Por Gabriele Afonso
A praia do Laranjal não seria a mesma sem um de seus moradores mais apaixonados, o jornalista Luiz Antônio Caminha dos Santos. Se optasse pela profissão de guia turístico, inevitavelmente ele atrairia muitas pessoas para Pelotas, cidade que há 12 anos escolheu para viver e sobre a qual detém um vasto conhecimento histórico. Natural de Santa Maria, Caminha, como é conhecido, considera-se pelotense da gema e afirma, com convicção: “Já andei por alguns bons lugares no mundo, mas não trocaria o Laranjal por nenhum deles”.
O carinho pela cidade é o mesmo que nutre pela profissão escolhida por acaso após uma conversa com um amigo que iria prestar vestibular para Comunicação Social. A escolha causou estranheza para os pais e chocou o avô, que alimentava um sentimento hostil por jornalistas e advogados. Por ironia do destino, seus irmãos mais velhos acabaram se formando em Direito. O cunhado, que é médico, bem que tentou convencê-lo a seguir o seu caminho, mas após acompanhar uma cirurgia convenceu-se de que ali não tinha futuro nenhum. A advocacia também chegou a figurar entre as alternativas, mas, como sempre gostou de ler, preferiu a trajetória das letras. Formou-se em 1981, pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
A ideia de rotina parece nunca ter feito parte do seu dia a dia e, junto com as viagens ou mudanças de residência, alimentou ainda mais a paixão pelo Jornalismo. Até se fixar em Pelotas, trabalhou em Santa Maria, Caçapava do Sul, Porto Alegre e Cachoeira do Sul. Na Capital registra passagens por Zero Hora e Correio do Povo e, em Pelotas, pelo centenário Diário Popular. Nos últimos quatro anos assessorou o vereador Eduardo Leite, agora prefeito eleito de Pelotas. Tanto tempo alimentou uma grande admiração: “Estou acompanhando esse florescimento do Eduardo como político e vejo nele alguém raro, é por isso que optei em deixar algumas coisas de lado para acompanhar sua trajetória”, registra o jornalista.
No quesito relacionamento também adquiriu certa experiência; após alguns casamentos descobriu, com a jornalista Ana Cláudia Dias, que morar em casas separadas é a fórmula para que uma relação seja duradoura. Do primeiro casamento tem um filho, Luiz, que lhe deu a neta Maria Luiza.
Os primeiros passos
Logo que passou no vestibular, cursou dois anos do curso básico em Comunicação Social, e em seguida optou pelo Jornalismo. Conseguiu um estágio na rádio Santamariense, o que lhe valeu, também, o primeiro contato com a boemia. A rádio retransmitia o noticiário da Rádio Guaíba e, para isso, era necessário fazer a decupagem das notícias que passavam a ser lidas por radialista local. A equipe era formada por Caminha e um músico pianista alcoólatra. “Cada vez que ele ia datilografar precisava dar uma ‘calibrada’, era impressionante a rapidez com que escrevia”, lembra rindo.
Soma como riqueza o fato de já na infância estar em contato com a literatura e a leitura de jornais como Correio do Povo, Folha da Tarde e Diário de Notícias. Quando jovem, foi O Pasquim sua maior influência no Jornalismo. “Meus pais liam muito e até hoje não sei como meu irmão conseguia comprar esse jornal. O Pasquim revolucionou o Jornalismo no Brasil, existe uma forma de escrever antes e depois dele”, ressalta. Junto a isso conheceu um paulista que lhe apresentou uma publicação diferenciada, uma espécie de almanaque impresso num tecido, como uma toalha de mesa. Logo uma ideia lhe veio à cabeça, um jornal de bar.
O fascínio pela redação, nutrida após um estágio, e a responsabilidade de estar casado e ter um filho mostraram para Caminha que a publicação poderia lhe trazer prazer e independência financeira. Juntamente com um parceiro lançou, em 1983, o jornal Sopa de Letras, com uma tiragem de três mil exemplares distribuídos nos bares de Santa Maria. O impresso era produzido de tal forma que se pudesse ler, fosse qual fosse o lado que se estivesse sentado. Os assuntos eram variados, mas, em tempos de ditadura, a política era a pauta predominante. “Não existia um planejamento, mas conseguíamos pagar os custos através dos anúncios. Sei que os mais antigos lembram e sabem que o jornal serviu como um instrumento de discussão social”, recorda.
