Por Vanessa Bueno
Totalmente ambientado com a cultura gaúcha, o paulistano Fabio Tucilho, presidente do Grupo Record RS, recebe os visitantes com um chimarrão nas mãos e desde logo vai se desculpando e explicando que o formato da cuia que usa é, na realidade, uruguaio. “Eu já disse para o pessoal que eu quero uma cuia gaúcha”, comenta, para demonstrar que já se arrisca a preparar chimarrão e o tradicional churrasco gaúcho. “Não uso grelha”, faz questão de ressaltar.
Aos 35 anos, Fábio assumiu o desafio mais importante de seus 14 anos de carreira no Grupo Record. O convite para se mudar para o Rio Grande do Sul chegou no dia de seu aniversário, 8 de outubro. Disposto a se transferir de vez para a Capital gaúcha, aceitou a proposta, chegando de ‘mala e cuia’, como se diz por aqui, uma semana depois.
Veio com a missão inicial de dirigir a emissora de televisão. Em dois meses, porém, recebeu a notícia de que assumiria a direção-geral do grupo, em substituição a Natal Furucho. Como experiência na bagagem traz a vivência em São Paulo, onde participara da criação e abertura da Record News e do portal R7. Agora, não esconde que sua obsessão passa pelo objetivo principal da Record na regional Sul: atingir a liderança de mercado. Para tanto, “queremos aproximar cada vez mais a marca Record do povo gaúcho”.
Valores familiares
Evangélico desde os 18 anos, Fabio deixa claro que não é nem nunca foi bispo ou pastor da Igreja Universal. Sobre religião, garante que a escolha dos profissionais do grupo é independente de qualquer tipo de credo e crença. “O que a pessoa faz do portão pra fora da empresa é problema dela. Esse tipo de distinção nunca existiu na Record”, volta a salientar.
Na empresa que, segundo Fábio, é o local das oportunidades, o executivo começou como encarregado administrativo, passando por vários setores. Como sempre foi apaixonado por TV, fez o curso de editor de VT no Senac. Trabalhou um pouco na área, chegou até a montar uma ilha de edição em casa. Mas, gostava mesmo era de pensar a Administração e o Marketing da empresa, então decidiu investir neste ramo. Cursou Administração de Empresas na Universidade Anhembi Morumbi.
Como um reforço ao entendimento de que a Record é “o local das oportunidades”, revela que teve seus estudos pagos pela empresa. “Graças a Deus, eu tive boas pessoas no meu caminho, que me deram boas oportunidades”, diz, visivelmente emocionado. E reflete: “Tem muitos diamantes brutos por aí que só precisam ser lapidados”. Nesta linha, destaca como um dos seus principais valores a gratidão, assim como a convivência em família. “Os valores familiares para o cristão são muito claros e isso está relacionado à criação e à educação que se recebe dos pais”, acredita.
Paixão por TV
Casado há 14 anos com Rosemeire, acredita que casar é muito bom. “Recomendo para qualquer pessoa.” Afirma que a esposa é uma supercompanheira e que gosta de fazer tudo o que pode ao lado dela. “Gostamos de ir ao shopping, à praia, assistir DVD, essas coisas.” Em Porto Alegre, o casal já se tornou fã da churrascaria Barranco, onde o lombinho com queijo desponta na preferência culinária.
Workaholic confesso, assume que adora chegar em casa e ficar acompanhando o desempenho dos profissionais do grupo pela TV. Com uma rotina que inclui começar às 8h30 na emissora e não ter hora para sair, conta que sempre foi apaixonado por assistir TV. Isso inclui entre seus hobbies a paixão por filmes, entre eles Homens de honra, Perfume de mulher e, para citar um mais recente, Avatar. Outra das suas preferências quando não está trabalhando é curtir a vida em família, o que inclui jogar videogame e futebol com o filho Gabriel, de 12 anos. “Minha relação com meu filho é de amizade”, diz, comentando que os dois conversam sobre tudo. “Quero que ele tenha boas recordações da infância, assim como eu tive.”
De sua infância, Fabio guarda a lembrança de uma relação muito forte com a mãe, até hoje sua referência de força de vontade e determinação. Filho do metalúrgico Ronaldo e da gerente financeira Iara Angela, ele e o irmão Alessandro gostavam das festas juninas realizadas na rua onde moravam. “Tinha um senhor que organizava a festa em frente à casa dele, com direito a fogueira, quentão e arroz doce. Era maravilhoso.”
O executivo cresceu no bairro Jardim Aeroporto, na cidade de São Paulo, lugar em que se viu obrigado a aprender a conviver com o barulho dos aviões e a admirar os táxis vermelhos, que carregavam executivos no caminho do aeroporto. “Tinha o sonho de um dia andar naqueles táxis. Hoje isso é rotina pra mim”, diz, feliz com o que conquistou até aqui. “Isso é resultado de muita luta”, complementa. Em sua opinião, quem planta boas sementes vai sempre colher coisas boas. É exatamente isso que tenta passar para seu filho. Ele diz que se o Gabriel afirmar que quer ser jogador de futebol do Milan, vai incentivá-lo a ir à luta, ressaltando que sempre acreditou nos seus sonhos.
O diferencial das pessoas de sucesso, na opinião de Tucilho, está em fazer o que se gosta, porque “o caminho é duro”. Assim, segundo ele, sempre que der vontade de desistir, o que conduzirá para a frente é a vontade de vencer. É com essa determinação que procura tocar a presidência da Record no Estado. Na vida pessoal, a meta mais imediata é comprar um imóvel e fixar residência em Porto Alegre. “Aceitei vir para cá com a perspectiva de ficar para sempre e estou adorando a cidade”, esclarece. Contente com a atual residência, que tem vista para o Guaíba, diz que já escolheu o Internacional como time gaúcho para torcer. O motivo? A semelhança, segundo ele, com o Corinthians, seu clube do coração: “É o time do povo, né?”. Outro ponto que destaca é a receptividade dos gaúchos. Em São Paulo, não sabia o nome dos vizinhos. Quando chegou na nova residência, a vizinha bateu em sua porta para desejar boas-vindas.
Por trás das câmeras
Assumidamente de bastidores, Fabio diz que não há a possibilidade de atuar em Jornalismo.“Não tenho pretensão de fazer um programa de TV. E ter uma coluna em meu nome tendo de pedir para alguém escrever por mim também não é meu feitio”, esclarece. “Para produzir algo, só se for para somar.”
Se na frente das câmeras sua participação não é confirmada, por trás delas acontece diariamente e a todo momento. Se um jornalista faz um comentário na TV que está em desacordo com o que pensa, chama a atenção na hora. Para o executivo, a ascensão da Record está no fato de o relacionamento não ser burocrático na empresa. “Aqui todo mundo arregaça as mangas e trabalha. Se eu precisar editar um programa eu vou editar, se tiver que carregar caixa, também.”
Humildade e justiça são as premissas que pretende imprimir a sua gestão na Record. Com o foco no trabalho em equipe, entende que o segredo é se cercar de boas pessoas. “Eu confio no meu time”, faz questão de afirmar. Elogios, porém, não fazem parte de sua rotina: “Não temos o perfil de ficar elogiando aqui na Record. A crítica construtiva é muito mais saudável”, comenta, sem deixar de explicar, porém, que o reconhecimento ao bom desempenho ocorre “de forma moderada”.

