Perfil

Pedro Macedo: Sensibilidade para o Jornalismo

Espontaneidade é a marca desse jornalista, que, apaixonado por esporte, descobriu a profissão graças à confiança do irmão.

Pedro Fernando Garcia de Macedo é o mais novo de cinco filhos e nasceu em Pelotas – a 29 de junho de 1948 –, porque a profissão do pai (era ferroviário) o obrigava a viajar bastante. Como um típico caçula, queria estudar na mesma escola dos irmãos, porém o colégio de padres só oferecia estudo a partir da quarta série. Pedro estava na segunda, fez um teste e foi autorizado a pular a terceira. “Esse pulo me custou caro, porque rodei uma vez no secundário, outra no ginásio e mais uma na faculdade”, brinca.

Não foi a repetição de uma cadeira que atrasou a conclusão de sua formação acadêmica. Apaixonado por esportes, Pedro cursava Educação Física e faltavam poucos meses para se formar quando o irmão mais velho, o jornalista Paulo Macedo, resolveu indicá-lo para sua vaga de repórter esportivo na sucursal de O Estado de S. Paulo. O irmão estava deixando o jornal e não conhecia ninguém mais indicado para escrever sobre futebol. “Eu gostava de ler, mas não tinha a prática da escrita, ainda assim ele acreditou em mim e resolvi ser jornalista”, conta. “Meu contrato começaria em fevereiro de 71, mas pediram para eu chegar em 10 de janeiro para conhecer a rotina”, lembra. Nesses primeiros dias, o editor Mário Lima viu seu texto e acreditou naquele jovem talento, adiantando a validade do contrato em 15 dias.

A participação de Paulo, portanto, foi definitiva na carreira de Pedro, que ele diz ter começado “absolutamente por acaso”. Pedro é agradecido ao irmão e reverencia seu trabalho: “Eu vou reencarnar um milhão de vezes e nunca vou escrever com a mesma qualidade dos textos de Paulo Macedo”, declara. O jornalista afirma também que aceitou o desafio porque é fascinado com a Comunicação Social, que classifica como “um instrumento de aprimoramento da sociedade”. Durante os seis anos em que atuou na sucursal do jornal paulista, Pedro tentou entrar para a faculdade de Jornalismo quatro vezes, até que na última, depois de ter ficado como suplente na PUC, finalmente foi admitido. Concluiu o curso em 1978, quando trabalhava na extinta Folha da Manhã.

Medo de ser “furado”

Em seguida, foi para a Zero Hora, sempre cobrindo Esportes. Ele relembra que foi setorista tanto do Grêmio quanto do Internacional, mas que, embora colorado, acompanhou mais o time tricolor. Foi assim que descobriu uma informação exclusiva, que seria destaque da contracapa no dia seguinte. O Grêmio estava vendendo o jogador André Catimba, numa grande negociação, e o repórter soube disso graças a sua boa relação com os funcionários do Olímpico. “Não é que eu goste da competição, é claro que dar um furo proporciona um certo prazer, mas o que eu não gosto mesmo é de levar um furo!”, admite. Nesse período, conheceu Emanuel Mattos, a quem considera “um professor de Jornalismo”, e também atuou por um ano como repórter da RBS TV.

Em 1985, foi convidado para participar da implantação do Diário Catarinense, em Florianópolis, como coordenador de produção. “Era puxado, uma função para duas pessoas, me consumia muito, mas também me dava muito prazer e foi uma grande escola”, diz. Ele viajou muito pelo interior de Santa Catarina fazendo contato com os correspondentes: “Como era um jornal novo, tinha que ser meio didático com a equipe, mas tinha um repórter que já era ótimo e não me dava trabalho”, fala, referindo-se a David Coimbra. Pedro retornou ao Estado após receber a “proposta irrecusável” para ser assessor de Comunicação da Fiergs. “Nunca tinha feito nada assim, tive medo, claro, mas não deixei de ir. Deixei a função em 89, após três anos, depois de um desentendimento com o presidente da entidade. Mas não foi tão grave, porque algum tempo depois ele me chamou para trabalhar lá de novo”, avalia.

Antes do retorno à Fiergs, Pedro passou pelo SBT e teve sua primeira das cinco passagens pela Fundação Piratini, como diretor-administrativo da TVE. Em 1995, passou pela CRT, onde voltou a se desentender com um chefe: “Mas eu tinha razão”, avisa. Pedro não gostou quando o então presidente da companhia se arrependeu de uma entrevista dada para a TV e conseguiu, graças a alguns contatos na emissora, impedi-la de ir ao ar. “Quem toma uma atitude dessas não precisa de assessor de imprensa”, pondera. Assim, assumiu a assessoria de Comunicação do Palácio Piratini, onde teve sua primeira experiência com rádio, veículo pelo qual é apaixonado, ancorando um programa de entrevistas com o governador Antônio Britto. “O rádio nunca vai perder sua importância, mesmo que surjam novas tecnologias, porque é a única mídia que se pode consumir fazendo outras atividades. O rádio está sempre ligado”, empolga-se.

