Em Porto Alegre, não há praticamente nenhum leitor de jornais e revistas que não conheça o Hienas. Há 17 anos, o pequeno jornal, em formato tablete e com uma média de 20 páginas, circula pela cidade, disponível em balcões de lojas, escritórios e consultórios. Seu conteúdo é formado exclusivamente por cartuns, cercados de anúncios por todos os lados, acima e abaixo. A leitura é irresistível.
O que quase ninguém conhece é o responsável por este sucesso, que assina simplesmente Sprtizer. Pois este é ele: o artista que há quase duas décadas desenha incansavelmente cartuns chama-se Cláudio Spritzer e já passou pela Medicina, pela Publicidade, pelo Jornalismo e até pela venda de mousses. Quando cansou desta última atividade, teve a idéia de criar o Hienas. Hoje, com 46 anos, está realizado e não almeja expandir seu negócio. “Não quero virar empresário e nem perder meu tempo livre”, explica.
Nada a ver com hospital
Spritzer iniciou sua vida acadêmica em uma área imensamente distante da que hoje ele atua. Recém-saído do Ensino Médio, com 17 anos, ingressou na faculdade de Medicina, onde permaneceu por três anos. “Na real, a partir do segundo ano eu nem ia mais às aulas. Preferia jogar bola na Redenção”, confessa Spritzer. Depois de concluir que os hospitais não seriam seu melhor destino, mudou radicalmente para o Jornalismo, na Ufrgs. Como já trabalhava desde os 21 anos, percorreu lentamente o curso. No final dele, teve de fazer 14 cadeiras em um semestre, senão o prazo para a formatura iria estourar. Entre suas ocupações, estavam uma banda, com a qual se apresentava pelos bares da Capital, e uma pequena agência de publicidade, montada com um amigo. Foi essa agência que deu origem ao precursor do Hienas. Era o jornal Pombo Correio, que, além de trazer cartuns, falava de música. Para preencher ainda mais a sua agenda, fazia o programa de TV Companhia 2, na PUC.
Embora já estivesse na Comunicação, ainda usufruía dos tempos de estudante da saúde. À noite, junto com outro jovem, começou a dar palestras e vender livros de Biologia em escolas de Medicina. “Isso foi muito importante para a minha formação e experiência nas vendas. A minha dupla sempre ganhava prêmio de melhor vendedor da empresa. Nós nos divertíamos e ainda ganhávamos uma grana”, considera. Só que ele nunca gostou de ficar parado muito tempo em um emprego. Depois de cerca de três anos nas vendas, e em outros trabalhos rápidos, começou a trabalhar na agência de um primo. Também não durou.
Doce solução
Já casado com Rosana, com quem está junto há 19 anos, resolveu dar outro salto na vida. Estava enjoado de escrever em um ambiente fechado e decidiu que iria vender mousse. A idéia surgiu porque sua mãe estava com a intenção de trabalhar no ramo gastronômico. O negócio começou no dia em que ele ligou para o primeiro restaurante do Guia Telefônico, sem nada pronto ainda, e ofereceu uma amostra dos doces. Como o estabelecimento pediu uma grande quantidade, para pouco tempo, ele pediu para que sua irmã ligasse, fingindo ser a secretária da fábrica, pedindo um prazo maior. Eles conseguiram, e a partir de então, as vendas engrenaram. “Eu cheguei a ser o segundo maior distribuidor de mousse de Porto Alegre”, conta Spritzer. O empreendimento termina, quando entra o presidente Fernando Collor. Após ter seu dinheiro confiscado no banco, ficou sem capital para seguir adiante. Novamente, teve de buscar uma outra alternativa, com urgência.
