Filho de gráfico e afilhado do chefe das oficinas gráficas do Correio do Povo, Cláudio Medina foi apresentado aos livros desde muito cedo. O jornalista, formado em 1966 pelo Curso de Jornalismo da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), não ganhava muitos brinquedos na infância, mas uma quantidade imensa de obras literárias. O pai levava para casa, aos finais de semana, livros de clientes particulares com a missão de encaderná-los “com capa dura e filetes de ouro”, como explica Medina. “Eu ficava fascinado com aquele trabalho”, conta.
O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, foi seu primeiro desafio, aos 12 anos, mas, apesar da leitura, nada entendeu. O mesmo aconteceu com o segundo, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. De qualquer forma permaneceu lendo, e muito. O jornalista lembra, também, das revistas que ganhava do pai, Edições Maravilhosas, e Edições Ilustradas. Publicações, onde eram editados contos de grandes escritores estrangeiros em forma de quadrinhos.
Aos sete anos, levava a vianda de comida para o pai, Dorval Augusto de Souza, no centro da cidade, e ouvia dele e da mãe que não deveria ficar “perambulando” por lá. Muito moleque que era, Cláudio desobedecia a ordem e fugia para o prédio da Companhia Jornalística Caldas Júnior, afinal ver as máquinas funcionando despertava sua curiosidade. Ao encontrar Evandro Álvaro dos Santos, seu padrinho, sentia a mão dele em sua cabeça e ouvia-o dizer aos colegas “esse aqui vai ser jornalista”.
Mesmo com a convivência com o padrinho, seu pai não gostava do Correio do Povo. Então, Medina tornou-se leitor assíduo do Diário de Notícias e da Folha da Tarde. Quando sobrava algum dinheiro, gostava de comprar jornais de outros estados, como o Jornal do Brasil ou o Estado de S. Paulo. Por esses motivos é que acredita que, já adolescente, começou a se interessar pela profissão. Ao perder a mãe, com diabetes, Medina chegou a pensar em ser médico, mas logo percebeu que não seria por vocação. O amor pelos livros e pela escrita o fez acreditar no Jornalismo.
Os caminhos
Era considerado um aluno brilhante em português e história e com grande facilidade para escrever, e chegou a trabalhar como vendedor de livros e de títulos, cobrador de contas de farmácia e entregador de jornal. Esta última lembra com carinho, pois começava seu dia às cinco da madrugada e percorria a vila São José do Murialdo, bairro onde viveu a infância, adolescência e parte da juventude.
Outra lembrança carinhosa que Medina guarda da vila é do padre Cornélio Tedesco, uma pessoa que resume com a palavra humildade. Sobre este amigo escreveu sua primeira matéria editada na extinta revista do Globo, por volta de 1960, quando ainda era estudante do colégio Júlio de Castilhos, o Julinho.
Ao listar seus grandes incentivadores, Medina lembra de um colega, o Ferreira, a quem recorria sempre que havia alguma dúvida. Mario Quintana, com quem trabalhou no Correio do Povo, é outra personalidade a quem admira, pela simplicidade que demonstrava no relacionamento com os colegas.
A dedicação rendeu bons frutos. Cláudio foi agraciado com diversas premiações, entre elas dois Prêmios da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs); um da Fundação Visconde do Cairu; um da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), o cobiçado Prêmio ARI de Jornalismo; dois do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Rio Grande do Sul (Sebrae); um prêmio Direitos Humanos de Jornalismo; e mais dois Prêmios Badesul de Jornalismo.
40 anos de história
Antes de ingressar nas redações jornalísticas, Medina teve uma breve passagem pela publicidade, na Atlantics Publicidade e na MPM Propaganda. Nessa época, passava todos os dias na redação da Folha da Tarde e perguntava a Edmundo Soares se havia vaga de repórter, ouvindo sempre uma negativa. Mas em 1967 surgiu a primeira oportunidade no jornal. Tornou-se então o mais novo da equipe e o primeiro repórter de esportes. Ao descobrir que, apesar dessas atribuições, seu salário era o mais baixo, pediu um aumento. Não conseguindo, pediu demissão. Em 1979, levado por Waldomiro de Oliveira, que foi seu colega quando trabalhava na Fundação Padre Landell de Moura (Feplam), como redator e locutor, foi trabalhar na Folha da Manhã, na editoria de geral. Em seguida ingressou, simultaneamente, na Rádio Guaíba, onde permaneceu até 1998. O currículo ainda registra passagens pela Rádio Rural, pelo Grupo Bandeirantes e pelas Revistas O Cruzeiro e O Globo. Assessoria de Imprensa também está em seu portifólio: chefiou o setor da Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul, Companhia Habitasul, Banco Meridional do Brasil e Banrisul.
Como estudante, Cláudio teve uma passagem pela rádio da Ufrgs, num programa chamado Clube de Jornalismo, produzido pelos alunos da cadeira de Radiojornalismo. Lá chegava “esbaforido”, pois saía do quartel correndo para a faculdade, redigia e apresentava um bloco chamado Nas asas da imaginação. Nele os alunos usavam personalidades, como Gandhi e Lincon, e transformavam numa narrativa em tempos atuais.
