Por Márcia Farias
A genética pode até colaborar, mas a vocação para o rádio é evidente. Aldo Fontella é dono de uma voz imponente e marcante – “aquelas típicas de um locutor”. Filho do comunicador e advogado José Fontella e da cabeleireira Aldaisa Carpes, o sócio-diretor da Audio Design considera-se um profissional realizado. A constatação é feita após relatar a trajetória da carreira, na qual acumula passagens pelas principais emissoras gaúchas, seja no rádio, seja na TV. Sorridente e preciso nas datas, o jornalista, radialista e empresário garante que a Comunicação entrou na sua vida por herança: ele sempre foi incentivado pelo pai a treinar leituras em voz alta, no banheiro, em função do retorno acústico, e em gravadores cassetes.
De pai para filho há mais do que a inspiração profissional, e Aldo não poupa elogios quando fala da relação: “Existe uma identificação natural entre nós. Ele me transmitiu os principais valores como ética, honestidade e lealdade. Mais do que isso, ele me passou o vírus do microfone. Geneticamente, a vida nos colocou no mesmo caminho”. Ao falar da relação familiar, lembra da mãe, com quem mantém um sentimento espiritual: o desenvolvimento do afeto, do carinho, da ternura e do amor. “Ela acredita que tudo na vida tem um plano, que nada é por acaso”, resume, para em seguida afirmar que conseguiu absorver um equilíbrio de características dos pais.
Aos 49 anos e sentindo-se feliz e bem-sucedido, acredita ter sido um “homem de sorte”, especialmente por ter encontrado “uma excelente equipe”, fato que o motivou a permanecer com a Audio Design, que encaminha-se para o décimo aniversário. Apesar da incógnita e dos receios de abrir a própria empresa, diz hoje que não faria nada diferente. “Não cheguei até aqui sozinho. Por trás de todo negócio bem-sucedido há a figura humana. Não adianta ser um profissional maravilhoso e ter um caráter duvidoso.”
Entre rádio e TV
Depois de tanto insistir para que o pai lhe ajudasse a arrumar uma vaga na rádio Guaíba, Aldo iniciou na emissora, mas bem longe dos microfones. Durante dois anos atuou como office boy da empresa, o que foi suficiente para despertar a paixão pelo meio. O sentimento foi confirmado ao longo dos anos, enquanto acumulava diversas experiências, como a passagem pela Rádio Jornal do Comércio, da qual tem ótimas lembranças e onde diz ter aprendido muito.
Uma das lembranças contada com mais empolgação vem da Rádio Cidade, de quem Aldo se considera um “filho”, por ter ingressado na emissora quando esta veio do Rio de Janeiro para instalar-se em Porto Alegre. Mesmo sem ter ideia com quantos profissionais concorreu, sabe dizer exatamente como recebeu a notícia de ter sido um dos selecionados: “Eu tinha apenas 17 anos, recebi uma ligação no JC e já me disseram que o treinamento começaria imediatamente. Lembro bem da minha euforia”. A oportunidade rendeu visibilidade, pois o sucesso da nova rádio foi rápido e estrondoso, como define o jornalista. “Trabalhávamos com 70% da audiência e eu recebia algo equivalente a 20 salários mínimos. Imagina isso na mão de um guri?”, brinca.
O primeiro contato com televisão chegou aos 23 anos, quando cursava Jornalismo na Famecos. A TVE transmitia de dentro da instituição e, nela, Aldo apresentou o programa ‘Bom dia, Gaúcho’. Foi quando percebeu que “levava jeito pra coisa”. Não demorou para ser chamado pelo Grupo RBS, onde atuou como âncora do Jornal da RBS. Não bastassem dois telejornais, a rádio Cidade e a vida de acadêmico, o jovem ainda tocava duas rádios internas com o pai, a do Mercado Público e a da Rodoviária.
A chegada da Publicidade
O acúmulo de funções desempenhadas na Comunicação rendeu a certeza de atingir o momento de maior satisfação na carreira. “Foi uma época da minha vida de muita energia, de desempenhar muitas funções ao mesmo tempo. E eu ainda tinha tempo de viver minha juventude”, orgulha-se. Depois desse turbilhão de atividades, ainda vieram as rádios Atlântida, Universal (hoje, Jovem Pan), Band e Jovem Pan, entre outras.
Em 1988, cansado do ritmo frenético, decidiu passar uma temporada na praia. Descansar? Bem, este era o objetivo inicial. A proposta de tocar a rádio Atlântico Sul, de Torres, durante o verão, foi tentadora demais e ele não resistiu. Apesar da missão de tornar a emissora mais jovem e dinâmica, o que tomaria mais tempo do que o planejado, Aldo garante que o desafio foi vencido com êxito e ainda foi possível unir o descanso a que se propôs com o trabalho e a diversão. No retorno à capital gaúcha, a atuação em rádio não cessou, mas isso foi por um determinado tempo.
Já com experiência em locução publicitária, ele decidiu que precisava mudar. As muitas funções no retorno à rádio Cidade e a mudança radical na programação da emissora, que havia sido adquirida pelo Grupo RBS, foram motivações para que resolvesse migrar para outro campo da Comunicação, a Publicidade. Formou-se na faculdade e nunca mais atuou em rádio. A propaganda começava a ser uma nova paixão.
