
A disputa eleitoral já começou no Brasil. E, para acompanhar e divulgar o processo, os jornalistas precisam saber da sua responsabilidade e, assim, buscar informações constantemente e não se deixar mover por paixões políticas. Essas são algumas das dicas compartilhadas por Renato Martins, da RDC TV, Rosane de Oliveira, do Grupo RBS, e Taline Opptiz, do Correio do Povo. Em entrevista ao Coletiva.net, os profissionais, que possuem 20 ou mais anos de cobertura eleitoral, também destacaram o que eles consideram o diferencial desta eleição. Entre outros aspectos, os três concordaram na forte polarização.
O texto de hoje, 1º, é o segundo de um conteúdo especial promovido pelo portal. Na matéria de ontem, os comunicadores compartilharam suas experiências e que eleições eles consideraram marcantes.
Diferencial deste ano
Quando questionados sobre o que diferencia as eleições de 2022, os três citam a forte polarização como um dos itens. Para o apresentador da RDC TV, ela se torna um desafio para o profissional da imprensa que busca tratar a informação com seriedade e atenção, como conduzir debates sérios, entrevistas elucidadoras e fazer reportagens eficientes que mostrem realmente para o eleitor quais as propostas de cada candidato. “As rumorosas brigas nas redes sociais chamam muito atenção e encobrem a cobertura séria e competente. Mas não devemos desistir de cumprir o nosso papel.”
Neste mesmo sentido, a colunista do Grupo RBS chega a temer pelo o que pode acontecer devido ao acirramento dos ânimos. “Costumo dizer que esta talvez seja a pior eleição do resto das nossas vidas, pelo risco de violência, pelo ódio nas redes sociais, pela dificuldade que as pessoas têm de aceitar o ponto de vista do outro.” Para ela, a eleição tinha se tornado rotina, como os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo de Futebol, em todos os anos pares, sem grandes incidentes. No entanto, em 2018, o clima piorou e, “desta vez, só torço para que o processo se complete de forma pacífica e o resultado seja aceito por quem perder”.
Ainda sobre esse fator, a profissional do Grupo Record lembra que é a primeira vez em muito tempo que esta divisão não acontece entre o PT e o PSDB. “E mais do que isso, acho que a gente vai ver nessa eleição mais do que o voto a favor A ou B, também o voto anti a A ou B.O antibolsonarismo e o antipetismo.” Taline ainda destacou outros aspectos como: a primeira eleição geral em que não há possibilidade de coligação proporcional e o período de duração.
Com 46 dias, considerando o primeiro turno, são as eleições mais curtas da história desde 1990. “Então isso também muda bastante o contexto dos candidatos, tanto majoritários, mas talvez, especialmente, dos proporcionais, que são em um número bem maior, em que as novas caras têm uma maior dificuldade ainda para conseguir ser conhecido e chegar até o eleitor.”
Dica aos iniciantes
Para quem está começando na área, os profissionais dão dicas. Renato considera que fazer uma cobertura desse tipo exige uma responsabilidade enorme, e qualquer erro que pode causar uma confusão, pode ferir a lei eleitoral e trazer consequências ruins para o candidato, para o veículo e para o jornalista.
Portanto, ele sugere a busca constante pela informação. “Ler, ouvir, assistir à concorrência, consumir a maior quantidade de conteúdo sobre o processo eleitoral, aprender os nomes e decorar os rostos dos candidatos, conversar com as fontes, entender a legislação eleitoral”.
Já Rosane lembra a força do lado emocional e fala aos iniciantes “que não se apaixone por candidatos ou partidos, mantenha sempre a serenidade e tenha a independência como a palavra de ordem da sua vida. Nós, jornalistas que cobrimos política, temos de votar de acordo com a nossa consciência, mas não podemos nos transformar em militantes”. Ela afirma que ela própria já foi taxada pelo público. Quando a esquerda esteve no poder, era denominada de “coxinha”, “neoliberal”, “golpista”, “viúva do Fernando Henrique”.
Hoje, nas redes sociais a chamam de “comunista”, “petista’, “vermelha”, “esquerdopata”. “Não me abalo porque tenho o couro curtido pelos anos de trabalho. Quero ter independência para continuar criticando o que os governos fazem de errado e reconhecendo os acertos, sem nunca esquecer que somos formados em Comunicação Social, mas jornalista, publicitário e relações-públicas têm funções bem diferentes.”
O conselho de Taline vale não só para esse período, mas também para a cobertura política como um todo. Para a profissional, esse trabalho não é imediato, ou seja,a atuação do repórter ou do colunista não pode ser só quando acontece o factual, quando as eleições estão em curso. “Para tu garantires uma boa cobertura com informação de bastidores e não apenas com a narrativa oficial que partidos, candidatos e políticos querem passar, é muito importante ter o histórico da política, o contexto.”
E, para isso, e, especialmente, para ter acesso aos bastidores, as “informações de coxia”, do que realmente acontecem, é necessário contato com essas pessoas, com essas lideranças durante todo o tempo. “A política é construção, o que acontece em todas as editorias, mas na política é ainda mais aprimorada a necessidade de criação de fonte ao longo do tempo.”
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