Perfil

Sérgio Reis: Pioneiro da telinha

Apaixonado pelo que faz, ele ainda se emociona quando lembra que participou dos grandes capítulos da história da televisão brasileira

Ele não é o cantor, mas também usou a voz para atingir o sucesso na profissão. Sérgio Reis tem 69 anos de idade e 60 de comunicação. Começou logo aos nove, em 1947, fazendo papéis mirins em rádio-novelas da Rádio Farroupilha. Foi peça-chave na implantação da televisão no Rio Grande do Sul e da TV a cores no Brasil. Irreverente, só deixa o jeito brincalhão de lado na hora de apresentar o Tribuna Independente, na Rede Vida, orgulhando-se da seriedade do programa. Nos outros momentos, está sempre disposto a fazer piada, principalmente nas aulas que ministra atualmente na Feplam.

Por intermédio de um amigo que trabalhava na Rádio Farroupilha, em Porto Alegre, Sérgio Reis fez seu primeiro teste, ainda criança, para trabalhar de rádio-ator nas novelas da emissora. Passou e cresceu junto com seus personagens, chegando a interpretar os galãs das tramas, além de atuar na locução e na redação de notícias. “Era difícil conseguir crianças do sexo masculino para fazer as novelas. Normalmente, quem fazia as vozes de meninos eram mulheres, o que deixava o personagem desmunhecado. Então, quando aparecia um menino de verdade para fazer os personagens, eles adoravam”, explica. “Eu nem lembro exatamente quais novelas eu fiz porque eram muitas. Tinha às 16h, às 17h, às 20h e às 21h. Era pior que a Globo”, recorda.

Alicerce da televisão gaúcha

Sua vida na Farroupilha encerrou-se em 1959, quando foi inaugurada a TV Piratini. Assis Chateubriand entendia que estava na hora de expandir a televisão no Brasil, até então só presente em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba. Porto Alegre foi um dos locais escolhidos para sediar uma emissora, assim como Recife e Salvador. Como não existiam profissionais habituados com o novo veículo, foram chamados 18 nomes da Rádio Farroupilha, entre eles o comunicador, para participar de um curso de televisão na TV Tupi, no Rio de Janeiro, e voltar para trabalhar em funções-chave na Piratini. “Nós vivíamos televisão. Íamos para a emissora às 6h para sair quase às 2h. Aprendemos de tudo em seis meses. Produção, área técnica, publicidade, parte operacional, e tudo mais. Foi pau puro”, relembra.

Na ida para o Rio, Reis foi avisado que seria switcher. Sem saber o que era, entrou em uma sala escura de corte, repleta de monitores, e acompanhou o trabalho do funcionário. “O sujeito trabalhava com sete câmeras, vários microfones e dando ordens aos berros. Concluí que ele deveria sair dali de maca, enlouquecido. Até me avisarem que seria aquilo que eu ia fazer. Deu vontade de pedir minha passagem de volta, pois pensei que não faria em seis anos o que aquele cara fazia em seis meses”, conta. Mas, no final, o curso funcionou perfeitamente, e Reis retornou para trabalhar no núcleo central de operações da Piratini. Ele lembra da emoção dos participantes do curso ao ver a emissora entrar em funcionamento, e que foi dele o privilégio de colocar a primeira imagem no ar, recordação que até hoje o leva às lágrimas. “Foi lá que eu me dei conta da importância daquela oportunidade na minha vida e me envolvi completamente. Todos se davam conta do que estavam fazendo e passamos a entender o que era a televisão”, emociona-se. Além de produtor e diretor, apresentava programas de debates e shows.

Em 1963, foi trabalhar na recém- inaugurada TV Gaúcha, passando a apresentar o programa ‘Sempre aos Domingos’. “Para escolher o nome, nos inspiramos em um filme chamado Nunca aos Domingos, famoso na época. Olha como éramos inteligentes e criativos”, brinca. Após um tempo, passou a atuar na área executiva, decisão que hoje vê com arrependimento. “Foi uma bobagem que eu fiz. Deveria ter ficado onde me dava prazer”, confessa. De 1970 a 1971 sua casa foi a TV Difusora, que deu origem à Rede Difusora de Comunicações, em um período em que já existia a Globo e a Gaúcha era forte. A direção da rede o mandou para os Estados Unidos para que ele se informasse como funcionavam as redes e as produtoras americanas. Entre Nova York, Washington e Miami, morou um ano e três meses no país.

