Carismático é uma boa característica para definir o professor Antônio Sérgio Fernandes Checchia. Homem alto, de olhos verdes brilhantes, com 58 anos recém-completados, Checchia define-se um ser utópico. “Sempre lutei para realizar o impossível”. Natural de São Paulo, capital, chegou a Porto Alegre em 1993, com a missão de implantar e dirigir a Escola Superior de Propaganda e Marketing no Estado (ESPM RS). Hoje, 17 anos depois, com o título de cidadão de Porto Alegre no currículo (proposto pelo vereador Isaac Ainhorn, já falecido), enumera elogios à cidade que, segundo ele, conquistou seu coração.
Checchia admite que a notícia de sua demissão do cargo de diretor da ESPM, no início de janeiro, o pegou de surpresa. “Eu já vinha me preparando para sair, mas o desapego é sempre um processo muito dolorido”, diz, ainda em fase de adaptação à sua nova rotina. “A primeira decisão que tomei, após deixar a escola, foi permanecer aqui. Já me sinto um gaúcho”, revela, afirmando que até já aprendeu a cantar o Hino Riograndense.
Vou pra Porto Alegre…
Sérgio e a esposa Dóris passaram algumas dificuldades de adaptação logo que chegaram a Porto Alegre. Dóris é gaúcha, mas estava em São Paulo havia muitos anos quando a família decidiu mudar-se para o Rio Grande do Sul. “Chegamos no verão e a primeira diferença que sentimos foi em relação ao clima. O calor escaldante de Porto Alegre me fez comprar muitos ventiladores e o meu primeiro ar-condicionado. Em São Paulo, nunca precisei de um”, conta. Passada a dificuldade inicial com o clima, Checchia buscou entender e se incorporar à cultura dos gaúchos.
Porto Alegre, na verdade, já era sua conhecida de longa data. Desde criança, ele acompanhava o pai empresário, Hélio Checchia, em suas viagens à Capital. Mais tarde, em 1987, passou a vir de 15 em 15 dias para ministrar aulas, numa parceria da ADVB/RS com a ESPM de São Paulo. Nesta época respondia pelas disciplinas de Marketing Estratégico, Novos Produtos, Comunicação com o Mercado e Planejamento Estratégico. Formado em Administração de Empresas, com pós-graduação em marketing, Checchia teve passagens por multinacionais como General Motors, Elylilly, Mead Johnson, Cica, Becton, Dickinson. Em 1986, montou, com a esposa, a Checchia Consultoria e Treinamentos. Foi em função da visibilidade do trabalho como consultor que recebeu o convite para dar aulas.
“Seguir carreira acadêmica não estava nos meus planos. Nunca senti tanto medo na minha vida”, revela, confessando que precisou tomar calmantes para enfrentar o seu primeiro dia em sala de aula. “Quando terminei o primeiro período, percebi que havia sido picado pela mosquinha azul. Sabia que exerceria aquela atividade por muitos anos ainda.” No final de 1992, Checchia recebeu um novo convite, desta vez para mudar-se para Porto Alegre a fim de assumir a direção da ESPM RS.
Tentado a aceitar o desafio, conversou com a esposa e tomaram a decisão de não decidir. “Tiramos os remos e esperamos para ver para que lado o barco iria”, diz, metaforizando. Um dia, chamado para uma reunião, que na verdade era uma coletiva de imprensa, foi comunicado que era o indicado para assumir a ESPM de Porto Alegre. “Aceitei com a imprensa de testemunha.”
Hino ao amor
Com os olhos marejados, Checchia conta sobre o e-mail que o filho Guilherme enviou aos colegas informando que, mesmo com a saída do pai, o trabalho deveria continuar. Ele refere-se aos projetos do curso de Relações Internacionais, da ESPM-RS, do qual o filho é aluno, que estavam em andamento. Guilherme, de 20 anos, está há dois na escola. É o terceiro filho de Checchia, fruto da união, que já dura 24 anos, com Dóris. O professor também é pai de Cristiane, 35 anos, mestre em História, e Marcelo, 33, psicólogo. Também tem três netos. “Temos que explicar para as crianças que eles têm três avós”, diz, comentando o fato de os netos gostarem de Dóris. “Quando casamos, meus filhos do primeiro casamento optaram por morar conosco”.
