O gosto pela informação e pelas diferentes formas de ver o mundo acompanha Maria Wagner desde criança. Filha de alemão com brasileira, foi estimulada pelo pai, Stefan Wagner. “Ele me incentivou para o mundo, pra essa vontade de conhecer as coisas”, revela. Regente de coral, músico e professor, Estefan saiu de casa cedo. Aos 16 anos, decidiu deixar a família e seguir para a Bélgica, onde estudou música. Daí em diante, percorreu o mundo. Foi assim que, na década de 20, chegou ao Brasil e, encantado, resolveu ficar. Fixou residência. Entre outras coisas importantes que Estefan ensinou para Maria Wagner, estão uma visão de mundo ampliada, o gosto pela informação e a solidariedade.
De São Vendelino, cidade onde nasceu, Maria lembra da enorme montanha que a fazia voar alto e imaginar como seria a vida por detrás dela. Recordações do pai também são constantes. Arranjo de músicas, produções literárias para jornal e os momentos em que parava para ouvir o ‘Repórter Esso’, o noticoso criado em 1941 pela Radio Nacional, são memórias que guarda com carinho. “Passei anos acreditando que Lauro Hagemann, apresentador do programa, era o melhor amigo de meu pai”. Anos depois, quando Maria já atuava na profissão, teve a satisfação de conhecer o apresentador e, emocionada, avisou: “Finalmente, eu conheço o melhor amigo do meu pai”. E foi aos doze anos que a pequena Maria começou a traçar seu destino profissional. Passou a se corresponder com o Mestre Estrela, da Rádio Guaíba e, neste mesmo período, leu a obra do ex-arcebispo de Nova Iorque, Fulton J. Sheen, que abordava o poder do dinheiro. Da obra, cita trechos até hoje: “O pobre, quando sente fome e não tem de onde tirar, é obrigado a roubar. Porque se ele não fizer isso, estará cometendo suicídio, e suicídio é pecado”.
Falando nisso…
Maria Wagner é uma pessoa preocupada com os rumos do mundo. Guerra, violência e fome são pautas constantes na vida dessa jornalista que se admite crítica e emocional demais. A diferença de classe existente no Brasil é algo que a deixa chocada e que, muitas vezes, a faz ir chorando, desde a redação do jornal até sua casa.
Entender os rumos do mundo e opiniões contrárias às suas impulsiona seu hobby preferido, a leitura. A música também está entre as suas preferências, mas, nos tempos atuais, a literatura vem despertando nela maior interesse, por sua densidade. “A literatura te exige mais. A música é algo mais sensorial”. O estilo erudito é o seu favorito e, ultimamente, a música de câmara também vem chamando sua atenção. Dos instrumentos, outra paixão herdada de seu pai, destaca o sopro. “O sopro é a alma, é a própria respiração.”
A relação de Maria com a literatura é profunda, daí por que prazer e conhecimento são os itens que ela busca em suas horas dedicadas à leitura. Na procura de informações que não encontra na mídia, como dados históricos, geográficos e políticos, a jornalista opta por uma literatura não-ficcional. “Até podem ser romances, mas têm que ter um fundo de realidade”, ressalta.
Ainda na área da literatura, Maria cultiva o hábito inusitado de ler autores com os quais não concorda. Estranho? Ela explica: “Gosto de entender por que eles pensam como pensam”. Para ilustrar, fala sobre George Soros. Ao ler ‘A Crise do Capitalismo Global’, afirma ter se surpreendido. Cita um trecho, em que Soros fala sobre o descaso dos Estados Unidos com a África. “A África poderia ser um mercado potencial para o mundo. Ao invés de investir em guerra, deveriam investir em qualidade de vida para esse povo. Eles poderiam ser um futuro mercado consumidor”. Agora, está lendo ‘Meu caminho’, da chanceler alemã Angela Merkel. “Até agora, não me surpreendi com nada. Continuo achando que ela não fará um bom comando na Alemanha”, declara.
A hora da mídia
Maria lamenta a postura que vem sendo adotada pela imprensa. “A mídia está muito covarde”, salienta. Para ela, existe um “auê” sensacionalista em cima de fatos que acabam não sendo esclarecidos. “Não existe um esforço em aclarar as coisas. Vejo apenas a tentativa de vender mais e mais jornais”. Critica também a televisão, que está banalizando a notícia, e ressalta um erro grave presente nos dias de hoje: “Não há mais a preocupação de informar”.
Maria Wagner se considera uma pessoa atéia, mas, paradoxalmente, reza e vê na religião um viés interessante. “A religião pode te agregar valores, referências e limites”, acredita. Sobre pecado, diz: ” é tudo o que você faz conscientemente para prejudicar alguém. Seja física, emocional ou moralmente.”
Parafraseando o poeta Mario Quintana, ela acrescenta: “O milagre que me surpreende é que tenha tanta gente que acredite nisso”, se referindo ao fanatismo religioso. Cita o ‘Pai-nosso’, como uma das rezas mais bonitas e, fazendo uma crítica à sociedade machista, observa: “Sinto falta da oração ‘Mãe-nossa’”. Mesmo com todas as modificações que a sociedade está vivendo, em relação à liberdade e aos direitos da mulher, ela diz sentir falta de espaço e respeito.
