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Camila Lustosa: Tudo misturado

Dividida entre a vida pessoal e profissional, Camila Lustosa mostra-se inquieta em tudo o que faz

Por Márcia Farias

Após um forte abraço e um largo sorriso, ela se preocupa em oferecer água, café e ver o melhor lugar para a entrevista. Um pouco antes, conversa com seus colaboradores da Santo de Casa Endomarketing, certifica-se de alguns horários e reuniões do dia seguinte e aí sim sente-se à vontade para iniciar a conversa. Logo nos primeiros minutos, Camila Lustosa, 36 anos, esclarece que suas vidas profissional e pessoal se misturam muito, mas que tentará separar as atividades para poder contar a trajetória que traçou até aqui. Em um primeiro momento, não fica tão evidente o motivo desta “confusão de vidas”, mas é só ela explicar que seus sócios são o marido, Daniel Costa, e o irmão Parahim Lustosa que os fatos começam a ter ligação – a começar pelo nome escolhido para a empresa.

A diretora-executiva da Santo de Casa tem um ritmo frenético em tudo o que faz e isso fica evidenciado nas gesticulações e na empolgação em resgatar as etapas da carreira, toda construída dentro da Comunicação Empresarial, após formar-se em Jornalismo, na Ufrgs. “Não por escolha, mas porque a primeira experiência (ainda como estágio) com a área foi tão boa, que, desde então, tive certeza que essa era minha vocação”, esclarece Camila, que permaneceu na empresa por sete anos, inclusive tornando-se sócia. A paixão pela área foi tão grande que, hoje, com 12 anos de mercado, não se imagina em nenhuma outra profissão.

O ritmo é tão acelerado que ela confessa estar falando da vida e, ao mesmo tempo, angustiada em pensar quantos emails devem ter na sua caixa de entrada, quantas reuniões tem para o dia seguinte e tudo que precisa providenciar para elas. A rotina intensa de cerca de 14 horas de trabalho é encarada como o maior desafio profissional até hoje. “Eu sei que preciso aprender a equilibrar a empresa e a família, mas o ritmo frenético me faz sempre pensar no próximo nível”, conta, revelando que todo mundo já se acostumou com a correria dela: “As pessoas percebem isso até no meu jeito de falar”, reconhece. Mesmo acreditando que ainda tem muito para fazer, especialmente transformar a sua empresa na melhor agência de Endomarketing do País, garante se sentir realizada.

A alma do negócio

Essa proximidade da vida pessoal e profissional levou os sócios a contratarem uma consultoria empresarial, especializada em organizações familiares. Algo que Camila considera fundamental para diversas mudanças que foram implementadas. Inclusive seu cargo. Hoje, ela atua como diretora-geral da agência: “Quando me sugeriram assumir esta função, tomei um choque, mas acabamos percebendo que podia dar certo mesmo”. Enquanto Daniel tem dom para relações comerciais, conforme diz, a parte operacional e de estratégia da empresa fica com ela. “Uma vez ouvi que eu era a alma da Santo de Casa e isso é um reconhecimento muito grande do que venho fazendo.”

Para Camila, o desafio diário é viver dentro da agência aquilo é vendido aos clientes, pois é necessário incorporar tudo o que a equipe se propõe a fazer para os outros. Com a certeza de que os colaboradores se sentem muito à vontade na empresa, ela diz que cada um que está ao lado dela é especial. Tudo que diz respeito à mente humana ganha a atenção da jornalista, pois gosta de tentar entender como as pessoas pensam e como vão receber as mensagens passadas.

A referência profissional tem dois nomes. O primeiro é Steve Jobs, e ela logo se preocupa em dizer que não é porque está na moda falar no gênio, pois estuda a vida, a empresa dele e o que ele pensa há muito tempo. “Pela inquietude, pela postura de entender trabalho como uma missão, uma causa”, explica. O outro nome é Vera Lúcia Vinter, a mãe. “A maior empreendedora que já conheci. Uma professora de Português e Literatura, que criou três filhos praticamente sozinha e deu a eles valores, educação e patrimônio”, orgulha-se.

Estava escrito

O relacionamento com Daniel começou de uma forma inusitada. Atuando na mesma área, mas em empresas diferentes, a dupla se conheceu durante uma reunião com um cliente que era atendido em conjunto. Com o tempo, a antipatia do primeiro encontro deu lugar a uma amizade virtual, que começou com frases objetivas e terminou com textos e mais textos diários. Uma festa de aniversário de Daniel fez a relação passar de online para presencial e o status de amigos para namorados. O envolvimento cresceu tanto que Camila optou por abrir mão da sociedade na empresa que atuava, já que eram concorrentes, e viver essa história de forma mais livre.

