Perfil

Wanderley Costa Soares: Jornalismo na genética

Jornalista nato, ele trabalhou nos mais importantes jornais gaúchos. Hoje assina uma coluna no jornal O Sul e acredita que sucesso é viver cada dia e nunca estar em dívida consigo mesmo.

Wanderley Soares pode ser considerado um jornalista nato. Viveu a época “romântica” do jornalismo. Uma época em que “as redações eram vibrantes”, onde o profissional buscava, acima de tudo, a verdade e o compromisso com a cidadania. “A vibração do dia-a-dia era muito boa, as mesas eram compridas como as de churrasco e tinha uma série de máquinas de escrever Olivetti. Dentro da redação da Última Hora havia um bar que vendia inclusive cerveja, valia tudo. Hoje as redação estão muito assépticas”, lamenta.

Wanderley Costa Soares nasceu em Porto Alegre há 66 anos. Passou os primeiros anos de vida em uma chácara no bairro Vila Nova, mas aos dois anos mudou-se com a família para a Cidade Baixa. Filho da dona-de-casa Vidalvina e do linotipista – espécie de digitador nas redações jornalísticas da época – Waldomiro dividiu a infância com cinco irmãos. A profissão do pai fez com que Wanderley e os irmãos fossem criados num ambiente ligado à imprensa. “Cresci com o cheiro dos jornais que papai trazia para casa, por isso me considero jornalista por uma questão genética”, diz.

Da infância, Wanderley guarda as lembranças das brincadeiras de rua, dos jogos de futebol, das bolinhas de gude, além de outras lembranças nem tão alegres assim: “Apesar da pouca idade que tinha, lembro perfeitamente da enchente de 1941, da água barrenta que invadiu as casas e também das conversas sobre a 2ª Guerra Mundial e do pão da guerra que era feito de centeio. Pão de farinha de trigo era só de vez em quando e era uma festa, aliás nem existe mais pão de trigo, esse pão que a gente come hoje é um horror”, diz com certo saudosismo. A 2ª Guerra Mundial era tema das conversas entre a família e vizinhos. “Para nós alemão era o diabo”, relembra. “Tínhamos uns vizinhos que eram alemães e a diversão da gurizada da rua era apedrejar a casa deles”.

Profissional autoditada

Wanderley bem que tentou investir em outro caminho profissional, mas não conseguiu. Embora o primeiro emprego já tenha sido como office boy do jornal Estado do Rio Grande, aos 14 anos, ele conciliava o trabalho com o curso de técnico em contabilidade. Chegou a trabalhar na área administrativa de algumas empresas, mas em 1960 iniciou a carreira de repórter no jornal Última Hora. “Meu irmão Waldomiro Soares era fotógrafo e me indicou para a vaga”, conta o jornalista. “Lembro perfeitamente do meu primeiro dia de trabalho. Me mostraram a redação e me deixaram sozinho, tive que me virar”.

Com o golpe militar de 1964, a Última Hora fechou as portas e alguns meses depois Wanderley foi convidado por Ari Carvalho a integrar a equipe da Zero Hora que estava sendo formada. “Trabalhei na última edição da Última Hora e na primeira edição da Zero Hora”, relembra. Dois anos depois, a convite do jornalista Antônio Gonzalez, Wanderley foi trabalhar na editoria de polícia da Folha da Tarde. “Fiz de tudo, fui repórter, editor e copy desk. “Foram nove anos na Folha da Tarde. Tive grandes momentos na Caldas Jr”, relembra.

Entre as grandes reportagens assinadas por Wanderley uma lhe dá muito orgulho: “o caso das mãos amarradas”, que envolvia o sargento Manoel Raimundo Soares, morto pela ditadura. “O corpo foi encontrado no Rio Jacuí com as mãos amarradas nas costas. Acompanhei toda a investigação e consegui o relatório do promotor de Justiça que acusava o militar Menna Barreto como autor do crime. Quando peguei aquele material vi que tinha uma bomba nas mãos. No outro dia foi publicada a matéria e uma foto minha, na capa, pegando o relatório com o promotor, em plena ditadura”, conta com entusiasmo.

