Perfil

Afonso Motta: Participar sempre

O executivo do Grupo RBS faz questão de se envolver com os movimentos comunitários

Com apenas 17 anos, Afonso Antunes da Motta veio de Alegrete para Porto Alegre com um objetivo: se formar em Direito e voltar para a cidade natal. Em 1967, não poderia haver profissão com mais prestígio que a de advogado. “Gostava de discurso, verbalização. Só queria mesmo era retornar formado”, relembra Motta. Mal sabia que jamais voltaria a viver em Alegrete nem exerceria advocacia por lá. Não que ele não tenha tido todas as chances. Embora jovem, sozinho na Capital, vivendo em república e trabalhando como balconista de farmácia, Motta ingressou logo na faculdade de Direito da Ufrgs (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Dois anos depois, passou num concurso para o Conselho Regional de Contabilidade do Estado. Trabalhava num turno lá, na parte administrativa, como agente de fiscalização, noutro, estagiava no escritório de advocacia de seu tio e, à noite, estudava. Foi assim até concluir o curso, quando foi contratado pelo Banco Maisonnave para ser diretor-jurídico.

Ao longo do período em que atuou no banco, também ocupou o cargo de diretor de Recursos Humanos. “Trabalhava na minha área, de Direito, mas sempre fui menos advogado e mais gestor”, conta. Após 11 anos, uma empresa de consultoria o convidou para dirigir a área jurídica de um grande grupo da Capital. Foi nesse momento que percebeu que estava se distanciando de sua meta original e pensou em voltar para sua cidade, abrir um escritório de advocacia… Isso só até descobrir que o grupo em questão era a RBS. Era 1987 e Nelson Sirotsky estava começando a assumir a empresa, depois da recente morte de Maurício Sirotsky. Motta se animou com o desafio e acabou desenvolvendo uma relação de parceria com Nelson.

Vivendo a RBS

De diretor-jurídico, passou a ocupar outras funções coorporativas na RBS: no RH, na administração. Nos últimos três anos – de um total de 18 atuando no grupo –, Motta ocupa a vice-presidência de TV e Rural, cargo que se explica pela participação ativa que exerceu na concepção do Canal Rural. O projeto nasceu em 1994 e, em dois anos, iniciava suas operações. “Encontramos muitas barreiras para viabilizar economicamente um canal fechado e segmentado. Demorou para haver adesão do setor ao projeto, mas deslanchou quando virou um canal de comercialização, através dos leilões – responsáveis por 50% da receita. Hoje, ele é o principal canal do segmento rural brasileiro, uma referência para o agronegócio e o único projeto da RBS de alcance nacional”, orgulha-se.

Motta sempre desempenhou suas funções na empresa trabalhando em projetos específicos. Além do Canal Rural, ele destaca o Zaz, portal de internet que mais tarde se tornaria o Terra. A RBS detinha o controle acionário dessa que foi, segundo o executivo, a maior realização econômica do grupo. A idéia, pioneira, nasceu em 1995, duma parceria com jovens engenheiros. “Assim como eles, acreditamos que o provimento e conteúdo de internet seria um mercado promissor”, lembra. A RBS se desligou do Zaz, em 1999, e hoje conta com um portal próprio, o ClicRBS.

Investimento na cultura local

Hoje, a área de maior dimensão econômica da RBS é a de televisão, para onde foi levado com a chegada de Pedro Parente ao grupo. Motta responde pelas 18 emissoras da RBS TV no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, pela TVCom e pelo Canal Rural. Para dar conta, seu escritório é equipado com três televisores, cada um sintonizado num dos canais, de onde acompanha as programações. “Conjugamos a Rede Globo com programas locais e somos a única afiliada que ocupa todos os espaços disponíveis na programação. São espaços importantes, que garantem liderança absoluta em audiência nos dois estados”, diz, revelando que em diversas localidades o share da RBS fica em torno de 70%. Em Uruguaiana, chega a 84%. “É uma empresa agressiva no mercado, uma publicidade na RBS tem muito retorno”, completa.

Além da preocupação com o conteúdo e com o mercado publicitário, Motta faz questão que o foco tecnológico também tenha destaque na empresa. “Estamos preparando a RBS para entrar na era digital. Trabalhamos na digitalização do nosso acervo e vários processos já são digitais. Depois da Globo, é a emissora brasileira que possui os equipamentos mais modernos. Só não fazemos mais avanços nessa área, porque dependemos da definição do Sistema Brasileiro de TV Digital, que está bem atrasado no País”, lamenta.

