Por Patrícia Castro
É com simpatia e um amplo sorriso no rosto que Christiano Nygaard se expressa – e desde logo se transparece o quanto é apaixonado pela vida e pela profissão. A cada lembrança, o diretor de Operações da rede de jornais do Grupo RBS se transporta no tempo, e fala com tal entusiasmo que parece estar revivendo cada um dos momentos que narra.
É com esta empolgação que o filho mais velho do comerciante Rolf Nygaard e da dona de casa Ilse Nygaard recorda as férias passadas na praia e o período escolar no Colégio Anchieta, vividos na infância. “Férias normalmente são as boas lembranças de infância, e eu recordo do tempo em que a praia de Ipanema era balneável e eu e minha família veraneávamos na mesma casa em que moro hoje”, conta. Assim como as idas para Torres também eram uma grande aventura, Christiano relembra que se dividia, na época, entre duas turmas de amigos, o pessoal do Moinhos de Vento, onde morava, e de Ipanema. “Eu tinha quase que duas vidas, divididas entre pessoas de classes sociais diferentes, mas era muito bom.”
A infância e a adolescência, no entanto, não foram recheadas apenas por brincadeiras e veraneios. Muitos dos finais de semana também foram preenchidos trabalhando ao lado do pai no Armazém Riograndense, localizado na Rua Otávio Rocha e que marcou época no comércio de comestíveis e de bebidas importadas em Porto Alegre. Christiano tinha algo em torno de 14 anos e já atuava como balconista, tirando notas, operando o caixa e entregando mercadorias na casa dos clientes.
Como sempre foi um apaixonado por carros, acabou optando por cursar Engenharia Mecânica na Ufrgs, onde se formou em 1974. “A minha afinidade com mecânica já vinha de muito tempo. Eu gostava muito de oficina de automóveis, e inclusive quando meu pai deixava o carro para arrumar eu combinava com o mecânico de passar um dia acompanhando o trabalho dele. Claro que a Engenharia é muito mais que isto, mas creio que já veio daí o meu interesse”, explica. Outro momento do qual Christiano tem boas recordações é do ingresso no CPOR, o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de Porto Alegre. “Este período de vida militar serviu como uma escola muito boa para a minha complementação profissional”, acredita.
Trabalho com veículos
Com o objetivo de unir o que aprendia na teoria no curso de Engenharia com a prática que o trabalho oferecia, Christiano fez alguns estágios. Um deles foi na Albarus Indústria e Comércio de Auto Peças, em 1969, marcante porque foi seu primeiro contato com a Engenharia Mecânica. Dois anos depois, quando acabou o estágio, foi trabalhar no Estaleiro Só. Começou como estagiário e depois foi efetivado, e ali ficou quatro anos. Em 1975, fruto de uma relação que construiu com o rally, Christiano recebeu um convite para trabalhar como gerente industrial na Companhia Jornalística Caldas Júnior, na época editora dos jornais Correio do Povo, Folha da Tarde e Folha da Manhã. “Foi na Caldas Júnior que comecei na área de mídia impressa. Trabalhei na oficina mecânica, controlando motoristas, depois na parte de distribuição de jornais, e por fim eu tinha a responsabilidade pela área de circulação como um todo. E lá se foram oito anos”, conta.
Algum tempo depois assumiu a área de assistência técnica da concessionária Gaúcha Car, consolidando um ciclo de “trabalhar com veículos: navio, jornal e depois carro”, brinca. Retornou para a Caldas Júnior, fazendo parte da equipe que fez o relançamento do jornal Correio do Povo. Após um ano, foi convidado por Marcos Dvoskin para integrar o Grupo RBS; de lá para cá, já se vão 24 anos. Na época, eram apenas dois jornais, a Zero Hora e o Diário Catarinense.
Ao longo dos anos, teve a oportunidade de fazer projetos novos e participar de novos empreendimentos, como o ‘Diário Gaúcho’, o ‘Diário de Santa Maria’ e a ‘A Hora’, esta em Florianópolis, além de algumas aquisições, como as dos jornais ‘Pioneiro’, ‘Jornal de Santa Catarina’ e ‘A Notícia’. Hoje, o envolvimento do diretor é ainda maior, pois agora já são oito jornais e uma equipe muito mais ampla. “Devido à dimensão que a RBS alcançou, atualmente me envolvo muito mais e acho estimulante que no nosso negócio as coisas se renovem todos os dias. Posso dizer que me sinto muito feliz neste negócio, que é fazer jornal”. Faz questão de destacar que na RBS as oportunidades se renovam constantemente, e assegura que as perspectivas para os próximos anos “são ótimas”.