A carreira do jornalista inclui ainda uma passagem pelo Jornal da Produção, de Carazinho, onde atuou por três anos. De volta a Porto Alegre, em 78, assumiu o cargo de subchefe de reportagem na Folha da Manhã, mas o “estigma de polícia” o acompanhava. “Meses depois o editor de polícia do jornal recebeu uma proposta para trabalhar em Brasília e adivinha pra quem sobrou o cargo? Foi aí que desisti de pensar em sair da editoria de polícia”. Com a decadência da Caldas Jr., em 80, veio o fechamento da Folha da Manhã. Wanderley voltou então para a Zero Hora como subeditor de polícia e mais tarde assumiu o cargo de editor. “Fui a convite do José Antônio Ribeiro, montamos uma equipe de polícia bárbara, só com grandes profissionais”. Por lá ficou durante 11 anos.

Em 1992, o jornalista resolveu abraçar um novo desafio: foi trabalhar como assessor de imprensa do Tribunal de Justiça. Sete anos depois Wanderley aposentou-se e voltou a trabalhar no que mais gostava, a redação, desta vez como redator do Correio do Povo.

Atualmente, Wanderley Soares assina uma coluna de polícia do jornal O Sul, de terça a domingo. “Sou o único jornalista brasileiro que tem uma coluna quase diária sobre segurança pública”, orgulha-se.

No embalo da vida

Há 18 anos Wanderley teve uma grande perda na vida. A esposa Neusa morreu vítima de um câncer, aos 42 anos. Além de mulher de Wanderley, Neusa era sua parceira de boemia. “Danço muito bem. Chegava tarde do jornal, às 3h da manhã, pegava minha mulher e saíamos para dançar todos os dias. Muitas pessoas achavam que não éramos casados e sim que tínhamos um caso”, diverte-se. “Isso durante todo o nosso casamento, que durou mais de 20 anos”, diz o amante de samba e chorinho. Neusa e Wanderley tiveram três filhas: Luciene, que vive com o pai, Laura e Tatiana. 

Hoje, Wanderley divide essa paixão com a namorada Gilda Barlezi, professora de educação física aposentada, que ele namora há quase 16 anos. “Sem nenhuma perspectiva de casamento”, deixa claro. Outra paixão do jornalista é a leitura. “Ler para mim é como comer”, e destaca o gosto pelas obras clássicas. O gosto pela literatura motivou-o a escrever uma série de crônicas publicadas há seis anos na obra “O Feiticeiro”. Agora ele prepara-se para o lançamento de mais um livro: A Ronda do Feiticeiro, que deve reunir crônicas e poemas. “Estou fazendo a leitura final do livro e pretendo lançá-lo ainda este ano”. Se tudo der certo, Wanderley pretende abraçar um novo caminho. “Pretendo trabalhar só com literatura”, planeja. 

Para desopilar, sua receita é bater um bom papo e de preferência sobre assuntos que rendam uma boa discussão. Das qualidades, Wanderley destaca a habilidade em escrever; dos defeitos, queixa-se de sempre pensar nos outros primeiro. Seguidor da filosofia Rosacruz, Wanderley aprendeu a valorizar o potencial interior do ser humano. “A Ordem Rosacruz ensina você a realizar na sua vida os objetivos fundamentais de desenvolvimento pessoal e autoconhecimento, mostra como crescer espiritual e materialmente e leva a compromissos com a humanidade”, explica.

Planejar o futuro não faz parte do modo de vida de Wanderley, que prefere viver um dia de cada vez. “Nunca pensei em me casar e casei; nunca pensei em ter filhos e tive; jamais imaginei que ficaria viúvo, minha mulher era jovem, linda e saudável, e a primeira vez que ela ficou doente, morreu, então não tenho por que construir castelos”, revela o jornalista. Para ele, que já vivenciou grandes histórias, o sucesso pode estar em cada dia que começa. “Falar de sucesso é muito relativo porque varia de pessoa pra pessoa. Pra mim, sucesso é viver cada dia e nunca estar em dívida contigo mesmo”.

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Autor

Redação Coletiva

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