Brasil Colorido

Em 1972, está o outro marco da história da televisão: a famosa primeira transmissão a cores da TV no Brasil. O que poucos sabem é que Reis foi um dos responsáveis por este feito. O então ministro das Comunicações, Higino Corsetti, decidiu trazer as cores para o Brasil. O governo militar de Médici reuniu a Abert (Associação Brasileira das Empresas de Rádio e Televisão), a Globo, a Bandeirantes e a Difusora, mas ninguém topou o projeto. Seria preciso investir muito em novos equipamentos, contratar profissionais e gastar até com coisas simples como roupas, maquiagem e tintas coloridas, que até então não se usavam. “Eu estava no exterior e os caras brigando aqui. Quando voltei, já estava tudo definido, até que o sistema utilizado seria o PAL-M, essa bobagem que fizeram e que não conserta nunca mais”, ironiza. Foi então que os diretores da Difusora resolveram bancar a introdução das cores no país. “As outras emissoras ficaram loucas da vida e o ministro nos chamava de heróis. A raiva deles foi tanta que a Globo chegou a fazer uma campanha ‘O melhor continua em preto e branco’”, relembra.

Sem estrutura, a emissora deu início ao projeto. O evento escolhido foi a Festa da Uva, já que o presidente da República e os ministros dos Transportes e das Comunicações eram gaúchos e o governador (Euclides Triches), caxiense. A equipe foi a Caxias do Sul, junto com os equipamentos, a bordo de um ônibus escolar. “E nós rezávamos para não chover, porque o ônibus tinha goteira e o equipamento estava montado dentro dele”, lembra. O sinal da imagem saía do veículo e subia, por cabos, até o topo de um prédio em construção, ao lado da catedral da cidade por onde passava o desfile e ficavam as autoridades. Dali, era mandado, por microondas, para o município de Morro Reuter, para ser rebatido ao Morro da Polícia, em Porto Alegre, depois para a Embratel, que colocava no ar para o Brasil inteiro. “Em Caxias, nós não tínhamos a mínima idéia de como estava a imagem, pois não havia retorno”, conta. A transmissão foi da Difusora, mas vários apresentadores de outras emissoras foram convidados para participar da cobertura.

Afastado das câmeras

Faltando 40 minutos para o início das transmissões, o presidente Médici, através de um militar, mandou avisar que queria um televisor para acompanhar a festa. “Eu nem tinha me flagrado que era óbvio que o presidente ia querer uma TV. Eu tive que me virar, pois naquele ponto de Caxias não tinha imagem chegando direto. Em plena ditadura, já me imaginei preso, tomando porrada, se não arranjasse o aparelho”, diz. A solução foi mandar abrir uma valeta no meio do asfalto, e, por meio dela, passar um cabo que terminaria em um dos monitores da equipe. O equipamento ficaria onde os militares assistiam ao desfile. “Em tempo recorde apareceram duas picaretas, uma de cada lado, que se encontraram no meio e abriram o trilho. Para que os carros alegóricos não esmagassem o fio, fizemos uma proteção precária e o presidente pôde desfrutar de uma imagem perfeita. Claro! Era um monitor, não tinha antena”, conta. Novamente, Reis emociona-se ao lembrar que participou de outro degrau na história da televisão brasileira.

Depois disso, foi diretor da TV Rio, até sua falência, em 1976. “Menosprezamos a concorrência, hiperdimensionamos nossa capacidade, não tínhamos idéia do tamanho da dívida que se formou e quebramos a cara”, reconhece. Retornou a Porto Alegre e fixou-se novamente na TV Gaúcha até 1979, antes de se transferir para a TV Guaíba, onde foi diretor de Programação, até 1983. “Na época, o Breno Caldas não queria se filiar a nenhuma rede. Então montei uma programação exclusivamente regional. Foi muito prazeroso, mas deu prejuízo. Eu avisei que isso ia acontecer e o Breno bancou. Então tudo bem”, afirma. Ao perceber que a Guaíba iria quebrar, não quis passar por um novo processo falimentar e se afastou.

Foi para o Rio de Janeiro e decidiu dar um tempo. Montou uma empresa de feiras e exposições e até 1986 se manteve no ramo de eventos. Em 1990, voltou para o Rio Grande do Sul e retornou ao rádio. Passou pela Pampa e pela Bandeirantes até receber um convite do então secretário de Comunicação Social do Estado, Dilamar Machado, para dirigir a programação da TVE, durante o governo de Alceu Collares, no início dos anos 90. Também passou a ancorar o programa 7 no Ar. Com o fim do governo, em 1994, saiu da emissora.

Dobrando os gringos

O elo entre Reis e a Rede Vida, o médico Sérgio Lucchese, guarda uma história curiosa. O primeiro contato entre eles foi quando Reis, na sua segunda passagem pela TV Gaúcha, em 1976, recebeu o recado do empresário Maurício Sirotsky avisando que o médico tinha um projeto ousado para tratar com o comunicador. Ele queria realizar um congresso entre cardiologistas latinos, no Clube Leopoldina Juvenil, e outro entre americanos, nos Estados Unidos. Os encontros aconteceriam simultaneamente e teriam imagens geradas entre os dois países.