O jornalista começou na editoria de economia por acaso, por ter escrito uma matéria sobre a primeira vez que Porto Alegre teve suas ruas enfeitadas com motivos natalinos de baixo custo. A reportagem lhe rendeu o Prêmio Visconde do Cairu e uma indicação do jornalista Floriano Corrêa para trabalhar com economia. Assustado com a novidade, Medina começou a buscar especializações em tributação, mercado de capitais, comércio exterior, entre outras.
Uma fase difícil
Em 1992, o jornalista sofreu um problema neurológico grave, em decorrência da diabetes, que lhe tirou a fala. Por conta disso, quase foi demitido, pois, além de repórter, era comentarista na Guaíba. Viu-se desesperado, mas, após um ano de tratamento intensivo, conseguiu se curar.
Estava na Guaíba quando foi convidado por Isnar Ruas a trabalhar no Correio do Povo. Gostava muito das suas atividades e do ambiente de trabalho, onde se relacionava muito bom com colegas e superiores. Certa vez pediu licença do cargo de editor de economia para fazer uma especialização nos Estados Unidos. Seu chefe garantiu que seu posto permaneceria e seu salário também: “Tu vais te valorizar com isso e, portanto, o meu jornal também”, foi a frase que Medina nunca mais esqueceu. Quando retornou de viagem, o Correio do Povo estava em crise, com atraso no pagamento de salários. Cláudio aderiu à greve e o resultado imediato foi a demissão. Mais tarde, ainda em 1998, foi afastado, também, da Rádio Guaíba, sem saber o motivo.
No mesmo ano, morreu a esposa, uma professora de história e jornalista russa, que se naturalizou brasileira. O casal se conhecera quando ele trabalhava em esportes na Folha da Tarde e ela era estagiária. “Loira de olhos bem, bem verdes e muito bonita”, como ele a define. Um ano e meio após se conhecerem já estavam casados. Da união nasceram duas filhas, a advogada Aline e a nutricionista Adriana. Medina chegou a se apaixonar novamente, mas diz nunca ter esquecido a mãe de suas filhas, tanto que até hoje carrega consigo a carteira de identidade dela. A perda da esposa provocou depressão, o que lhe custou quase dois anos sem sair de casa.
Cláudio acredita que ao tentar voltar para o mercado já não havia mais espaço para ele, ou então, não soube procurar. “Me considero um pouco frustrado porque não me conformo com o que ocorreu comigo. Ser demitido da forma como eu fui, depois de 40 anos de trajetória. Acho que eu ainda ia acrescentar muito ao jornalismo”, desabafa.
O recomeço
Apaixonado pela literatura, e pelo seu trabalho, Cláudio decidiu arriscar-se a escrever livros. A inspiração vem de obras como O Velho e o Mar e O Sol Também se Levanta, de Ernest Hemingway, que já foram lidos diversas vezes. Eça de Queiroz é o seu autor preferido, “talvez o maior escritor até hoje”, diz ele, que cita também Fernando Sabino e Érico Veríssimo entre suas preferências. A primeira experiência do jornalista no mundo das letras é resultado de uma grande reportagem sobre a história do trigo no Rio Grande do Sul. A obra, porém, nunca foi publicada.
Mais tarde, encorajado por alunos da Famecos (PUC – RS), em função do curso de Jornalismo Econômico que ministrou, Medina transformou o conteúdo das aulas em um livro: Jornalismo econômico – sua importância política e social. Em seguida veio a ideia de escrever contos e crônicas, onde todas as histórias se passariam nas ruas de Porto Alegre. Uma mistura de ficção e realidade. Surgiu, então, Outono da Praça.
Por perceber que os jovens não tinham conhecimentos suficientes sobre muitos acontecimentos históricos, resolveu escrever outro livro relatando esses fatos. Brasil e o Mundo em 50 anos levou dois anos e meio para ser finalizado. Hoje, Cláudio ri ao explicar que pesquisava muito em livros, chegou a gastar um “dinheirão” na compra de diversos títulos, até que um dia uma de suas filhas o apresentou à internet.
Sua última ideia surgiu há aproximadamente um mês, quando percebeu que quatro décadas eram suficientes para trazer muitas histórias da sua trajetória. Decidiu escrever suas memórias. "Eu, Repórter" está quase pronto e descreve os bastidores da vida no jornalismo.
“Hoje a minha vida é essa: ler e escrever muito. Não posso entrar em livraria, toda vez que faço isso saio com dois ou três livros. Tenho tantos que minhas prateleiras estão tomadas por eles, fora os que estão na dependência de empregada”, diz. Quando está escrevendo, esquece do mundo, e até mesmo de comer. Mesmo sem ter conseguido publicar essas obras, a herança que recebeu do pai e do padrinho é hoje a sua maior paixão. Para a litetura procurar levar o que considera "coisas imprescindíveis na atividade jornalística: a honestidade, a ética e a precisão das informações”.