O desafio popular
Um dos grandes desafios de sua carreira veio com o lançamento do Diário Gaúcho. O objetivo era lançar um jornal popular, que ocupasse um espaço existente no mercado editorial gaúcho. “Evidente que isto nos trouxe uma série de questionamentos. Tínhamos um pouco de receio que esta segunda marca pudesse contaminar a principal, ou de um jornal fazer concorrência com outro. Olhamos esta possibilidade, mas decidimos tocar nosso projeto e marcamos uma data para o lançamento”. Christiano lembra que foi desenvolvida toda uma cronologia promocional, inclusive envolvendo os leitores para escolherem o nome do jornal através de uma votação popular, “mas a nossa grande dúvida era sobre qual seria a tiragem”, revela.
O Grupo RBS tinha um plano de negócios que sinalizava uma tiragem entre 60 mil e 65 mil exemplares, mas, na medida em que foram fazendo projeções com as bancas de revistas, este número quase dobrou. Nos dias seguintes a demanda continuava, até o jornal encontrar seu patamar de circulação, surpreendentes 220 mil exemplares.
A popularidade do jornal trouxe outras boas surpresas, como na ação ‘Junte e Ganhe’, que na época dava direito a um conjunto de panelas. Foi reservado um conjunto de 30 mil unidades, mas a demanda foi três vezes maior. Christiano mais uma vez foi desafiado: “Nos aliamos ao fornecedor para contratar mais gente, para ter mais turnos e acabamos até nos envolvendo no processo de produção, pois precisávamos produzir 110 mil panelas. Esta foi uma experiência espetacular e inusitada, pois o mercado foi muito maior do que tudo aquilo que tínhamos planejado”. Isto comprova como, ele recorda sorrindo como sempre, o lançamento do Diário Gaúcho foi cheio de emoções e experiências positivas.
Rally e velejadas
Uma parte que considera importante na sua vida é a da prática de esportes. O envolvimento com rallys começou em 1967 quando formou, junto com outros participantes, o Clube Porto Alegre de Rallye (CPR). Até uns cinco anos atrás, participava ativamente das provas do campeonato gaúcho e brasileiro, com algumas experiências também no exterior. “Durante este longo período, eu me dividi entre o trabalho, a minha família e o rally”, recorda, dizendo que às vezes 24 horas era pouco para o seu dia.
O profissional explica que resolveu parar com as competições há cinco anos, um pouco em função da idade – no dia 30 de março completa 63 anos – mas também pela falta de tempo. “O rally começou a me exigir mais atenção e passou a competir com o meu trabalho, então decidi acompanhar só de longe”.
Considera a corrida como uma combinação de gosto e saúde, e diz que guarda um espaço reservado na agenda para ir à academia e para correr cerca de 30 quilômetros por semana. Quando está em Porto Alegre, gosta de correr em Ipanema, mas isto não significa que o tênis não vá dentro da mala quando viaja.
Atualmente, os momentos de folga são divididos também entre as velejadas no Rio Guaíba e as viagens para o Litoral ou para a Serra na companhia da namorada, a pedagoga Ângela Jung. Considera o Guaíba “uma dádiva”, e nele aproveita muito para velejar. Faz questão da companhia dos filhos que tem do primeiro casamento, com a advogada e jornalista Maria Lúcia, e, sempre que pode, tenta estar com a prole: a economista Paula, 32; a médica Cristiana, 30; a jornalista Rafaela, 28; e o advogado Rodolfo, 26. “A Cristiana e o Rodolfo moram em Porto Alegre, então acabamos nos vendo com mais frequência”, explica.
A vida ensina
O gosto por filmes existe, mas ele confessa que tem ido cada vez menos ao cinema. “Toda vez que vou ao cinema me arrependo de não ir com mais frequência”, revela, explicando em seguida que entre suas preferências estão filmes que apresentem paisagens e histórias bonitas, de pessoas alegres e felizes, nada de filme de terror. Na literatura, o diretor se considera um leitor normal. Claro que, devido à atividade, acaba consumindo vários jornais todos os dias, mas adianta que costuma ler também muitos livros técnicos. “Nas férias é que diversifico mais”, explica.
Christiano Nygaard sente-se bastante realizado com a família e na relação que mantém com amigos e com a vida profissional, e diz que nos próximos 10 anos quer continuar trabalhando e formando pessoas. “Desejo trabalhar bastante com os diversos projetos desafiadores que temos na empresa e preparando as pessoas”. Confidencia, ao final, que alimenta um desejo cuja realização, infelizmente, independe dele: que os filhos lhe deem netos. Aguarda pacientemente, fiel ao pensamento de que aprendeu com a vida a gostar de tudo o que faz – e não só fazer aquilo de que gosta.

