
Faltando poucos dias para o primeiro turno das eleições, quatro jornalistas gaúchos têm trabalhado diariamente nesta cobertura. A base deles, no entanto, não é o Rio Grande do Sul, mas em outros estados. Filipe Peixoto, da Band TV, em São Paulo; Nathalia Fruet, no SBT em Brasília; Rodrigo Orengo, na BandNews e Band TV de Brasília; e Samantha Klein, no Grupo RBS, também em Brasília, contaram ao Coletiva.net sobre as diferenças em atuar fora do Estado neste momento. Entre as particularidades destacadas, está uma abrangência maior na divulgação.
No quesito eleições e trabalho em outros territórios, Rodrigo Orengo é o mais experiente deles. Há 15 anos em Brasília, esta será sua oitava eleição, a quarta para presidente. Entre as experiências do comunicador, estão mediações de debates locais para primeiro e segundo turnos em 2014 e 2018, e, neste ano, a primeira coordenação de uma grande equipe para o primeiro debate ao Distrito Federal. “A experiência foi muito rica e gratificante por ter grandes colegas ao meu lado nesse desafio.”
Para o apresentador, a grande diferença de 2022 é um cenário mais polarizado na comparação com outros pleitos e o antagonismo maior entre dois grupos que dominam o debate público em um clima mais beligerante. Quanto à especificidade de atuação na Capital do Brasil, ele cita a nacionalização. “Ao mesmo tempo, o desafio é também conciliar uma cobertura ao governo local do Distrito Federal, Senado, Câmara Federal e Câmara Distrital.” Para o profissional experiente, o maior desafio é fazer uma cobertura equilibrada e com isonomia. “Como são muitos candidatos, o trabalho é grande para dar o tratamento mais democrático possível a todos.”
Por outro lado, Samantha Klein é recém-chegada em Brasília, onde está há pouco mais de dois meses, “cidade que, com exceção do aeroporto, ainda não conhecia, o que torna a experiência profissional e pessoal um tanto mais interessante”. Esta é a sua estreia na carreira fora do Estado, assim como de uma eleição longe do território gaúcho, mas não a primeira cobertura de eleição. No Rio Grande do Sul, ela acompanhava a agenda de um candidato no dia do pleito, fazia vigília na frente da casa do concorrente ou do diretório de campanha. Para ela, durante a campanha, há uma proximidade maior junto aos postulantes ao acompanhar suas tarefas diárias, realizar entrevistas em estúdio ou eventos relacionados.
Já fora do Estado, a dinâmica é diferente. Em contato com as assessorias dos aspirantes ao Palácio do Planalto, a repórter não foca em informar as agendas. “A cobertura aqui é mais concentrada nos preparativos para as eleições, como os procedimentos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e as urnas eletrônicas, além de julgamentos importantes na Corte a respeito das campanhas e dos candidatos.”
A comunicadora do Grupo RBS destacou os acontecimentos do 7 de setembro como um dos maiores relacionados às eleições em Brasília até o momento. Na data, ela teve a missão de relatar os fatos, sem deixar de mostrar o impacto do desfile cívico-militar e do ato de campanha paralelo ao desfile, “sempre respeitando o ouvinte/leitor: transmitindo a informação correta em primeiro lugar, sem opinião ou julgamento de valor. Sou repórter, minha opinião não importa para público da emissora”.
Além disso, nestes dias que antecedem a votação, a cobertura também se estende para outros temas que interessam aos espectadores da rádio Gaúcha, GZH e Zero Hora. “Por exemplo, a suspensão do piso da enfermagem, as audiências no STF para buscar uma conciliação entre estados e União acerca do ICMS sobre os combustíveis.” Para a jornalista, selecionar o que é mais importante está entre os maiores obstáculos do trabalho, visto que são muitos fatos acontecendo ao mesmo tempo e é preciso priorizar. “Por exemplo, se for dar espaço para a agenda de campanha de um candidato, é necessário um critério para dar o mesmo espaço aos demais. Já em 2 de outubro, a minha missão principal será cobrir a apuração no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).”