Vontade de mudar
Mesmo sabendo que o mercado seria muito concorrido, a opção de um novo rumo, como já era de se esperar, tinha que passar pela voz. Em 2002, Aldo resolveu ser empresário e criar a Audio Design, uma produtora de áudio, empresa que desde seu início direcionou-se para o mercado de outros estados. Foi assim que suas investidas deram resultado para que atendesse a São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, entre outras praças.
A experiência adquirida durante os anos dedicados ao rádio foi decisiva para os resultados da própria empresa. Apesar do “tiro no escuro”, ele estava certo da escolha e acreditava no potencial da equipe que formou. Após romper uma sociedade, tocar o próprio negócio sozinho, e do zero, foi o maior desafio profissional. “Me vi cheio de desafios e com uma equipe ao meu lado. Não tive medo, mas percebi a grande responsabilidade que tinha nas mãos. Ter vencido essa etapa foi realmente motivador para continuar na profissão”, afirma. E diz que agora tem certeza de que, após passar por esta dificuldade, nada mais o assusta.
Atualmente, o sonho maior é transformar a Audio Design na maior produtora de áudio de Porto Alegre. Mantém os pés no chão e reconhece que tal feito só poderá ser alcançado com mais foco na capital gaúcha e com muito trabalho. O que parece não ser um problema: “Faço o que gosto de fazer. Sinto muito prazer em trabalhar”. Outra certeza que Aldo alimenta é a forma de saber se está do caminho certo. Para ele, o reconhecimento se dá através da mídia e quando um trabalho lhe é confiado, isso significa o melhor elogio a ser recebido. Acredita que a crítica, na mesma proporção, também deve ser frequente, pois “só assim é possível ter um padrão de qualidade”.
A melhor ouvinte
O rádio não trouxe apenas realização e experiência profissional, trouxe um amor. Miriam era sua ouvinte quando Aldo era comunicador da Cidade. Em 1980, durante uma festa promovida pela emissora, a garota e o locutor se conheceram rapidamente – e ela ganhou um beijo, nada além disso. Uma década depois, o casal encontrou-se novamente durante um baile de Carnaval. Após algum tempo de conversa, Miriam refrescou a memória de Aldo, que desde então tem certeza de que “era para ser”. Da união, nasceram Matheus, 24 anos, e Pedro, 13.
Mais de 20 anos se passaram, e não faltam elogios para a esposa: “Só eu sei fazer uma coisa de cada vez, ela sabe fazer várias. É uma mulher multifuncional: cuida da casa, de mim, dos nossos filhos e da empresa”, fala, referindo-se ao fato de Miriam ser sua sócia e responsável pelo setor financeiro da empresa. Matheus também integra a equipe da Audio Design, é produtor – já cursou Publicidade por um tempo, mas trocou-a pela faculdade de Educação Física. Segundo Aldo, os planos do primogênito parecem ser retornar para a primeira opção. O talento pela arte, os fatos indicam, é hereditário: o pequeno Pedro é guitarrista.
Estar junto da família é um dos passatempos preferidos de Aldo, que gosta de passar os finais de semana em casa, assando churrasco aos domingos, indo ao cinema ou viajando quando pode. Um das principais heranças foi justamente o vínculo familiar. “O que está presente entre nós é o respeito, a admiração e o amor fraterno, que aprendi com meu pai. Acho que sou a continuação dele. É isso que tento passar aos meus filhos”, resume.
Longe de tudo
O irmão mais velho da cabeleireira Gisele, por parte de mãe, e da publicitária Consuelo, por parte de pai, foi criado pela avó, em Gravataí, até os sete anos. Ter convivido com a natureza durante uma infância simples, em que nadava em rio, jogava futebol na rua e fabricava os próprios brinquedos, faz Aldo acreditar que antigamente era mais fácil ser feliz. O convívio com a matriarca foi mais além da tranquilidade. Observando-a, ele aprendeu a cozinhar, uma das práticas que mais gosta de fazer. “Lá em casa quem cozinha sou eu, o que acaba combinando com a Miriam, que é louca por limpeza”, conta às gargalhadas.
Outro prazer é a arte, que, segundo ele, é tudo aquilo que emociona. Com mania de ouvir diversas vezes uma música de que goste, tem gostos ecléticos neste quesito – vai de Beatles e Rolling Stones, passa por Djavan, Eric Clapton e Lenny Krevitz e ainda chega em música eletrônica. Na Literatura, Gabriel García Marquez, Luiz de Camões e William Shakespeare estão entre os preferidos. Quanto ao cinema, o suspense chama mais a atenção, e o primeiro filme que lhe vem à cabeça é Blade Runner, de Ridley Scott.
Definindo-se como “estranho e solitário, cristão, louco e místico” – frase que utiliza em sua página no Facebook –, ele encerra a entrevista fazendo questão de destacar a importância de ser lembrado para um perfil como este: “Estou orgulhoso de saber que tenho algo para contar”.

