Por Alexandre Pinto – 22/11/2013
As vitórias de Antônio Vilmar da Rosa induzem qualquer profissional a refletir sobre todas as barreiras que ultrapassam na trajetória. Passou por uma infância difícil com pouco estudo, no interior de Rio Pardo, mas aprendeu, desde cedo, a não perder boas oportunidades. A fotografia e o esporte possibilitaram que Vilmar crescesse como profissional e cidadão.
Assim como a fotografia, o ciclismo faz parte da vida do Vilmar. Aos 62 anos de idade, já participou de inúmeros campeonatos em Porto Alegre, no interior do Estado, em diversas capitais brasileiras e, até mesmo, em países da América Latina. Uma paixão que iniciou aos 11 anos em uma competição no Parque da Redenção. Mas o ciclista também se aventurou em outros esportes. “Praticava atletismo, remo e ciclismo. Continuo e continuarei pedalando, mas não para competir e sim por paixão”, declara.
Foi graças ao atletismo que Vilmar conheceu, na década de 1970, a jovem atleta Zolete Ribas de Sá. A amizade entre o casal iniciou em um campeonato promovido pelo Sesc, em Santa Maria. O casamento, formalizado em 1977, perpetua até hoje, ao lado dos filhos Ângela e Rafael e mais dois netos. Esta é a família que, em breve, contará com a dedicação integral do avô. Depois de aproximadamente 50 anos como fotógrafo, a aposentadoria é inevitável, mas a busca pelo melhor clique continuará. “Quero ainda sair pedalando por aí, com minha câmera na mão em busca da melhor foto. Mas também pretendo aproveitar minha família e trabalhar menos como autônomo”, conclui.
Ascensão profissional
Aos 11 anos, com estudo apenas até a 5ª série (considerada Eucação Básica), aprendeu com o pai adotivo a como trabalhar no campo. Ainda criança, Vilmar também foi operário em uma fábrica em Cachoeira do Sul, gerenciada pelo irmão. “Todos os dias, no mesmo horário, a fiscalização do Ministério do Trabalho batia lá. Meu irmão me jogava por uma janela e eu corria para a casa dele. Quando os fiscais iam embora, eu voltava para o serviço”, relembra.
Tinha 15 anos quando procurou em um estúdio de fotografia uma oportunidade de emprego. “Por sorte, o dono estava prestes a se mudar para Porto Alegre e precisava de alguém para cuidar da loja. Era Valter Borba, o chefe que me ensinou tudo sobre fotografia”, conta. Este estúdio possibilitou que Vilmar começasse a familiarizar-se com a profissão de fotógrafo, cobrindo eventos para o jornal local. Aos 18 anos, o principiante em fotografia mudou-se para a Capital, em busca de melhor colocação.
O Jornal do Comércio chamou a atenção do jovem ainda inexperiente, que, após insistência diária, garantiu uma oportunidade de emprego. A ausência de um profissional na redação fez com que ele iniciasse sua trajetória de 29 anos e 10 meses no veículo. “Lá dentro, eu aprendi muito. Trabalhava no laboratório da redação ou em coberturas externas. Com Carlos Attila Fuscaldo, aprendi na prática como ser um bom repórter fotográfico”, salienta.
Em paralelo ao trabalho no JC, em 1985, Vilmar tornou-se presidente da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio Grande do Sul (Arfoc-RS). “Eu assumi a associação atirada, ninguém queria. Teria que aparecer um louco, que nem eu para pegar a bronca. Mas antes de ser presidente fiquei um tempo como interventor, acho que uns três meses. Naquela época, existia uma dívida imensa de condomínio, luz, água”, explica. O processo para levantar verba, antes de uma intervenção judicial, foi árduo, mas não o suficiente. A sala da Arfoc iria a leilão. Para que isso não acontecesse, o então presidente decidiu vender um terreno e quitar o restante da dívida.
Na época, a entidade tinha pouco mais de 150 associados e a inadimplência era alta. Por esse motivo, teve que tirar dinheiro do próprio bolso para pagar as despesas da entidade. “Quando saí em 1993, havia um ano de endividamento, mas, quando eu assumi, tínhamos oito anos em dívidas”, explica Vilmar, que hoje é 2º tesoureiro da gestão de Itamar Aguiar. “Não consigo me desligar. Estou novamente na diretoria”, brinca.