Sérgio e Dóris se conheceram quando ele procurava emprego em uma agência de publicidade. “Ela me atendeu com um sorriso lindo, fiquei encantado. Quando comecei a trabalhar lá, fui apresentado a todos da agência e não a vi. Só fiquei tranquilo quando me disseram que ela tinha saído para ir ao banco, mas já voltava. Pensei: Ufa, ela existe mesmo”. Mas o namoro só vingou quando ela decidiu voltar para Pelotas, sua terra natal. “Como não podia deixá-la partir, a chamei para tomar um chope. Deu certo”, sorri.
Sérgio e a esposa trabalharam juntos por muitos anos. “As pessoas me perguntavam como eu conseguia passar 24 horas por dia com minha mulher e não enjoar. A resposta sempre foi a mesma: Quando o amor é verdadeiro, a gente quer estar junto o tempo todo”. O professor conta que, quando criança, costumava ouvir Hino ao Amor, na voz de Wilma Bentivegna, e pensava em encontrar um amor como o da música. Para ele, o encontro com Dóris foi a realização deste sonho.
Nos últimos dois anos, Checchia também tinha a companhia da esposa na ESPM, onde ela desenvolvia atividades de responsabilidade social. Os dois adotaram um cachorro, que acabou virando o mascote da escola. “O Thor Kotler (como o batizaram), apareceu no pátio todo machucado. A Dóris e uma funcionária cuidaram dele. Depois foi difícil não adotá-lo”, diz. Assim, criou-se um canil dentro da escola, os funcionários passaram a se revezar para cuidar do cachorro e até os alunos começaram a contribuir com ração para o animal. Com a saída de Checchia, Dóris também deixou suas atividades na ESPM. “Ela disse que não conseguiria estar lá sem mim.”
Quem sabe, um livro
Na sua concepção, alunos deveriam ser tratados com a mesma atenção que ele gostaria que seus filhos recebessem. Assim, o professor Checchia implantou o que chamou de ‘modelo da simplificação’. “Existia um regulamento, mas a ordem sempre foi para seguir o bom senso, mesmo que isso significasse desrespeitar as regras”, destaca.
Para ele, uma boa administração deve ser baseada na paixão, paixão por fazer o melhor.” Na intenção de desenvolver uma administração transparente, assegura que nunca deixou de atender um aluno sequer. “Levei sete anos para ter secretária, queria que os estudantes tivessem acesso direto a mim”. Fora da sala de aula desde 2002, nos últimos anos havia se dedicado somente às atividades de diretor. Sobre sua saída, comunica: “Estou fechando um ciclo, com a sensação de dever cumprido. Tudo o que eu fiz valeu muito a pena e é motivo de orgulho para os meus pais e para os meus filhos”. E manda um recado para os professores e funcionários: “Não deixem a peteca cair”.
Sérgio decidiu renunciar à candidatura à presidência da Associação Riograndense de Propaganda (ARP) também. “Não sou de abandonar nenhum projeto no meio do caminho”, diz referindo-se ao fato de não saber o que o espera pela frente em termos profissionais. “Decidi recolher os remos e deixar o barco andar, como há 17 anos. Vou apoiar quem se candidatar e, quem sabe, em outro momento, me candidatar novamente. Mas agora, não seria legal usar a presidência da ARP como uma vitrine”, esclarece.
Sérgio gosta de ler romances, quando não está ocupado com o trabalho, o que, segundo ele, são suas válvulas de escape. Entre seus autores favoritos está Sidney Sheldon. Considerando-se um homem de sorte, diz não ter tido grandes frustrações na vida. Com viagem marcada para Nova Iorque, quando voltar retomará as atividades frente à Checchia Consultoria e Treinamento. Aos que pedem que ele transforme suas experiências em livro, Sérgio diz que seria um livro de duas páginas, com a seguinte mensagem: “Faça o melhor, mas sempre com muito carinho”. Brincadeiras à parte, ele afirma que a possibilidade de escrever um livro existe sim. “Quem sabe já não volto de Nova Iorque com alguns capítulos”.

