Olyr Zavaschi, 65 anos, descobriu o Jornalismo por acaso. Graduado em Direito, dedicou alguns anos de sua vida à atividade jurídica, mas encontrou na Comunicação os desafios que procurava. Durante sua trajetória profissional, sempre voltada para a imprensa, conseguiu inserir no trabalho os seus maiores hobbies: as viagens e o estudo da História. Hoje, à frente da seção Almanaque Gaúcho, de Zero Hora – veículo onde atua há 35 anos –, conduz seu trabalho de forma mais tranqüila. Nesse momento, deposita suas expectativas nos três filhos, o psicólogo Guilherme, o médico Leonardo e a futura arquiteta Letícia.
Natural de Encantado, no interior do Estado, mudou-se ainda criança, com cinco anos, para Faxinal dos Guedes, em Santa Catarina, acompanhando os pais e os seis irmãos. “Vivenciamos a saga dos imigrantes italianos nas décadas de 30 e 40 do século passado. As terras gaúchas estavam saturadas e as numerosas famílias eram obrigadas a tentar a sorte em outros Estados”, associa. Passou a infância em Faxinal dos Guedes e, aos 12 anos, partiu sozinho para o Paraná com o objetivo de completar os seus estudos.
Cursou o ginásio no Seminário São João Maria Vianney, no município de Palmas, e o clássico no Seminário Rainha dos Apóstolos, em Curitiba, ambos em regime de internato – equivalentes ao ensino médio e parte do ensino fundamental. Seus irmãos também se transferiram para outras cidades em função dos estudos, já que Faxinal dos Guedes não oferecia a infra-estrutura adequada. Dos tempos de seminário, ele recorda com carinho e destaca as muitas amizades consolidadas. “Foi uma época maravilhosa. Hoje em dia, quando reencontro os ex-colegas, parece que o ambiente da escola se recria”, comenta.
No banco e no Direito
Do internato ele saiu apenas em 1963, aos 22 anos, no momento de prestar vestibular. O destino escolhido foi Porto Alegre e o curso, o de Ciências Jurídicas e Sociais. Sem dinheiro para se sustentar, teve como primeiro desafio arranjar um emprego, além da necessidade da aprovação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Cheguei à cidade em janeiro e, em fevereiro, já estava empregado e admitido na Ufrgs”, salienta. Seu primeiro trabalho foi no Banco Comercial e Industrial do Paraná, como correntista e, em seguida, representante no setor de compensação de cheques. “Era uma atividade manual, os funcionários de diferentes bancos trocavam os cheques pessoalmente no fim da tarde”, conta.
O emprego lhe garantiu renda durante todo o primeiro ano de faculdade. A partir do segundo ano, passou a atuar na área do Direito, em um escritório de advocacia especializado em questões trabalhistas. Lá, permaneceu de 1964 a 1968, ano de sua formatura, conciliando as aulas, pela manhã, e as atividades profissionais, à tarde e à noite. Contudo, ao final do curso, percebeu não ter vocação para a área. “O exercício da advocacia me deu a dimensão exata do que me esperava e aquele era um futuro que eu não queria”, admite. Dos tempos acadêmicos, guarda boas recordações da política estudantil e do grupo de amigos com quem convivia. Liberato Vieira da Cunha era um de seus colegas e foi o responsável por sua entrada no mercado de comunicação.
Na época, Liberato estudava Direito, mas também era secretário de Redação do Diário de Notícias e, notando o desânimo de Olyr, o convidou para conhecer a redação do periódico. “Fiquei fascinado”, revela. Dois meses após a visita, ele foi convidado a assumir a vaga de editor de Internacional, atividade que assumiu “com muito gosto e curiosidade”. Entretanto, a baixa remuneração o forçou a continuar ativo no ramo do Direito. Passou a manter um escritório com outros advogados desde o final de sua graduação, atuando de maneira autônoma, cuidando de seus próprios processos. “Atendi às áreas imobiliária, civil, de família, fiz inventários e tinha bons lucros”, relata.
Assim, dividiu-se entre os dois empregos e, com o tempo, foi se destacando no que mais gostava de fazer, o Jornalismo. Em 1969 – um ano após assumir a editoria de Internacional –, substituiu Liberato no cargo de secretário de Redação, no qual permaneceu por mais dois anos. Em 1971, voltou às notícias internacionais, desta vez, em Zero Hora e não mais no Diário de Notícias. No veículo do Grupo RBS, a convite de Lauro Schirmer, substituiu Marco Aurélio Garcia, que precisou refugiar-se no Chile devido à ditadura militar. Coberturas interessantes se seguiram a partir daí. “Cobri a reeleição de Nixon, o episódio do Watergate e a volta do peronismo na Argentina”, conta. As sucessivas viagens e o salário melhor equivaleram a sua carta de alforria. Em 1973, abandonou o escritório de advocacia e assumiu-se jornalista definitivamente.