Na vida adulta
Nascido em 28 de agosto de 1951, tinha cinco anos quando a sua infância foi marcada pela perda da mãe biológica, que deixou cinco filhos pequenos. Os irmãos foram separados, porque o pai desapareceu. Vilmar foi criado na comunidade de Bexiga, em Rio Pardo. “Minha mãe suicidou-se e meu pai fugiu. Todos os filhos foram adotados. Conheci minhas irmãs gêmeas quando tinha 28 anos e, aos 30, reencontrei meu pai”, relembra.
Mesmo distantes, os cinco irmãos tentam de alguma forma manter contato e trocar experiências, pois “o sentimento familiar é diferente ao ser adotado. Você se sente deslocado, tanto com os parentes de sangue, quanto com os parentes adotivos.”
A infância foi amarga, pois o pai e o irmão adotivo bebiam muito e eram violentos. “Meu pai me amarrava num tronco e me chicoteava. Só quando a minha mãe chegava do trabalho, eu saía do castigo. Com seis anos de idade, estava no lombo de um cavalo, puxando uma capinadeira, e quando completei a 5ª série, meu pai me tirou da escola”, recorda. Para Vilmar, mesmo com castigos tão severos, não há do que reclamar da criação que recebeu.
Ao chegar a Porto Alegre, o fotógrafo tentou retomar os estudos, mas o trabalho não o deixava seguir e o esporte tomou conta das poucas horas vagas que tinha.
Momentos marcantes na profissão
Um dos momentos recordados por Vilmar foi quando precisou acampar por 45 dias dentro de um carro e foi agredido pela Brigada Militar. Esse episódio aconteceu durante a invasão de uma fazenda no interior do Estado. Na hora do conflito, Vilmar seguiu os invasores e, para registrar boas imagens, subiu em um barranco. “De lá, fotografei um soldado imobilizando um militante em fuga. Já sem reação, outro soldado chutou o cara. Assim que perceberam que eu registrei tudo, eles me cercaram e só deu tempo de proteger o equipamento contra o peito.”
Depois da agressão, Vilmar foi encaminhado para o comando do batalhão, sem os filmes e as câmeras. Liberado, só não saiu do local com os equipamentos. As imagens foram perdidas durante a operação.
Outro episódio marcante foi quando recebeu um convite para trabalhar no Correio do Povo. No entanto, o Jornal do Comércio cobriu essa proposta no mesmo dia em que seu pai biológico faleceu. “Durante a reunião, minha irmã ligou para o jornal para falar que meu pai tinha falecido. Retornei para a reunião e fui informado que o JC queria me manter na redação”, recorda.
O dia 14 de julho de 2000 marca a data em que deixou de ser funcionário do Jornal do Comércio, após quase 30 anos no veículo. Atualmente, está na Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária e Agronegócio, de onde pretende sair em breve. “Tem uma hora que a gente pensa. Já aconteceu tudo que tinha que acontecer. Tenho minha família, dois netos, está na hora de dar mais atenção a eles”, desabafa.
O esporte
O ciclista fotógrafo já esteve em diversas cidades a bordo de uma bicicleta, sendo que a maior viagem foi de Porto Alegre a Santa Maria. “Hoje, não estou competindo, mas a média diária de um competidor é de 150 quilômetros”, explica Vilmar. Durante a semana, ele divide o tempo entre família, trabalho e ciclismo. De duas a três vezes por semana treina na rua ou dentro de casa. Nos finais de semana, é a vez de um treino mais puxado.
Esse hábito não surgiu de uma noite para outra. Desde adolescente, participava de campeonatos esportivos para atletismo, remo e, principalmente, ciclismo. Uma das histórias engraçadas deste atleta foi quando ele e mais um companheiro participavam de uma prova de 250 quilômetros em Londrina. “Estávamos à frente do pelotão, na traseira de uma caminhonete. Depois de um período de desatenção, percebi que não tinha mais ninguém atrás. Foram cerca de 30 quilômetros de percurso errado. Retornamos e conseguimos alcançar o pelotão. A prova de 250 passou de 310 quilômetros sem necessidade.”
Uma nova etapa na vida de Antônio Vilmar da Rosa está por vir. A família terá dedicação exclusiva, mas o ciclismo e a fotografia não serão aposentados. A busca pela melhor imagem e o desejo de descobrir o mundo sobre duas rodas continuarão.

