Quantos pães?
– 50 cacetinhos, por favor.
Pode parecer um começo inusitado para contar a história de alguém. Mas, no caso de Fábio Soares Pinheiro, faz todo sentido. Porque antes de falar de carreira, de mercado ou de metas, é preciso entender a mesa.
Quem era essa família que comprava pão em quantidade quase exagerada? Quem eram as pessoas que ocupavam aqueles lugares, que chegavam, ficavam, voltavam? Como é crescer em uma casa onde sempre cabe mais um?
Entre pães e afetos
As respostas não estão apenas na memória, estão na essência de quem Fabinho se tornou. É pelo diminutivo carinhoso que ele é conhecido por todos. “Era tudo junto. Sempre cheio. A casa estava sempre aberta, sempre com gente chegando e ficando. Minha mãe fazia questão disso”, recorda. Filho de Flávio Pinheiro Filho, gerente comercial no varejo, com passagem pelas Lojas Americanas Brasileiras e Centro Útil, e de Carmen Lúcia Soares Pinheiro, que fez da casa um lugar de permanência, Fabinho cresceu onde o espaço nunca foi limite, era convite.
Com os irmãos Flavinho, Ana e Felipe, aprendeu cedo a dividir o que não se mede: atenção, barulho, afeto. Mas não eram só eles. Sempre tinha mais alguém. Não por acaso, em dois momentos, a família cresceu sem cerimônia: em algumas ocasiões, amigos passaram a morar junto, como se sempre tivessem pertencido àquele endereço.
Na família Pinheiro era assim: sempre cabia mais um. E lugar nunca faltava, nem mesmo na mesa de pingue-pongue que, improvisada, fazia as vezes de mesa de jantar. É dessa mesa que vêm algumas das lembranças mais vivas. Talvez porque tenha sido ali, naquele período em Blumenau, Santa Catarina, o último momento em que todos estiveram juntos sob o mesmo teto.
O trabalho do pai fez com que a família mudasse muitas vezes. Novas cidades, novas escolas, novos começos. Mas, no meio de tantas mudanças, havia uma única certeza: as pessoas. Foi nesse movimento constante que Fabinho aprendeu, quase sem perceber, o que levaria para a vida inteira, a facilidade de estar com o outro.
Bom de papo
“Percebi muito cedo que a minha habilidade era conversar com gente. Eu gostava disso, e via que funcionava. Tinha certeza que ia ganhar a vida com isso.”
A vida, inclusive, confirmou rápido. Aos 16 anos, com a chegada do primeiro filho, Vinícius, veio também a responsabilidade e, com ela, o trabalho. Começou como assistente administrativo e logo passou a cobrar dívidas por telefone. Não era uma função simples. Do outro lado da linha, muitas vezes havia silêncio, resistência, desconforto.
Mas havia também escuta. E Fabinho encontrou ali um jeito próprio de conduzir conversas difíceis. Em vez de confronto, aproximação. Em vez de pressão, entendimento. No improviso das ligações, descobriu que até as situações mais duras podiam encontrar saída quando alguém se sentia, antes de tudo, ouvido. Ali, nasceu o profissional.
Os primeiros sobrenomes
Depois veio a Mundi Editora, ligada à Folha de Blumenau, quando entrou de vez na área comercial. Chegou então a hora de decidir onde queria se estabelecer, e Porto Alegre foi a escolhida. A comunicação já não era mais um caminho possível, era o caminho.
Passou por empresas como GVT, Listel e, na sequência, mergulhou de vez no universo da Publicidade. Vieram, então, outros “sobrenomes” – como ele costuma chamar, com leveza, as empresas por onde passou e que ajudaram a construir sua trajetória. Fabinho “assinou” RBS durante sete anos e passou por diferentes veículos dentro do grupo (Rádio Cidade, Rádio Farroupilha e Rádio Gaúcha).
“Ali foi a minha grande escola. Foi uma faculdade mesmo. Eu tive a sorte de trabalhar com gente muito boa, muito competente. E isso muda tudo”, ressalta o profissional, que hoje tem formação em Gestão Comercial e pós-graduação em Inteligência Comercial, de Mercado e Neuromarketing, um caminho que veio depois, mas que ele reconhece como essencial. “Um arrependimento que eu tenho é de não ter me formado antes.”
Ao longo do percurso, Fabinho foi cercado por pessoas que o ajudaram a moldar seu olhar e sua forma de trabalhar. Nomes como Márcia Daudt, Patrick Dorneles e Paulo Fernandes aparecem como referências importantes, profissionais que, mais do que ensinar técnica, deixaram marcas na forma de se relacionar com o mercado.
Vender é conduzir
E deixaram também histórias. Como aquela, na época da Rádio Gaúcha, em que foi a uma reunião com um cliente que inauguraria um hotel. Só que o empresário esqueceu do compromisso. Fabinho esperou duas horas. Quando finalmente foi atendido, ouviu que o cliente já havia decidido comprar, baseado em um valor visto no site, completamente equivocado. Era o preço de uma inserção simples, em um dos programas mais caros da emissora.
Com calma, Fabinho explicou, mostrou, argumentou e ajustou as expectativas. No fim, fechou uma entrega possível, de acordo com o bolso do cliente. Não era sobre insistir, era sobre conduzir.