Mudança de ares
Durante quatro anos, jornalistas e pensadores contribuíram para o sucesso do jornal. Entretanto, a falta de planejamento começou a incomodar o editor-repórter-pauteiro Caminha. Suas metas e objetivos eram outros e resolveu que era hora de mudar de ares e tentar novos rumos na profissão. O jornal Zero Hora proporcionava todos os anos um curso de aperfeiçoamento aos seus colaboradores, profissionais de fora também podiam participar mediante uma prova de seleção. Caminha passou e durante quatro meses teve aulas com professores americanos, franceses, ingleses e espanhóis. Nesse período, o jornalista se dividiu entre Porto Alegre, local do curso; Caçapava do Sul, onde trabalhava como assessor na prefeitura três vezes por semana; e Santa Maria, onde residia.
Após um trabalho freelancer para a Rádio Gaúcha, foi convidado para ser editor em ZH do caderno dos bairros Azenha, Menino Deus, Praia de Belas e Medianeira. Com emoção, lembra da matéria que mais lhe causou orgulho, a reconstituição da vida do cantor e compositor Lupicínio Rodrigues. Dela surgiu uma vontade, ainda engavetada, de escrever uma biografia sobre o artista. Amante da boa música, Caminha explica que a vida de Lupicínio pode ser contada a partir das letras de suas canções, como ‘Nervos de Aço’, composta para Mercedes, o grande amor de sua vida, e ‘Pobres Moços’, que retrata as agruras de um grande amigo que iria casar.
Em 1994, foi para o Correio do Povo, onde permaneceu por um ano. É com um profundo agradecimento que Caminha lembra quando sua amiga, a jornalista Maria Isabel Hammes, indicou seu nome para editor do jornal Correio Popular, de Cachoeira do Sul. “Aceitei na hora, pagavam muito bem, em dólar. Morei durante seis anos na cidade”, conta. Durante esse período, uma unidade da Ulbra se instalou na cidade e o jornalista passou a ser assessor da faculdade e professor no curso de Jornalismo. Coincidência ou não, logo que deixou o Correio Popular foi convidado a escrever uma coluna semanal no jornal concorrente, o Jornal do Povo. O convite partiu diretamente do administrador e jornalista Eládio Dios Vieira da Cunha, diretor da publicação, por quem Caminha cultivou uma grande amizade.
Pelotas para sempre
Cansado da rotina, Caminha entra um dia na sala de Eládio e explica que estava perdendo o gosto pelo que fazia. Outra vez, procurava novos caminhos. Sem pestanejar, Eládio telefona para Virgínia Fetter, diretora do Diário Popular, de Pelotas, e pergunta se ainda procuravam um novo editor chefe. Sem acreditar na conquista da vaga, viajou para fazer a entrevista. Passado um tempo, recebeu a notícia de que teria de se mudar para Pelotas. Sem olhar para trás, Caminha se mandou para o novo desafio. Na redação do tradicional diário pelotense, encontrou um ambiente burocratizado, estagnado: “Durante alguns anos minha missão foi tirar as pessoas da zona de conforto. Sei que fui uma pessoa odiada, mas hoje todos compreendem e são meus amigos”.
A ideia de repaginar o layout do jornal foi apoiada pelo designer e desenhista Odyr Bernardi. “Mais do que apenas uma mudança visual, conseguimos promover uma mudança na escrita também”, lembra com orgulho. A política entrou em sua vida em 2008, quando o advogado Matteo Chiarelli se elegeu deputado e o convidou para assessorá-lo. “Passei a entender sobre política e peguei gosto pela coisa”, ressalta.
Um dos responsáveis pela campanha que levou o advogado Eduardo Leite à prefeitura de Pelotas, Caminha se orgulha da sua trajetória e tem certeza que está na profissão certa. Filho de Danton, professor e secretário executivo da Cooperativa dos Funcionários da Viação Férrea do Rio Grande do Sul, e de Estela, professora de música, só lamenta não saber tocar nenhum instrumento musical – embora tenha certeza de que soube tirar proveito dos ensinamentos maternos e apurou seu gosto musical. É apaixonado por jazz e ainda sabe alguma coisa sobre a história do rock in roll. E apaixonado por gastronomia também: mais do que um hobby, Caminha afirma que é um ótimo cozinheiro e jura que ainda será especialista na área.
De frente para a Lagoa dos Patos, o jornalista contempla a beleza do local e reafirma o seu amor pela cidade. “Gosto de estar perto dessa lagoa, acho ela mágica, me traz bons fluídos, me reconstitui”, diz, e emenda com uma promessa: “O ritmo e a correria do dia a dia atropelaram a minha contemplatividade. Além disso, sou muito preguiçoso, mas pretendo voltar a andar de bicicleta na orla, sei que é só uma questão de me organizar”. Consciente de que está acima do peso normal, bem acima, compromete-se: vai pedalar para melhorar a qualidade de vida.