Uma referência
Há quase 12 anos, Maria Wagner trabalha como editora de Cultura do Jornal do Comércio. Antes do JC, Maria atuou em diversos veículos de Porto Alegre, passando por televisão e rádio. O ingresso na Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul ocorreu em 1970. E, logo no primeiro semestre de faculdade, ela já estava trabalhando no Diário de Notícias. Não declara a idade, só revela que atua na profissão há 36 anos…
Sorrindo a jornalista relembra do seu primeiro dia de trabalho e das sete pautas distribuídas pelo chefe Elóidi Rodrigues. “As recordações são ricas”, enfatiza. Maria conta um dos seus primeiros desafios – fazer uma matéria sobre imposto de renda. “Foi um sufoco. Mas, também, esse tipo de situação me marcou de tal maneira que eu me tornei uma pessoa interessada pelo mundo”, avalia, ressaltando uma de suas principais características – a abrangência de interesses.
Como o trabalho foi uma atividade constante e paralela à vida acadêmica, Maria só recebeu o diploma de jornalista em 1979. Em compensação, experiência ela já tinha de sobra. Além do Diário de Notícias, a então estudante de Jornalismo passou pela TV Difusora, pela Folha da Manhã, onde teve sua primeira experiência em jornalismo cultural, e pela Zero Hora.
Apesar de destacar sua última passagem pela televisão, na qual chefiou o Telejornalismo da TVE, entre 1985 e 1990, como uma das fases mais ricas da carreira, Maria confessa, com um sorriso, que a sua “praia” é mesmo o jornalismo impresso. Como editora de Cultura do JC, ela, obrigatoriamente, acompanha todo o processo de composição da página. “Eu tenho a idéia, eu faço a pauta, eu titulo, eu baixo”. Trabalho continuado e envolvente é uma boa descrição para as suas tarefas no jornal. “Eu gosto porque dá a possibilidade de controlar a qualidade do que eu produzo. De saber aonde queremos chegar e avaliar se estamos chegando.”
Sonhos? Sim, a jornalista tem e vai longe. Um dos grandes desejos de Maria Wagner é atuar junto a uma editoria internacional que, segundo ela, tem ligação com a cultura. Em suas leituras de jornais busca significados históricos. As conseqüências do fato para o mundo e não apenas para a região afetada. Sente falta de abordagens mais profundas na área. “O que tem está muito restrito. Pra fazer uma boa página internacional é preciso de espaço, de bons comentaristas, de pessoas que saibam de um significado de uma guerra do Iraque para o resto do mundo”.
Reconhecida por seu texto literário, Maria já escreveu dois livros. Um deles, ‘Mente Criativa. Aventuras de um Cérebro bem Nutrido’, produzido para o médico ortomolecular, Juarez Callegaro, foi lançado durante a Feira do Livro de Porto Alegre de 2005. A outra obra ainda não tem previsão para o lançamento. Atualmente, sua excessiva autocrítica não libera a leitura por terceiros. “Eu sou o meu pior patrão. Sou mais condescendente com os outros do que comigo”. Talvez por expressar mais as suas opiniões, Maria Wagner tem medo de se expor com a publicação da obra e acha que “pelo menos tão cedo não será publicada”.
Escrito no fim da década de 90, o livro tem Pablo Picasso como gancho, mas a história alça uma verdade própria na medida em que diálogos vão se criando. “Tenho medo de parecer piegas, hermético.” Colaborações do escritor Armindo Trevisan e do psicanalista Raul Hartke, além de entrevistas e leituras adicionais, ajudaram a construir o livro. Aos que gostam do texto de Maria e esperam o lançamento de ‘Picasso’, aí vai uma luz no fim do túnel. “Hoje, posso detestar algo que escrevi recentemente, mas daqui a alguns anos, posso achar interessante”, admite.
Humilde, solidária e sincera são adjetivos característicos da jornalista Maria Wagner. Mas é a persistência que ela destaca como o seu maior adjetivo. Defeitos? Por gostar da solidão, Maria Wagner conclui que deve ser difícil a convivência com ela. “Sinto necessidade de estar só, pra mim o maior bem é a solidão”. Em contraponto, está sempre pronta para ajudar, admitindo, porém, não sentir necessidade de estreitar laços afetivos. “Não sirvo pra viver esses estreitamentos, sinto falta do meu espaço vital”. Maria Wagner foi casada durante 10 anos e afirma que, após a separação, teve a certeza de que não iria mais dividir a casa com ninguém. “Fui casada com uma pessoa maravilhosa, mas, pra mim, casamento é uma camisa-de-força”. O respeito pelo outro é um dos itens mais importantes, na visão de Maria Wagner, para se atingir um relacionamento saudável. “Respeitar o outro como eu me respeito, foi isso que ensinei para o meu filho”, Diego Wagner Viale, de 24 anos.

