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Democracia na prática

Por Gilberto Jasper, para Coletiva.net

A cada ano aumenta o risco de vida para jornalistas nos mais diversos países. Engana-se, porém, quem imagina que somente em regiões conflagradas a morte flerta com os profissionais que lidam com a verdade que desagrada os poderosos.

No Brasil, nossa atividade impõe inúmeros riscos que não se restringem às ameaças físicas. O radicalismo que caracteriza as relações – não apenas políticas – criou um ambiente belicoso que causa alto nível de estresse.

Produzir uma coluna sobre gastronomia pode despertar a ira de leitores/ouvintes/telespectadores/internautas. Eles simplesmente rotularam o autor do conteúdo. Não interessa o que escrevem porque já estão carimbados de fascista, reacionário, conivente, golpista, “vermelho” e tantos outros adjetivos que perseguem os profissionais como um míssil teleguiado por vibrações ou calor.

Com mais de 40 anos de jornalismo, fico impressionado com o número de colegas que se despiram da isenção para assumir ferrenhamente um lado. Fazer opções implica consequências, mas será que é preciso tanta raiva, inclusive contra companheiros de atividade?

Fazer uma opção não implica disseminar o ódio através de todas ferramentas e canais. O que mais impressiona é que este comportamento tem sido adotado por amigos que labutaram por décadas em redações, convivendo com exemplos lamentáveis de postura tendenciosa que nada tem a ver com jornalismo.

Constatar o radicalismo entre “leigos” em questões de comunicação é até normal, apesar de lamentável. O diploma de jornalista, infelizmente, foi arquivado, mas o exercício da profissão traz um compromisso tácito de lidar com a verdade. Aprendi desde cedo que não existe verdade, apenas versões. Então, vamos aprender a opinar e ouvir, argumentar e transigir.

Nós, jornalistas, adoramos cobrar equilíbrio, coerência e postura democrática em todos os segmentos. O melhor seria substituir a teoria pela prática construtiva, madura e sintonizada com a coerência. Ódio e preconceito – tão criticados nos outros – estão muito mais presentes entre os autodenominados “democratas” do que se imagina.

Gilberto Jasper é jornalista.

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