Começou a trabalhar de forma autônoma, inclusive prestando serviços para a empresa do marido. A experiência deu tão certo que não demorou para surgir a ideia de abrirem uma empresa em conjunto. “Reuni algumas pessoas na sala da minha casa e ali nasceu a Santo de Casa (que completou cinco anos). Éramos os quatro mosqueteiros: eu no Jornalismo, o Daniel no Comercial, o Parahim na Criação e nossa outra sócia no Atendimento”, recorda, para em seguida refletir o quanto a empresa cresceu – hoje, conta com 45 colaboradores.

“A minha profissão se mistura muito com a minha vida”, diz Camila, para explicar o desafio diário de ‘não levar a casa para o trabalho e o trabalho para casa’. A relação de marido e mulher, segundo conta, é construída o tempo todo. “Foi um encontro. Costumo dizer que estava escrito, pois começamos de uma forma pouco usual, mas tivemos uma filha, construímos uma empresa, estamos juntos há sete anos e projetamos sonhos. Então, parece que deu certo.” Os votos de casamento foram oficializados após cinco anos de relacionamento e, apaixonada, a jornalista diz que eles se completam. “Sei que fiz a diferença na vida dele, assim como ele fez na minha.”

Um susto, uma felicidade

O relacionamento com Daniel deu a Camila outro sentido à vida, e esse sentido tem nome: Maria Laura, seis anos, carinhosamente chamada de Malála. “Costumo dizer que tenho duas filhas, a Maria Laura e a Santo de Casa, e me dedico intensamente às duas”, diz. A gravidez surgiu ainda na fase de namoro e ela confessa que foi um grande susto – que ao mesmo tempo trouxe a maior felicidade: “Não temos dúvidas que foi a melhor coisa que aconteceu. Ela tem o melhor e o pior de cada um de nós. É o sentido de tudo isso”, se derrete. Além da alegria, define a maternidade como a oportunidade de entender perfeitamente o que é ser responsável e o que é amor de verdade.

Os raros momentos de folga são curtidos a três. Vão ao cinema e gostam de ler juntos. A leitura, aliás, é um vício do casal. “Para quem tem pouco tempo sozinhos, é um superprograma poder curtir nosso silêncio juntos. Temos uma vida comum e adoro isso.” Outra preferência da família é por viagens e o plano para o futuro é audacioso: uma volta ao mundo. “Vai ser um período em que a Malála interrompe o ciclo escolar para viver as matérias aprendidas. Vamos viver a História, a Geografia”, explica. A viagem, porém, é um desejo para a próxima década, pois exige um delicado planejamento para ter recursos e deixar a empresa bem estruturada, já que o passeio pode durar de oito meses a um ano.

Superstição também

Nascida em Novo Hamburgo, Camila veio para Porto Alegre aos 21 anos para dedicar-se aos estudos. Irmã mais velha do publicitário Parahim e da tradutora e intérprete Mariana, lembra de brincar muito com os dois. “Sempre fomos muito unidos, até pela pouca diferença de idade (um ano para o primeiro e três para a segunda). Meus pais se separaram quando eu era muito nova e, para sustentar os filhos, minha mãe trabalhava nos três turnos, então me lembro de inventar muitas brincadeiras com eles.”

Outra lembrança agradável que a jornalista traz da família é a gastronomia. Dizendo-se ter gostos muito simples, o prato preferido de Camila é feito pela mãe: galinhada com salada de batata. Este é capaz de superar até mesmo o salmão com molho de mostarda que Daniel prepara e ela adora. A cozinha, aliás, é território restrito ao marido. “Não entro lá”, enfatiza.

A superstição é algo muito presente na vida da jornalista, e a primeira que ela se lembrou é não viajar nem tomar decisões em qualquer dia 23. “Criei uma relação com esse número que ainda não sei explicar. Cheguei a ver o filme ‘Número 23’ para ver se tinha alguma relação, mas não vi nenhuma. Várias coisas ruins aconteceram neste dia, então passou a ser uma data a ser respeitada.” Além disso, ela anda sempre com a imagem de uma santa dada pela mãe, uma Nossa Senhora das Graças. “Não pelo objeto, mas pela fé que deposito nela.” Também é devota de São Jorge, que foi o santo escolhido para zelar pelo setor de Jornalismo – cada área da empresa e cada cliente têm um santo destinado.

Se tem algo que ganha a atenção de Camila são assuntos relacionados a pessoas. Tudo que ela puder fazer para entender a mente humana, com certeza fará. Filmes, por exemplo, prefere o gênero drama, por retratarem situações cotidianas. O mesmo acontece na Literatura, pois os livros preferidos são as biografias. Determinação é uma característica que pode definir Camila, mas existem outras que talvez expliquem sua personalidade: “Sou uma pessoa inquieta e inconformada, mas muito realizada e apaixonada pelo que faço”.

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Autor

Márcia Christofoli

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