Um caso de sucesso
Como possuía talento com o lápis e o papel, criou o Hienas, jornal mensal, exclusivamente de cartuns, com uma média de 20 desenhos por edição, um por página, mantido por dezenas de assinantes. “Desenvolvi o jornal de maneira que ele não me desse trabalho. Sua diagramação é simples e os anúncios partem todos do mesmo tamanho. Os maiores são simples junções de dois ou três”, esclarece. Sua equipe se resume ao próprio cartunista, responsável por todas as ilustrações, por sua mulher, Rosana, que ajuda na parte administrativa; e pelo diagramador Filipe Menegon. Depois de fechado o jornal, ele vai pra gráfica e é distribuído de moto, por uma empresa especializada, em mais de 400 pontos na Capital. Além disso, cada anunciante recebe um número específico de exemplares para disponibilizar em seu estabelecimento.
Esta divisão de tarefas só veio com o tempo. Nos primeiros anos da publicação, era Spritzer quem desenhava, corria atrás dos anunciantes e fazia a distribuição, de carro, pela cidade. “Agora, de cada 10 anunciantes que eu coloco no Hienas, nove ligam para cá se oferecendo. Antes, eu tinha que criar inúmeras táticas para convencer os caras a anunciar no meu jornal. Uma vez, eu fingi que tinha achado por acaso um anunciante, quando, na verdade, fiz de tudo para encontrá-lo”, conta. Nem sempre foi fácil manter a publicação. “Hoje, eu sei que se começar a dar tudo errado, ele vai se manter por um tempo, até eu arranjar uma solução, mas tinha época que eu não sabia se o exemplar do mês seguinte iria sair”, enfatiza.
Spritzer explica que a produção dos desenhos é feita toda de uma vez só. “Eu não consigo ficar fazendo um por dia. Normalmente, eu sento e resolvo tudo em no máximo 48 horas. Mas às vezes passo sufoco, já que são 17 anos desenhando todos os meses”, conta. Apesar de todo o sucesso, o cartunista não se considera um bom desenhista. “Na verdade, meus cartuns funcionam, pois eles conseguem passar o que querem. Meu traço é supersimples. O forte dele está na piada, não na arte”, considera. Além do Hienas, sua única experiência anterior com desenho foi a ‘telecaricatura’, mais uma invenção própria. Consistia em receber fotos, a partir de anúncios colocados no jornal, e fazer o retrato bem-humorado do cliente.
Contra a hora marcada
O sucesso do jornal levou o cartunista a ser contratado para integrar a equipe de escritores dos programas de humor do SBT. Escreveu quadros da Filomena, personagem de Gorete Milagres, do Golias, do Moacyr Franco, da Praça é Nossa, entre outros. Há dois anos, exerce a mesma função na Rede Globo. Compõe o grupo de oito escritores da Turma do Didi. Escreve quadros, semanalmente e os envia, por e-mail, para a emissora.
Seus inúmeros truques para levantar o Hienas devem ter refletido no seu hobby mais recente: as mágicas. “Ultimamente eu tenho lido muito e tentado fazer. Faço mal, mas faço mágica”, brinca.
Além da Magia, é adepto do futebol e da música. Gosta de jogar bola e compor canções. É vocalista da banda Funtomas, que formou com ex-músicos do grupo Sombrero Luminoso, mas também não teve muita paciência de investir e tentar engrenar no ramo. Essas diversões são possíveis devido à flexibilidade de seu trabalho. O cartunista conta que sua carteira profissional tem poucos registros. Nunca foi adepto da doutrina de ter horário certo para chegar e para sair de um emprego. Sempre atuou por conta própria.
Spritzer tem um filho de 10 anos e, na última excursão que o menino fez, não perdeu a oportunidade de ir passear também. “Eu e a Rosana ficamos livres, estávamos com vontade de ir a Gramado e fomos. É essa liberdade que eu não quero perder. Já me fizeram propostas para expandir o Hienas para o Interior, para fora do Estado, mas eu recusei, pois iria me roubar muito tempo. Não quero virar empresário, pois com isto perderia minha liberdade de dispor do tempo como melhor entender “, salienta.

