Perfil

Marco Bezerra: Rotina de mudanças

Após 12 anos longe do Estado, Marco Bezerra voltou para ser VP de Criação da DM9Sul

Por Márcia Farias – 22/02/2013

No período escolar, ele era convidado para integrar todas as chapas de Grêmio Estudantil do colégio, e o motivo era o mesmo: ser responsável pelas campanhas, criando cartazes e brindes, por exemplo – e as chapas que ele defendia sempre ganhavam. Foi assim que começou o interesse de Marco Bezerra, 34 anos, pela propaganda, embora a decisão de cursar Publicidade tenha se dado a contragosto da mãe, Neida Maria Schmingel Bezerra, formada em Turismo, que preferia vê-lo como diplomata ou médico. A outra opção era seguir os passos do pai, o coronel da Força Aérea Marco Aurélio Antunes Bezerra – mas o próprio militar não levou a ideia adiante, pois tinha certeza que o filho não possuía talento para tal ofício.

Formado na turma de 1995, da Famecos, já no segundo semestre de faculdade estava estagiando na Escala. Três anos depois da colação de grau, foi para a Inglaterra, cursar Design em Londres, e a partir daí é que considera ter começado, de fato, a carreira. No retorno ao Rio Grande do Sul, recebeu um convite de Régis Montagna para trabalhar na Paim como assistente de Arte dele e de Rodrigo Pinto. Nos últimos 12 anos também esteve no Exterior. Retornou a sua cidade natal há menos de um ano, para atuar como vice-presidente de Criação da DM9Sul, após mais de seis meses de insistência de Marcio Callage, presidente da agência.

Idas e vindas

Como filho de militar, Marco sempre esteve acostumado com mudanças, algo que permaneceu na trajetória profissional. São Paulo foi o primeiro destino, diretamente para a Lew’Lara. “Quando cheguei na agência, ela era a 15ª maior do Brasil. Enquanto estive lá, chegou a ser a segunda em faturamento. Foi um período muito bom”, recorda, citando que trabalhou para contas como TIM, Natura, Nokia e Banco Real. Cansado da rotina da propaganda brasileira, foi atrás de agências mundiais, especialmente as que fizessem trabalhos na área digital. Achou. Berlim, na Alemanha, foi o local escolhido para começar a se aventurar pelo mundo, mais especificamente na agência TBWA.

Dessa época, Marco lembra da ascensão profissional, como ele conta: “Lá, entrei para o time de criativos da TBWA mundial, que participava dos jobs internacionais. Por conta disso, viajei quase o mundo todo”. Também é desse período que o publicitário recorda com orgulho de uma criação sua. Fez um projeto que considera ter sido um salto na carreira. Trata-se do Impossible Goalkeeper, uma ação para a Adidas, que colocou um enorme painel com o goleiro Petr Czech em uma roda-gigante na Áustria, durante a EuroCopa. “A ideia faturou todos os prêmios que existem em propaganda, além de ter entrado para o portfólio da Adidas e da TBWA mundiais. Depois disso, muita gente começou a conhecer meu trabalho”, diz, orgulhoso.

Já fazia tudo que gostava, mas não era suficiente. Quando percebeu a força da onda digital, entendeu que precisava começar a entregar uma tendência digital muito boa, senão, não iria para frente. Resolveu procurar empresas com esse perfil e lá foi Marco colocar o pé na estrada de novo. Dessa vez, foi parar na Suécia, para trabalhar na Crispin Porter, considerada uma das agências mais criativas do mundo (pertencente ao Grupo Boguski). Não demorou para retomar a vontade de mudar, quando foi procurado pela Tribal DDB, de Amsterdam, onde sempre teve o sonho de morar. Conseguiu, mas não pelo tempo que achava que ficaria.

Estava apenas havia um semestre ali quando passou a ser assediado por Marcio Callage: “Ele insistiu, tentando me convencer a voltar para Porto Alegre, mas eu estava confuso. Aos poucos, ele foi me dobrando. Esperei fecharmos condições boas para os dois lados e aceitei”, detalha, garantindo que a readaptação é fácil: “Tive muitas mudanças por causa do meu pai. Aprendi com isso que, por onde passo, deixo um pouco de mim e levo um pouco de lá”. Hoje, diz não se sentir em casa em lugar nenhum, ao mesmo tempo em que acredita conseguir morar em qualquer lugar.

Na linha de frente

Tanta mudança só podia resultar em uma certeza: não fazer projetos em longo prazo, pois tem espírito aventureiro. “Gosto de me meter em umas roubadas. Eu não digo que voltei, apenas que estou aqui”, diz, sorrindo. Por outro lado, brinca ao afirmar que havia alguns anos que não decorava seu telefone celular, o que já conseguiu fazer. E reflete: “Acho que isso é um sinal, pois tenho pensado mais em me fixar por aqui”.

Apesar de toda essa certeza, Marco reconhece que vir para Porto Alegre lhe rendeu o maior desafio da carreira, pois é responsável por um departamento grande. A nova função não lhe possibilita fazer apenas o que o talento natural lhe permite, que é criar. Agora, tem que exercitar outros talentos, que talvez nunca tenha desenvolvido. “Preciso ser líder, me posicionar como executivo, saber o que posso falar, cuidar da imagem da agência. Também nunca tive uma equipe tão grande, são cerca de 40 colaboradores, dos quais preciso tirar o máximo de aspectos positivos.” Sem falar no tempo de dedicação que o cargo exige, já que são cerca de 60 a 70 horas por semana.