Todo tipo de emoções

Após uma rapidíssima passagem como assessor na Secretaria-Geral de Governo, Pedro foi convidado para dirigir a FM Cultura. “Perdi dinheiro, com certeza, mas vim correndo. Fiz um projeto para a emissora, mudamos a programação, implantando mais MPB. A prova de que o projeto deu certo foi que o Governo Britto acabou, veio o PT e eles não mexeram no formato, que segue até hoje”, orgulha-se. Em 1999, foi para a Rádio Gaúcha, emissora que lhe proporcionou histórias emocionantes. Ele lembra-se especialmente de uma mãe que pedia ajuda para encontrar o cachorrinho perdido da filha. Pouco tempo depois, ocorreram dois acidentes fatais de ônibus que abalaram o jornalista. Nesse dia, a própria menina ligou agradecendo que o cachorro havia voltado. “Tive que me controlar para não desandar. Naquele momento, o clima era tão pesado que a voz da criança me emocionou muito. E me emociona até hoje. Naquele momento percebi a essência da Comunicação Social, que é a prestação de serviços e que nesse caso deu resultados”, conta. Pedro também é só elogios para a equipe da rádio: “É uma equipe pequena e que trabalha muito. Lá aprendi o hard news e fiz boas amizades”.

Saiu da Gaúcha para assumir a superintendência de Comunicação da Assembléia Legislativa. “Foi uma experiência interessante, já estava acostumado a ter patrão, mas dessa vez foram mais de 50, todos os deputados”, conta. A pressão do trabalho, aliada ao estresse e ao cigarro lhe causaram um infarto cardíaco. “Eu fumava muito, era um burro”, lamenta. O incidente serviu pelo menos para reunir os amigos. “Minha mulher contava que a sala de espera do Hospital Mãe de Deus parecia mais uma fila de estádio para um Gre-Nal decisivo”, brinca.

Bico-doce

Recuperado, em 2001, trabalhou alguns meses como editor de Esportes de O Sul. Lá, lembra de ter “furado” a Zero Hora com uma reportagem sobre um atleta paraolímpico, um corredor cadeirante que era, inclusive, funcionário de ZH. “O Sul era um jornal interessante, um dos poucos em que o dono exerce o poder dentro da Redação. O (Otávio) Gadret lia tudo, mas não era autoritário, exercia seu poder com um sorriso e o jornal saía exatamente como ele queria”, conta.

Atuou no gabinete do deputado estadual Berfran Rosado e, mais tarde, na campanha de Germano Rigotto ao Governo do Estado, como repórter de TV. “Tinha que fazer tudo, desde a produção. Era difícil, mas sempre tive sorte e consegui os depoimentos que precisava”, diz. “Nessa época, recebi o melhor elogio da minha carreira. O cinegrafista da campanha viu um céu lindo, sobre um campo com um homem e uma vaquinha, e disse “nós temos que filmar isso, convence o cara a dar uma declaração”. Conversei com ele, que topou. Ficou uma cena linda. Foi aí que o câmera me disse: “Já tomei tiro, facada, pedrada, mas nada disso me põe tanto medo quanto um bico-doce como tu””, diverte-se.

Disponível no mercado

Com a eleição de Rigotto, em 2003, Pedro recebeu o convite para retornar à TVE e aceitou, mas quando vagou a direção da FM Cultura, pediu para voltar à rádio, onde permaneceu até 2004, quando Flávio Dutra o chamou para ser chefe da assessoria de Imprensa do Palácio Piratini. Deixou o cargo junto com Flávio e se dedicou à elaboração de um livro que marcava os seis anos da gestão de Renan Proença frente à Fiergs. No ano passado, estava de volta à TVE, como diretor-geral. Pedro gosta de frisar que, durante o Governo Rigotto, nunca houve uma interferência do Governo na TV estatal. “A TV é do Estado, mas muitas vezes ela é usada como de Governo”, lamenta. O futuro profissional é incerto, devido à recente troca de governador. “Quero até aproveitar este espaço e dizer que estou no mercado!”, brinca.

O jornalista tem dois filhos, Bruno, de 19 anos, estudante de Administração, e Vinícius, 21, de Biologia, frutos de seu casamento com Quismara, a Xis, de quem é separado há pouco mais de um ano. Apesar de viverem na mesma cidade, ele se emociona ao falar da saudade dos filhos, que moram com a mãe, na Zona Sul, enquanto ele reside próximo ao centro da cidade. “Quando vivíamos juntos, eu ganhava beijo de boa noite dos dois. Acho que é raro um pai ganhar tanto beijo de filhos marmanjos”, avalia. Ele não nega a corujice: “Eu e minha mulher fizemos uma grande contribuição para a humanidade fazendo esses guris”, diz.

Espantando a tristeza

Ligado ao esporte, Pedro preserva o hábito da caminhada. Toda manhã, vai à Redenção e, nos fins de semana, aproveita o parque para tomar sol e chimarrão. “Saio para espantar a tristeza”, sentencia. Ele diz que gostaria de ler mais, mas a rotina de trabalho não permite. Então aproveita para ver muitos filmes no cinema e em DVD. O jornalista ainda gostaria de voltar a escrever sobre esportes, assunto que ele acredita entender mais hoje, quando tem um distanciamento crítico. “Mas reportagem não paga muito bem, tenho dois filhos na PUC e não posso me dar ao luxo de fazer só o que eu gosto”, diz com a espontaneidade que o caracteriza: “Sou muito espontâneo e burro demais para ser de outro jeito”.

Pedro já pensa na aposentadoria e diz que tem uma “tremenda vocação para o ócio”, mas como o dinheiro da pensão também é pouco, joga sempre na loteria. Ele sonha ainda em pegar uma moto ou um motorhome e viajar por aí sem destino: “Se tiver condições eu faço. Acho que não podemos perder de vista nossas utopias e nossos desejos, só temos que ter sabedoria para apreciarmos o que temos agora”, acredita.

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Autor

Leca

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