Por Márcia Farias
Convicção é uma característica que pode definir Anna Sílvia Lopes Fonseca, 43 anos. Sem dificuldades de falar de si mesma, olha nos olhos do interlocutor e é precisa nas informações que passa. Gerente de Marketing do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio Grande do Sul (CREA-RS), onde atua há quase 15 anos tem em sua rotina telefones tocando, equipe solicitando atenção, arquivos sendo impressos e, eventualmente, alguma brincadeira. Com grande facilidade para executar diversas atividades ao mesmo tempo, Anna Fonseca – como é conhecida – fala da paixão por viajar, pela leitura e, claro, pelo trabalho.
Jornalista há 22 anos, tem orgulho de não ter atuado em outra área desde a formatura. Apesar de ter pensado em cursar Medicina – considera a profissão “muito bonita” –, tem certeza de que a escolha pela Comunicação foi acertada. A opção, aliás, é atribuída à facilidade de relacionamento e à paixão pelos livros, algo aflorado ainda na infância. Paranaense de Foz do Iguaçu, foi morar em Blumenau, Santa Catarina, ainda bebê. Aos nove, chegou à capital gaúcha e encontrou na leitura a melhor forma de entretenimento. “Durante um ano, atingi uma marca que nunca mais consegui: lia um livro por dia”, recorda.
Filha do bancário João Fonseca e da dona de casa Sirlei Maria, Anna é a quarta de cinco filhos. Casada há seis anos com o administrador Dimitrius Politis, ela é mãe de Ranger, 15 – o garoto tem o sonho de trabalhar com arte e música. Sobre o filho, ela é enfática: “Ele é uma Anna melhorada”. E completa: “Encontrar o Ranger foi só uma questão de tempo”. A frase faz referência ao fato de ter adotado o pequeno aos três anos, em uma instituição de caridade.
Entre viagens e livros
A leitura faz parte da vida até hoje. Ela recorda de Agatha Christie para explicar as próprias características, como a curiosidade e a visão detalhista. Anna diz ter herdado dos livros da autora, em que o detetive Hércule Poirot exibe extraordinárias habilidades intelectuais, o comportamento minucioso. Outro aspecto que resultou do hábito da leitura é o bom português. “Posso não saber nenhuma regra, mas sei que se escreve assim”, explica. Hoje, ler dois livros ao mesmo tempo é uma prática natural. O último título de cabeceira foi uma série de reportagens da revista Milenium. “Leio de tudo. Gosto de histórias reais, mas prefiro quando elas se misturam com a fantasia.”
Outro prazer na vida de Anna é viajar. Nem precisa ser para grandes metrópoles. Qualquer lugar diferente, independentemente da distância, pode atrair a atenção da jornalista. “É o que há de mais enriquecedor para qualquer pessoa.” Conhecendo praticamente todo o Brasil e mais oito países, ela elege Londres como um dos locais preferidos, pela diversidade cultural e pela “liberdade que as pessoas têm de ser o que quiserem na capital inglesa”.
Nem só de badalação, no entando, é feito o prazer da jornalista. Uma viagem feita há um ano é contada com muito carinho: visitou o deserto do Atacama, no Chile. A sensação de estar em um lugar em que nada se mexe nem faz barulho é descrita como estranha, a ponto de sentir que a própria presença atrapalhava o cenário. “O momento era de ouvir o som do silêncio, e isto foi extremamente motivador”, recorda.
Personalidade forte
A execuitva se considera uma pessoa simples e diz ser muito fácil agradá-la. Também afirma que é adaptável a qualquer situação e que não sabe ser do tipo de pessoa que usa apenas um perfume ou uma cor de roupa. “Cada dia incorporo um personagem diferente”, brinca. Enquanto fala de si mesma, pensa e interrompe a conversa para interagir com os colegas: “Pessoal, eu tenho alguma mania?”. Recebe sorrisos como respostas, e revela ter fama de chata no trabalho. “Sou exigente e acredito que cada um é responsável pela atividade que exerce. A cada problema, as pessoas devem entregar a melhor solução”, afirma, para em seguida contar que tem postura séria no ambiente profissional e que sabe o quão centralizadora é.
Justiça é outra característica de Anna, que esclarece não querer ser legal com ninguém, apenas ser justa sempre, independentemente se a decisão é boa ou ruim. Por outro lado, a jornalista também fala do “pavio curto” e da intolerância, mas garante que estes defeitos são sempre acompanhados do poder de autocontrole.
Experiências e aprendizados
Comunicação sempre foi o “chão” de Anna, que atuou em telejornalismo, assessoria de imprensa, comerciais publicitários e marketing. O maior reconhecimento entre estas experiência veio em 2007, quando foi convidada para trabalhar no Crea Federal, em Brasília. “É uma cidade muito interessante profissionalmente”, conta, referindo-se ao fato de ter adotado Porto Alegre como verdadeiro lar. “Aprecio muito a cultura gaúcha e cultivo os hábitos daqui: tomo chimarrão, adoro churrasco, gosto de música nativa e de ir para a Redenção aos domingos.”
Foi também a partir desta experiência que ela acredita ter recebido o elogio mais significativo da carreira. Na despedida de colegas, viu amigos desejando boa sorte, lamentando a saída e chorando pela falta que sua figura faria. Não querendo ser piegas, explica: “Os sentimentos destas pessoas expressadas para mim me deram a certeza de que marquei de alguma forma”.
Trabalhar não é um fardo, mas um prazer. Esta é a explicação que Anna dá para o fato de estar sempre disponível para a profissão, seja após o horário ou até mesmo em fim de semana. Mesmo que isso a importune de vez em quando, ou gere problemas familiares, ela garante que esta forma de vida foi uma escolha. É feliz assim.
Na bagagem profissional, carrega passagens por produtoras independentes, pelo Grupo RBS – onde produziu os programas Galpão Crioulo e Jornal do Almoço – e pela assessoria de imprensa do então deputado estadual Mendes Ribeiro Filho. Das experiências, ressalta a TV como veículo que mais gosta. Trabalhar com planejamento de Comunicação, como faz hoje, também a faz feliz, mesmo sem se considerar realizada, pois entende que há muito ainda por conhecer.
A conquista da disciplina
Diabética desde os 22 anos, depois de sofrer um acidente de carro, Anna aprendeu a ter disciplina. Até hoje precisa fazer uso de insulina. Enfrentou um período de seis meses de recuperação e o prognóstico de ter poucas chances de voltar a andar. Com isso, considera que passou a dar mais valor à vida – afinal, quase perdeu a sua. “Quando lembro do episódio, penso que eu ‘só’ fiquei diabética.” Outro momento de grande aprendizado foi quando usava lentes de contato e, por uso ininterrupto do acessório, ao retirá-lo, lesionou os olhos. O ferimento foi grave e resultou em cegueira provisória. “Passei três dias com os olhos vendados e sem saber se conseguiria enxergar novamente”, conta.
Depois destas experiências, prefere não planejar, pois entende que não tem grandes ambições e dá valor ao que acontece no presente. “Claro que daqui a 10 anos quero estar trabalhando menos e viajando mais, por exemplo, mas o principal é me sentir bem comigo mesma”, resume. Sobre o valor que dá para a vida, registra: “Se todos praticassem a troca do respeito e da gentileza, o mundo seria melhor. Aliás, o mundo sempre vai ser justo com quem é justo com ele”.
Como lema de vida, ela tem a frase "Faça para os outros aquilo que queres que façam para ti". Sobre a trajetória profissional, resume com outra: “Tudo aquilo que merece ser feito, merece ser bem feito”.