“Me empolguei com a idéia e fui correr atrás de produtora que gerasse imagem de lá e outra que gerasse daqui, e ainda tinha que colocar a Embratel no meio. Era um circo danado. Voltei da reunião com o Lucchese e disse pro Sirotsky que seria tudo muito simples e barato. Lembre-se que estamos falando da década de 70, onde não existia satélite e as câmeras tinham de ser transportadas por três halterofilistas”, lembra divertido. Quando as negociações começaram, Reis e Lucchese viajaram várias vezes para os EUA para fechar o projeto. “Além de tudo, os gringos queriam saber o que nós tínhamos aqui para eles não quebrarem a cara lá. Chegou ao ponto de termos que responder um check-list, mostrar os equipamentos e ainda ligá-los”, salienta. No fim, tudo correu bem. O congresso televisionado aconteceu com debates, perguntas e imagens de ambos os lados. Surgiu uma amizade e, em 2000, Lucchese convidou Reis para dirigir um programa sobre saúde no início da Rede Vida.

De volta à ativa

Depois de dois anos com o médico, se entrosou com a diretoria da Rede e foi chamado para ancorar o Tribuna Independente, um programa de entrevistas, realizado cada dia em uma cidade. Participam São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Porto Alegre e São José do Rio Preto. A versão gaúcha, que vai ao ar às quintas-feiras, às 22h, fica sob a apresentação de Sérgio Reis, que, auxiliado por dois entrevistadores convidados, recebe personalidades, políticos e grandes empresários gaúchos para falar sobre o lado social de suas atividades.

“O interessante é que o programa vai ao ar nacionalmente. É uma grande oportunidade para os gaúchos falarem para o Brasil, pois a Rede Vida possui 500 retransmissoras em todo o país, pega na NET, na SKY e na DirecTV. Ela pode ser sintonizada em qualquer lugar do território nacional, exceto no meio da Amazônia, lógico”, brinca. “Nenhuma emissora do país disponibiliza oportunidade tão grande para os gaúchos em rede nacional e em horário nobríssimo. Eu me sinto muito satisfeito por ter sido escolhido para ancorar esse programa, que é sério e muito importante”, completa.

A aventura que virou livro

Atualmente, ele também dá aulas de radialismo, edição e locução na Feplam (Fundação Educacional e Cultural Padre Landell de Moura). O comunicador guarda uma experiência que registrou para sempre. A obra ‘O caminho de Santiago: uma peregrinação ao campo das estrelas’ é resultado da aventura que Reis realizou completando os 900 quilômetros da famosa caminhada de Santiago de Compostela, na Espanha. Foram 29 dias a pé, com mochila nas costas, partindo da fronteira com a França, caminhando de leste para oeste, até chegar em Santiago de Compostela, acima de Portugal. Este é um dos caminhos de peregrinação até a mística cidade, que ficou conhecida por terem sido encontrados lá os restos mortais do apóstulo Santiago. “É uma experiência única, um negócio fantástico. Uma oportunidade incrível de introspecção e de autoconvivência que te faz mudar mente, valores e visão de mundo. É algo que eu recomendo para quem tem mais de 50 anos”, define.

O trabalho significa tanto na vida do comunicador, que ele o vê como lazer. “Pode parecer piada, mas eu me divirto muito com o que eu faço. Sou capaz de manter uma transmissão por quatro, cinco ou seis horas. E ainda saio inteiro, com a adrenalina a mil. Se eu entro numa rádio ou em uma televisão, eu não quero saber que horas eu vou sair”, explica. Reis tem seis filhos, divididos em três casamentos, e se espanta quando os vê aflitos na escolha das carreiras. “Eu não escolhi meu trabalho, eu fui um privilegiado. Aos nove anos de idade, você não escolhe nada. Eu é que fui escolhido. Então me assusto quando os vejo começando e interrompendo faculdades e com dificuldades para definir o que vão ser”, declara.

Suas paixões são o trabalho e a mulher, com quem está casado há 25 anos e tem os dois filhos mais jovens. “Por incrível que pareça, sou apaixonado pela minha própria mulher, o que é cada vez mais raro”, diverte-se. Além disso, é fascinado pelos cursos que dá. “Dar aulas é fascinante. O conhecimento é a coisa mais maravilhosa que você tem para vender, pois você passa, mas não perde, continua com ele”, orgulha-se.

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Autor

Redação Coletiva

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