Tempos modernos
Sua atuação no jornal segue ininterrupta até os dias de hoje, à exceção dos anos de 1977 e 1978, quando, por motivos pessoais, decidiu morar em Nova York. Acompanhou a esposa, Maria Lucrécia, que é psiquiatra e havia recebido uma proposta de um hospital do país estrangeiro. Seu filho primogênito, Guilherme, estava junto nesta aventura. “Foi uma ótima experiência. O Brizola, que também residia lá na época, acabou se tornando um amigo nosso”, destaca. Nesse período, Olyr enviou notícias dos Estados Unidos para a redação de Zero Hora, experimentando o trabalho de correspondente.
No final de 1978, de volta a Porto Alegre, assumiu novamente a função de secretário de Redação, à qual se dedicou até 1984, quando assumiu um novo desafio: a informatização dos jornais do grupo RBS. “O computador era absoluta novidade e houve uma grande resistência para a sua aceitação”, ressalta. Um grupo chamado “Sistema” foi montado para executar a tarefa, e Olyr o integrava representando a redação. Cinco anos foram necessários para a realização do projeto, que envolveu viagens a redações já informatizadas de outros países, o recebimento de capacitação e o treinamento dos jornalistas. “Fomos o primeiro jornal do país a ter sua redação completamente informatizada”, comemora.
As novas possibilidades apresentadas pela internet o levaram para uma empreitada igualmente ousada, em 1992: a fundação da Agência RBS de Notícias. Sua criação se tornou necessária devido ao aumento do número de jornais da empresa de comunicação, que se expandia para o interior do Estado e para Santa Catarina. Na ativa ainda hoje, seu objetivo é gerar um intercâmbio de informações e fotos entre os periódicos e centralizar a recepção de notícias de outras agências e fontes em geral. Olyr, que foi o idealizador do projeto, admite: “Esta é a minha glória jornalística”.
Em 1997, após a morte da colega Eunice Jacques, transferiu-se para a área de editoriais, onde permanece até o momento. Além disso, foi convidado por Marcelo Rech, em 2000, para assumir a seção Almanaque Gaúcho, que já existia há um ano. Nela, ele reúne diariamente o seu gosto pela História – adquirido ainda na faculdade de Direito – e a experiência jornalística. “É uma atividade que propicia o retorno dos leitores porque causa muita empatia e, por isso, é gratificante”, relaciona. Aposentado desde 2001, vem diminuindo o ritmo de trabalho, mas não abre mão do ambiente da redação. Avalia sua trajetória profissional como retilínea, sem altos e baixos, e orgulha-se dos resultados conquistados.
Uma família de andarilhos
Introvertido, Olyr refugia-se em casa, com a família, nos momentos de descanso. Casado há 37 anos com Maria Lucrécia, é pai de três filhos, Guilherme, 29 anos, Leonardo, 26, e Letícia, 20. “Torço pelo sucesso deles e vibro com os bons resultados que eles conquistam”, conta satisfeito. Sua convivência familiar só não é mais intensa porque os filhos “estão crescidos e já escolheram os seus caminhos”, como ele mesmo define.
Guilherme, que é psicólogo e esportista, está na selva amazônica do Peru, onde atua em uma clínica de recuperação para dependentes químicos. “Ele utiliza a prática de escaladas no processo de reabilitação dos dependentes”, explica o pai coruja. Leonardo, o filho do meio, está cursando uma especialização em cirurgia em São Paulo – seguindo os passos da mãe, que também é médica. Já a caçula retornou há pouco de um passeio por Buenos Aires e está dedicando sua energia aos estudos em Arquitetura. O gosto pelas viagens eles herdaram dos pais. Olyr e sua esposa saem do país pelo menos uma vez ao ano, em seu período de férias, e têm como roteiros preferidos a cidade de Nova York, onde já moraram, Buenos Aires e a Espanha, que conhecem muito bem.
No país europeu, em 2001, ele viveu o que considera uma das experiências mais emocionantes de sua vida. Percorreu sozinho o caminho de Santiago de Compostela ao longo de 33 dias e 760 quilômetros. O final do trajeto foi planejado para coincidir com a data de seu aniversário, quando ele completou 60 anos de idade. “Terminei a caminhada no dia e na hora exata em que nasci”, salienta. A aventura foi motivada pelo livro Carlos Magno e Seus Cavaleiros, que leu quando era adolescente. “Os personagens morriam em uma batalha na fronteira da França com a Espanha, no caminho de Santiago, em um vilarejo cuja descrição era muito bem feita. Prometi para mim mesmo que um dia conheceria este lugar”, confessa.
A próxima viagem do casal já tem roteiro e data definidos. Em visita ao filho Guilherme, na selva amazônica do Peru, no próximo mês de fevereiro, eles deverão conhecer Macchu Pichu. Enquanto o passeio não chega, o casal segue sua rotina, visitando as salas de cinema da capital pelo menos uma vez por semana e assistindo a muitos DVDs em casa. Os filmes preferidos de Olyr, como não poderia deixar de ser, são os de caráter histórico. Os filmes de faroeste também estão na lista, que deixa de fora as produções nacionais. Quando o assunto é literatura, outra grande paixão cultivada por ele, o autor Jorge Luis Borges, ganha destaque. “Ele é profundo e irônico, um autor completo. Eu gostaria de pensar e escrever como ele”, revela.

