaganda Símbolo. Mas nem toda a experiência neste ramo, nem a estabilidade do funcionalismo público a mantiveram lá. A TV, desde sempre, foi a sua vocação.

Mais um pouco de Jornalismo

Uma das grandes certezas dela é estar na profissão certa, tanto que não se imagina em outra. Nem mesmo o corre-corre do veículo a desestimula. “Essa coisa de vai pra lá, vem pra cá, tira do ar, não chega atrasado, e toda esta correria que faz parte da vida daqueles que têm a vocação de ser jornalista, tudo isso me encanta.”

A presença de Flávio, como não poderia ser diferente, foi constante durante toda a trajetória profissional de Laura, mas houve um episódio em especial. A cobertura do pai na Guerra dos Seis Dias – um conflito que ocorreu em 1967 e que pôs Israel contra diversos países árabes: Egito, Jordânia e Síria, apoiados por Iraque, Kwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão – causou tensão em toda família. “Desde pequena ficava impressionada com os conflitos, mas neste em especial tivemos a sensação de que ele não ia voltar”, recorda.

O elogio mais marcante na carreira também está ligado à genética: “Tu és igualzinha ao teu pai”, comparação com a qual nunca se incomodou. Chegou um momento na carreira dos dois em que Flávio dizia: "Ela não é minha filha, eu é que sou o pai dela". Hoje, se diz totalmente realizada e fazendo o que gosta, e projeta um futuro que, em se tratando de Laura Alcaraz, não será difícil realizar: “O meu sonho atual é que o Guerilheiros da Notícia volte bem, como está voltando, e possa permanecer por mais 20 anos”.

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Autor

Márcia Christofoli

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