Continuar a investir na produção local, valorizando sempre a cultura, os artistas e setores criativos gaúchos é o objetivo de Motta na RBS. Prova disso é o espaço que a emissora garantiu, junto à Globo, aos sábados para produções locais: “É uma conquista e um desafio, pois trata-se de um investimento alto”, pondera, adiantando quais são os próximos projetos que estão sendo desenvolvidos para a TV: dois especiais em homenagem aos centenários do escritor Erico Verissimo e do cantor Teixeirinha.

Participando da comunidade

Motta ainda encontra tempo para manter um forte envolvimento com a área social. É uma paixão que vem de berço. Seu pai, Cassiano Paim da Motta, era um cirurgião-dentista muito ligado à comunidade alegretense, foi vereador, vice-prefeito e prefeito da cidade. “Eu também tenho uma visão muito participativa. Tento usar meu trabalho para contribuir com a sociedade”, conta o executivo, que já foi vice-presidente do Sindicato dos Bancos, conselheiro da OAB (Organização dos Advogados do Brasil), do Sport Club Internacional e da Fundação Médica do Rio Grande do Sul (que ajudou a fundar).

Participa ainda da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho e sempre contribuiu com a ANJ (Associação Nacional de Jornais), da qual foi diretor do Núcleo de Gestão, e com a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV), na qual participou de diversas comissões e hoje preside a seccional gaúcha. Na Agert (Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e TV), ele explica que desempenha duas funções: uma institucional e a outra de prestação de serviços. A primeira engloba a valorização da radiodifusão e o combate à pirataria no Estado. “Nesse sentido, lançamos recentemente o Balanço Social, que aproxima a radiodifusão da comunidade”, lembra.

A segunda está relacionada com apoio jurídico, técnico e em outras áreas aos associados. A entidade organiza cerca de três encontros por ano, em diferentes regiões, para tratar desses assuntos e trocar experiências. “Levamos informações, mantemos um processo de comunicação. O site e o jornal da Agert também ajudam nessa questão”, explica.

Dias cheios

Para dar conta de tudo isso, o executivo começa a trabalhar às 7h e só pára por volta das 23h, quando está em Porto Alegre. É que ele viaja muito: pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina, visitando as emissoras da RBS, por todo o Brasil, cumprindo compromissos com o Canal Rural, e, seguidamente, para Rio de Janeiro e São Paulo, onde costumam ocorrer as reuniões da Rede Globo. Alegrete também tem sido um destino constante.

Motta é um apaixonado por cavalo e gado e adquiriu uma fazenda na região, para onde costuma ir nos finais de semana em que consegue uma folga. Ele também é muito requisitado para palestras, cujos assuntos são variados: Agronegócio, Gestão Contemporânea, RBS… Ele adora, pois alegra-se com o fato de poder dividir suas histórias. E ele sempre quer estar em todos os lugares! Os momentos de lazer se misturam, portanto, com o trabalho: gosta de freqüentar eventos de agronegócio, assistir a televisão. Tudo isso também faz parte da função de um vice-presidente de TV e Rural.

O executivo também gosta de ler, tanto ficção quanto livros sobre gestão, se esforça para ter tempo de jogar tênis, vôlei, ir à praia ou, pelo menos, ao clube com os amigos. “Valorizo muito as amizades e as relações pessoais. Acho que elas representam a parte mais importante de minha trajetória”, se emociona.

Serenidade

É casado há 14 anos com a defensora pública Adriana, com quem teve a pequena Ana Thereza, de nove anos. Antes, viveu por outros 14 anos com Regina, mãe de Letícia, 29 anos, Afonso, 27, Lucila, 24, e Guilherme, 17. Completam a família os dois bebês de sua primogênita, Frederico, de 2 anos, e Henrique, que ainda não completou o primeiro aniversário.

Motta revela que tem uma “relação madura” com a esposa, filhos e netos. “A gente se encontra pouco, mas o suficiente, com qualidade. Sinto falta de passar mais tempo com eles, sei que todos entendem que eu adoraria, só que não consigo. Encaro isso com serenidade”, diz.

E serenidade talvez seja a palavra certa para definir esse profissional, que se revela, simplesmente, uma pessoa feliz: “Sou um entusiasta da vida. Gosto de tudo que faço, por isso procuro dar tudo de mim, em todas as circunstâncias. Sempre trabalho com paixão, amo com paixão, trato meus amigos com toda a minha afetividade”.

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Autor

Leca

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