Quando ouço reclamações dos editores dos veículos de comunicação sobre a falta de profissionalismo de alguns assessores de imprensa, que não atendem o celular, enviam matérias em horários inoportunos, não retornam solicitação de informações ou pedido de entrevistas, e outras dificuldades do gênero, sou forçado a concordar. É que isso, numa época de abundância de ferramentas de comunicação, é realmente inadmissível. Só pode ser despreparo ou má vontade.
E aí me recordo de como era difícil, havia três décadas, provar eficiência e vocação para a função. Época em que não existia computador, Internet e celular com gravador de áudio e imagem. Para ter uma ideia das dificuldades para produzir e enviar um texto, relembro como era feita na década de 80 a cobertura de uma viagem, no meu caso, como assessor de imprensa da Secretaria Estadual dos Transportes.
Ao acompanhar o secretário, por exemplo numa inauguração de estrada no interior do estado, que normalmente acontecia no meio da manhã ou da tarde, tinha que obrigatoriamente exercer a seguinte rotina para poder elaborar o release: Buscar dados sobre a obra e ouvir a manifestação das autoridades presentes e das pessoas que seriam beneficiadas pela rodovia. Feito isso, saía em busca de um local onde me oportunizassem acesso à uma máquina de escrever.
Enquanto isso, o fotógrafo tinha que sair em busca de um laboratório fotográfico para realizar a revelação das fotos. É importante frisar que o comércio nas cidades do interior fechava (acho que ainda é assim) ao meio dia e reabria às 14 horas. E mais, que o tempo mínimo para a revelação era de uma hora. Realizada a tarefa, o fotógrafo entregava as fotos para o assessor de imprensa que selecionava as que melhor se adaptavam ao texto produzido.
Texto pronto e fotos escolhidas (tinha que ser mais de uma pois seriam encaminhadas individualmente para os veículos e, por isso mesmo, não poderiam ser repetidas) o passo seguinte era o envio do material para Porto Alegre. Como não havia fax nem Internet, tinha que ser via rodoviária, preferencialmente em ônibus.
E ai era necessário se deslocar até a rodoviária do município, checar os horários dos ônibus para Porto Alegre, escolher um, esperar e pedir para o motorista entregar os envelopes com o material (devidamente identificados por veículos de imprensa) para o outro assessor de imprensa que ficava aguardando na rodoviária da capital. Cabia a ele fazer a entrega dos envelopes nas redações, quase sempre à toque de caixa, pois precisava obedecer o deadline estabelecido.
Quando essa logística não podia ser utilizada, a solução era partir para o avanço tecnológico da época. O telefone convencional. Quando havia. Nesse caso, redigida a matéria, o texto era lido ao assessor que se encontrava em Porto Alegre que, através de um da conexão ( fio elétrico com grampos nas duas extremidades) do bocal do telefone com o gravador (conhecido como “Jacaré), transcrevia a gravação para uma lauda, xerocava (sim já existia xerox), envelopava, passava na rodoviária para pegar as fotos (quando era possível enviá-las à tempo), e distribuía pelas redações.
E querem saber de uma coisa? Na maioria das vezes dava certo. E assessor e editores dos veículos se davam muito bem, obrigado. E quem não tinha aptidão para executar essa epopeiatinha vida profissional curta. Era uma época em que intelectualidade, preparo e dedicação eram parceiros indispensáveis. Sem que isso significasse sacrifício ou sofrimento.
Pelo contrário, era um estresse funcional que ao fim de cada missão se tornava uma alegria pelo trabalho realizado. Que só se completava integralmente no dia seguinte, quando todo o esforço era reproduzido nas páginas dos jornais. Ou as vezes no mesmo dia, no caso dos veículos eletrônicos. E nesses casos, não raras vezes no rádio do automóvel que conduzia a equipe de volta à Porto Alegre, para satisfação do secretário ou diretor, comodamente sentado no banco da frente. Nessas ocasiões a equipe nada dizia. Apenas se olhava e esboçava um rápido sorriso disfarçado de satisfação pelo dever cumprido. O jornalista se sobrepôs ao assessor.
Sergio Araujo
Jornalista

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