Como gestor, Marco diz que tenta ser um cara legal. Como filho de militar, crê que deveria ser muito mais conservador, mas admite: “No fundo, sou milico pra caramba, disciplinado, durão. Acho que é necessário respeitar hierarquia”. No contraponto, tenta elogiar mais quem está ao seu redor, pois acredita que haja muita cobrança na profissão. “Meu primeiro chefe na Escala me disse que eu era o pior estagiário do mundo. Essa foi a pior crítica que já ouvi, pois nunca mais a esqueci. Hoje, dou risada disso, mas me marcou, pois eu era apenas um menino e ouvir isso foi uma merda”, lembra.

O pé na estrada e o retorno para a capital gaúcha lhe deram uma enorme bagagem, é verdade, mas não suficiente. Ele quer mais, muito mais. Não se acha bem-sucedido, por exemplo, pois pensa que há pessoas melhores no mercado, o que serve de balizador para permanecer em busca de alguns objetivos, como conquistar mais prêmios internacionais e mais contas nacionais. Para isso, se espelha em nomes do mercado publicitário e os separa por regiões: no Sul, admira os primeiros a apostarem no seu talento, tendo com Rodrigo Pinto e Régis Montagna uma espécie de dívida de gratidão; em São Paulo, gosta de nomes como Manir Fadel e Dedé Laurentino; já no meio internacional, aponta Banksy, Sheaper, Bogusky, e “toda essa turma que faz arte de rua e de guerrilha”.

Dupla de amores

Realizado mais na vida pessoal do que profissional, a felicidade é descrita dessa forma: “Tenho uma mulher que amo. Estou com ela desde os meus 19 anos e temos um filho lindo, uma família maravilhosa”. Refere-se à esposa Lisiane, publicitária, e ao pequeno Alexandre, de três anos. Os poucos momentos de folga são aproveitados ao lado da dupla, com quem diz fazer questão de gastar bastante tempo. “Minha mulher é uma fortaleza; topar me acompanhar nas minhas loucuras de viagens não é para qualquer uma”, derrete-se.

Então, é claro que Marco gosta de ficar ao lado deles nos finais de semana. Fazer churrasco, algo que sentiam muita falta quando estavam no exterior, está entre as preferências de lazer, nas quais ainda constam ir a parques, visitar os pais e os sogros, brincar de lego e jogar bola. “São atividades que o Xande pode fazer junto”, explica. E por falar no filho, a maior vontade do momento é aumentar a família. O publicitário deseja muito que Lisiane engravide ainda neste ano – ela, aliás, compartilha do mesmo desejo, mas quer parar por aí, pois, se dependesse de Marco, seriam três herdeiros.

Bobagem de bairrismo

Colorado desde criança e com uma esposa torcedora do mesmo time, continuou acompanhando as movimentações do Inter mesmo de longe. Apesar disso, garante que algumas coisas se perderam com esse tempo fora, como a rivalidade com o Grêmio. “Acho que isso faz parte de um processo cosmopolita. Somos muito caranguejos no Sul”, critica. O comentário é seguido de mais uma constatação, quando se refere ao amor extremo que os gaúchos têm pelo seu Estado: ele se sente no direito de achar o bairrismo tradicional uma tremenda bobagem. “Isso não significa que eu não goste daqui, apenas não acho o pôr do sol do Guaíba o mais lindo mundo”, pondera. A opinião também tem a ver com sua posição política, o liberalismo, pois acredita na necessidade de não haver fronteiras.

O ritmo acelerado requer um ponto de equilíbrio, e o de Marco está na religião que segue há cerca de sete anos, o budismo. O interessante neste aspecto é que Lisiane é católica fervorosa, mas, garante, a serenidade e o respeito são premissas da família. “Convivemos muito bem com isso. Eu gosto da diversidade em tudo. O Xande é educado nas duas religiões para, quando crescer, decidir o que quer seguir.” Quando o assunto é livro, o publicitário explica que, ultimamente, é dominado pelos técnicos, voltados à profissão. Para ouvir, a característica eclética sobressai e ele explica que gosta de música eletrônica, blues, rock dos anos 1970, samba. Para ir ao cinema, vai aos extremos. Primeiro afirma que prefere temas mais leves, em seguida, confessa que “gosta de umas explosões”, mas, ao citar títulos, mostra atração por trilogia e ficção, como ‘O Poderoso Chefão’, ‘Senhor dos Anéis’ e ‘Matrix’.

Planos para o futuro? Nem pensar. Tem apenas um desejo a longo prazo (bem longo, na verdade): quer ser um velho legal, “o avô mais massa de todos, que tenha histórias para contar”. Para se definir, aliás, ele se resume como “um cara legal com uma família legal”. E conclui: “Apesar de ter minhas convicções, acho que posso mudar tudo. Sou muito aberto. Não tenho nada como definitivo”.

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Autor

Márcia Christofoli

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