Colunas

In Forma (27/05/2026)

O JORNALISMO E OS JORNALISTAS

Não existe uma classe de profissionais que se promova tanto como a dos jornalistas.

Será para tanto?

Millôr Fernandes, um mestre da ironia, disse que jornalismos é o oposição e o resto é “armazém de secos e molhados”.

Particularmente aqui no Sul só existem grandes bodegões, onde como disse uma vez Mino Carta, os empregados chamam patrão de colega. Aqui se faz pior. No velho Correio, Breno Caldas, que só entendia mesmo de cavalos, era chamado obrigatoriamente de Dr. Breno pelos seus “colegas”, os jornalistas. Na Zero Hora, Maurício Sobrinho, um velho animador de programas de auditório era sempre “seu” Maurício, tratamento reservado depois ao seu irmão, o “seu” Jaime.

Jornalistas de verdade foram Karl Marx, na Gazeta da Renânia e Vladimir Lenin  no Iskra (faísca) defendendo a revolução socialista; foi Emile Zola que escreveu J’accuse ( Eu acuso) no jornal LÁurore, quando do caso Dreyfus. Jornalistas foram Ernest Hemingway e George Orwell escrevendo sobre a Revolução Espanhola.

No Brasil, os exemplos são poucos: Luiz Gama e José do Patrocínio defendendo a abolição da escravatura contra os poderosos da época; Euclides da Cunha, talvez o mais importante de todos, em os Sertões, livro que começou como reportagem de jornal quando foi a Canudos como correspondente do Estado de São Paulo e talvez Samuel Wainer com sua célebre entrevista com Getúlio Vargas em fevereiro de 1949 na Granja do Itu: “Eu voltarei. Mas não como líder de partidos, e sim como líder de massas”.

Carlos Drummond de Andrade, com seu livro de poemas A Rosa do Povo, fala mais de um mundo de verdade (A Cidade Prevista) do que os jornalistas de sua época.

Quando do golpe militar de 1964, que estabeleceu a censura nos meios de comunicação, poucas vozes foram ouvidas contestando o regime. Uma delas foi de Carlos Heitor Cony no Correio da Manhã com sua coluna O Ato e o Fato, que depois virou livro.

Nos jornais da família Mesquita, a resposta à censura era criativa, mas inócua: no Estadão, os textos censurados eram substituídos por versos dos Lusíadas, de Camões e no Jornal da Tarde por receitas de bolos. Aqui no Sul, foi pior ainda. O jornal Zero Hora, que nasceu das cinzas da Última Hora, fechada pelos militares, em seu primeiro número saudou o golpe de estado de 64, chamado de “Revolução que evitou que o comunismo tomasse conta do Brasil.”

De lá para cá pouco mudou no nosso jornalismo. Os Estados Unidos invadem a Venezuela e ameaçam invadir Cuba e os nossos jornais e jornalistas registram os fatos sem maiores críticas ao imperialismo norte-americano.

Pior é a cobertura jornalística do genocídio na Palestina e no ataque ao Irã. Como Israel é usada nos dois casos como instrumento do imperialismo norte-americano e os dois  principais jornais locais – o Correio do Povo e Zero Hora – não escondem seu apoio à Israel por razões de afinidade ideológica – caso do Correio, ligado à igreja do bispo Edir Macedo ou por vínculos ao sionismo, caso da Zero Hora da familia Sirotsky.

Enquanto isso patrões e empregados convivem festivamente na Associação Rio Grandense de Imprensa, reafirmando na prática o que disse uma vez o Barão de Itararé, de que no Brasil “não existe liberdade de imprensa, mas de empresa”.

Autor

Marino Boeira

Formado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), foi jornalista nos veículos Última Hora, Revista Manchete, Jornal do Comércio e TV Piratini. Como publicitário, atuou nas agências Standard, Marca, Módulo, MPM e Símbolo. Acumula ainda experiência como professor universitário na área de Comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e na Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos). É autor dos livros ‘Raul’, ‘Crime na Madrugada’, ‘De Quatro’, ‘Tudo que Você NÃO Deve Fazer para Ganhar Dinheiro na Propaganda’, ‘Tudo Começou em 1964’, ‘Brizola e Eu’ e ‘Aconteceu em…’, que traz crônicas de viagens, publicadas originalmente em Coletiva.net. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.