Novos sobrenomes
Depois da RBS, veio a agência Scartazzini, com Edígio Scartazzini. Em seguida, assumiu a gestão comercial do Grupo Encanto, em Lajeado, levando seu nome para além da Capital. “Mesmo quando eu estava fora, vinha para Porto Alegre apresentar a rádio. E o que eu percebia era que as pessoas me atendiam. Não era só pelo veículo, era pela relação. Isso sempre foi muito importante pra mim.” Na sequência, novos capítulos: o jornal Metro, onde rapidamente saiu de executivo para gerente comercial; depois a Band TV, a Brazilian Traffic Network (BTN), a Clear Channel no Brasil, que foi comprada pela Eletromidia.
Fabinho vive, hoje, o momento que define como o mais satisfatório da carreira. Ele observa que, ao longo do tempo, a forma de trabalhar mudou, mas a essência não. Para ele, metas são consequência. O que realmente importa é ser relevante como pessoa, ter conteúdo, credibilidade e escuta. Isso se traduz, inclusive, na capacidade de dizer não, de indicar outros caminhos aos clientes quando necessário. Porque, no fim, não se trata apenas de fechar negócios, mas também de construir confiança.
Vida pessoal
Há histórias que não passam pelo planejamento, muito menos estratégia. E começam do jeito mais simples possível. Fabinho passeava com Lilica, sua cachorra samoieda branca, quando uma menina se aproximou, encantada: “A Luna!”. Era Maria. Ao lado, Kelly, sua mãe, explicou que Luna era o nome da cachorra delas. Vieram o carinho, a brincadeira, as fotos registrando a coincidência do momento. E um gesto simples: trocar telefones.
“Foi muito natural. A gente começou a conversar por causa dos cachorros e, quando viu, já estava junto. Não teve esforço, não teve estratégia. Só aconteceu.” Hoje, são 10 anos de casamento, três filhos – Vinícius, Maria e Isabela – e uma vida que, de alguma forma, preserva a mesma essência de onde tudo começou: uma casa viva.
Fabinho é direto ao dizer que não se vê sem ser o marido da Kelly e o pai dos seus filhos. O trabalho é importante, ele gosta do que faz, mas a família é o centro de tudo. É ali que a vida acontece: acordar cedo, correr, levar a filha na escola de bicicleta pela orla do Guaíba, dividir o café, trabalhar, voltar, buscar, brincar, estar. E ouvir música. Muita música. O Spotify, como ele mesmo define, é uma bagunça – da bandinha ao rock, do samba à música gaúcha. Uma trilha sonora que acompanha uma casa que nunca foi silenciosa.
Detalhes
Disciplinado, encontrou na corrida um eixo. Mas é fora das pistas que seu ritmo mais importa: no cuidado, na presença e na escuta. Ele ri quando o assunto são manias. Prefere que Kelly responda. E ela não hesita: “Mania de ter razão sempre”. Ele não nega. Só complementa: também tem a mania de saber um pouco de tudo, uma curiosidade que nunca se esgota.
Torcedor apaixonado do Sport Club Internacional, carrega o clube na pele, literalmente, já que tem o escudo colorado e o Saci (mascote) tatuados. Em casa, a regra é clara: pode-se escolher qualquer coisa na vida, menos o time.
Reconhecimento
Entre conquistas profissionais, valoriza o que chama de pequenas vitórias do dia a dia. Lembra da primeira vez que apareceu no portal Coletiva.net. Celebra a participação na diretoria do Grupo de Atendimento de Veículos do Rio Grande do Sul (GAV-RS) e o convite para ser embaixador do Amigos do Mercado, iniciativa criada durante a pandemia por Marcos Braga, que reúne milhares de profissionais da Comunicação no Brasil.
Entre os muitos aprendizados da trajetória, há um que ele guarda com especial carinho, vindo de Ciro Vives, então gerente-executivo da Rádio Gaúcha. “Nunca vi alguém tão habilidoso na frente de um cliente, mas tens que estudar mais e não se atrasar”, a frase foi um elogio, mas também um alerta. Ali, Fabinho entendeu que talento abre portas, mas é o preparo que sustenta o caminho.
“Eu sou muito realizado. Mais do que eu imaginava. Profissionalmente e pessoalmente. E acho que as pequenas coisas são as maiores.” Talvez seja. Ou talvez seja só o reflexo de alguém que aprendeu cedo, em volta de uma mesa cheia, que o mais importante nunca foi o que está sobre ela, mas quem está.
E, no fim das contas, aquele pedido lá do começo, exagerado, quase desmedido, nunca foi sobre pão. Era sobre presença. Sobre pertencimento. Sobre ter sempre mais um lugar. Porque, para Fabinho, a vida nunca coube em poucos nomes e sobrenomes.


5 Comments
Fabinho meu querido parceiro e amigo
Parabéns por tu ser quem tu és !!!!
Parabéns pela tua integridade pela tua alegria pela
Tua Verdade!!!
Paulo Fernandes
Grande Fabinho! Amigo e excelente profissional com quem tive o prazer de conviver no Metro e que nunca mais saiu da minha vida. Parabéns pela trajetória. Um grande abraço.
Fabinho
Emocionante ler o relato, e sentir que a maturidade é a vivência te levou ao mais importante: ser você e estar com quem importa. Parabéns pela tua trajetória. Grande abraço
O Fabinho além de ser um excelente profissional, é uma pessoa que a gente quer ter sempre ao lado. Leve, engraçado e parceirão!!! Sucesso sempre no teu caminho, meu amigo!
Fabinho, parabens pela bela trajetória. Sucesso. Abraço.
Rigo.
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