Na televisão em São Paulo e Distrito Federal
Outros dois gaúchos que emprestam são rostos para o trabalho fora do Rio Grande do Sul são Filipe Peixoto e Nathalia Fruet. Pela Band TV, na Capital paulista há três anos e meio, esta é a primeira vez que, de forma contínua e permanente, Filipe atua profissionalmente em outro estado. Antes, quando ainda era repórter da Band em Porto Alegre, participou de algumas coberturas pontuais externas à região e passou curtas temporadas na Band SP.
Esta será a primeira eleição presidencial em terras paulistas, apesar de já ter feito as municipais em 2020. Ainda em Porto Alegre, o repórter acompanhou a agenda dos presidenciáveis quando eles visitaram o Rio Grande do Sul, “mas agora é diferente, é outro peso”. Afinal, conforme as experiências que ele teve até então, a cobertura eleitoral em São Paulo tem um impacto maior no noticiário, nos mercados e na sociedade como um todo. “Os comícios e manifestações na capital paulista, por exemplo, normalmente são os mais numerosos de público e servem de termômetro nacional para o desempenho do candidato”.
Ele destacou que os temas de atenção também mudam, enquanto no Rio Grande do Sul há destaque para questões locais, como as finanças públicas do Estado e a agropecuária, na atuação nacional há debates mais estruturais, como fome, desemprego, reforma tributária e direitos humanos, com destaque neste ano para as políticas voltadas para as mulheres. “Devido a essa abrangência maior de temas e o impacto maior na sociedade, a cobertura presidencial em São Paulo exige bastante empenho, estudo e atenção do repórter.”
Assim como para o colega Orengo, o cuidado com o equilíbrio é ainda maior em uma cobertura eleitoral. “É o básico: não dá para, como diz o gaúcho, ‘puxar a brasa para o assado de nenhum candidato’. O repórter tem que buscar a maior objetividade possível na hora de relatar os eventos e discursos, sem deixar de trazer o contexto, sempre que necessário.” A polarização também é uma ressalva no pleito deste ano, além de um um cenário onde o discurso de ódio tenta silenciar a liberdade de informação, que é essencial para a democracia. “Na rua, o repórter não pode se deixar levar por provocações, que acontecerão. Temos que manter a serenidade e sobriedade necessárias para apurar e informar o eleitor de maneira responsável e ética.”
A pressão das ruas aos profissionais de imprensa também é um fator destacado por Nathalia Fruet. “Nos lugares por onde eu passei as pessoas paravam a gente para dizer que se a gente não falasse o que elas queriam ouvir, nós não poderíamos ficar na cobertura”. Conforme a comunicadora do SBT, a escolha do eleitor não é racional, é emocional, então, muitas vezes a militância confunde qual é a função do repórter e estabelece o jornalista como alvo, o que não deveria ocorrer na visão da comunicadora. “A imprensa é a base do processo democrático e acompanhar uma eleição é a nossa tarefa porque todos nós, jornalistas, temos que ter o compromisso com o que é o interesse público. E é nosso dever mostrar o que cada candidato propõe e se é algo factível ou apenas promessas soltas e algumas até falaciosas.”
Há cinco anos e cinco meses no Distrito Federal, esta é a estreia dela em outras terras, assim como em eleições presidenciáveis, apesar de já ter acompanhado concorrentes ao governo gaúcho. “E desta vez sendo ‘carrapato’ que é como a gente chama o repórter que acompanha o candidato em todas as agendas pelo Brasil.” Ela acredita que é a cobertura mais importante que participa, por ser, desde a redemocratização, histórica. “Além do factual, eu estou com material para escrever um livro sobre a disputa de 2022. Vamos ver se eu consigo tirar esse projeto do papel. Entre uma agenda e outra, eu já estou rascunhando algumas páginas”, adiantou ao portal.
Nathalia acredita que apurar os bastidores é uma das dificuldades, como acompanhar o clima no QG de campanha. Nesta reta final do período, o cotidiano tem sido entre um aeroporto e outro, planejar as matérias, o tempo pra gravar o material e embarcar para o próximo destino. Como exemplo, na terça-feira, 27, ela realizava agendas em Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), de onde iria para Santos e depois para o Rio de Janeiro – ações executadas em apenas dois dias. “Então para além da preocupação com a pauta, tem toda a questão logística, que a redação dá a retaguarda, mas a responsabilidade de fazer dar certo é nossa. Já foram 40 dias e até agora a maioria deu certo.”

