Nesta semana, a equipe de Coletiva.net publica uma série de reportagens especiais com Felipe Sales, repórter da NSC TV que atuou na cobertura da tragédia na escola de educação infantil Cantinho do Bom Pastor, em Blumenau, Santa Catarina. Em 5 de abril, um homem invadiu a instituição de ensino e assassinou quatro crianças, além de ferir outras cinco.
Ontem, 17, o profissional falou sobre o primeiro contato com o caso e a dificuldade de conter a emoção durante as entradas ao vivo na programação. Neste segundo momento, Sales comentou sobre as mudanças de postura dos profissionais de imprensa ao reportar tragédias, assim como os cuidados necessários em se ter com as fontes que estão fragilizadas pelo acontecido. “Eu acho muito benéfico ter um jornalismo mais humano, mais empático, mais sensível”, defendeu.
Confira a segunda parte da entrevista logo abaixo:
1) Então você identifica pontos positivos nessa mudança de postura, nessa demonstração de sentimentos?
Eu identifico, sim. Sobretudo pelo fato de que o público, com isso, consegue criar um pouco mais de identificação com a gente. Um exemplo: eu sou um repórter mais fixo do horário da manhã, mas, por vezes, eu fiz o jornal da noite, que é mais curto. Então, não é muito tempo para o repórter deixar claro como ele é, o humor dele, como ele sente a notícia. E o que eu mais recebi nas minhas redes sociais quando eu fui fazer o NSC Notícias foi de que eu estava preso, que não me sentiam tão solto no ar. Mas é isso, formatos, e eu acho corretíssimo que seja dessa maneira, que existam os jornais que ainda nos cobrem essa certeza no texto. Mas é engraçado que com a gente podendo ser mais empático e humano, as pessoas nos recebem melhor, se identificam melhor, e sentem falta disso quando isso sai do ar.
Então, por isso que eu digo que parece que virou a nova forma. Acho delicado, porque estamos com um mercado de trabalho muito jovem, e muitos desses jovens precisam entender que ser empático, ser solto, não é ser notícia, e isso é difícil. Tenho muitos contatos ainda na universidade e vejo como têm muitos conhecidos, amigos, colegas que têm dificuldade de entender o limite. Mas entendendo esse limite eu acho muito benéfico ter um jornalismo mais humano, mais empático, mais sensível.
2) Você comentou da chegada do pai. Como se deu essa chegada do pai até você? Pergunto isso porque ainda há muito questionamento sobre a necessidade de se entrevistar o familiar de uma vítima tão logo após o fato traumático. Quanto a sua entrevista com ele, o que pensa sobre isso?
Eu também acho de uma delicadeza extrema, sobretudo ao vivo, porque a pessoa está numa condição de estresse, irritação e pânico, que nem tem ideia do que ela pode estar dizendo. Ela pode, de repente, ao vivo, incitar um linchamento; ela está irritada, perdeu uma vida essencial para ela, e não vai nos caber julgar, mas é uma informação que a gente não pode colocar no ar, principalmente ao vivo. Não era uma coisa que eu estava buscando, tanto que eu te falei que as minhas primeiras entrevistas eram só oficiais, pessoas que têm compromisso com a sociedade e que devem se manifestar nesse momento.
Mas com o pai aconteceu o seguinte: eu vi o momento em que ele saiu. Ele chega no cinegrafista da ND TV, conta que isso havia acontecido, que o filho dele estava entre as vítimas, abraça ele e vai embora. E o cinegrafista estava ao meu lado. Daí ele me olha e fala: “Ele acabou de perder o filho”. E aí, por ele já ter trabalhado em uma emissora da região, ele era bastante conhecido. Aí, em algum momento, um jornalista específico começou a organizar a conversa com ele, as pessoas foram se colocando e eu pensei: “Bom, essa é uma fala que eu não posso perder. Não dá para todos os jornais terem e eu não ter. Vamos e depois a gente vê se vai usar ou não”.
Tanto que eu não fiz nenhuma pergunta. Eu só posicionei o microfone. E aí, nesse momento, o editor-chefe que estava acompanhando a prévia da minha imagem na suíte me perguntou quem estava ali. Eu falei que era o pai de uma das crianças. Ele perguntou como estava o tom dele, se havia o risco de falar alguma coisa que não deveríamos colocar no ar, e eu disse que não. Aí ele me plugou na hora. Tanto é que eu não apareci no enquadramento. Quando a Patrícia Silveira me chama no estúdio, já está enquadrado no pai, só a minha mão aparecendo. E quando eu ouço que estou aparecendo, eu falo: “Nesse momento se pronuncia o pai do menino Bernardo”. Porque não era minha meta, justamente porque eu tenho medo e não gosto de invadir situações assim.
Em conversa com repórteres que vieram de São Paulo e do Rio de Janeiro para cobrir essa tragédia, a gente percebeu neles um comportamento de mais frieza com os fatos. E a gente não sabia se era porque eles não eram daqui ou se porque por lá o noticiário policial é tão intenso que eles até pouco sentem o que é trágico, triste. Eu senti que esses repórteres que vieram de fora não estavam tão hesitantes de estar no meio do velório, das pessoas, tentar sonora de pessoas emocionadas no meio do enterro. Não é algo que eu estava procurando.
Tanto que para o único editor que me pediu esse tipo de trabalho, respondi que eu tinha um limite: “Eu estou tentando abordar as pessoas sem microfone, deixando bem aberto, e eu só recebi ‘nãos’ até agora, e eu não quero ser uma pessoa invasiva e não grata aqui, então eu vou me afastar”. E o meu pedido foi acatado, então eu não precisei fazer nada do que eu não quisesse, e isso eu achei muito pertinente. Mas é muito delicado entrevistar pessoas depois de traumas. Eu não gosto, me sinto desconfortável, e se eu vejo que a reportagem consegue andar sem aquilo, eu não vou fazer mesmo.
3) Ainda sobre o cuidado para não tornar uma pauta como essa sensacionalista, que orientações você recebeu para esse tipo de cobertura? O que pode fazer, perguntar, mostrar, e o que não pode? Quem entrevistar? Como agir? Que cuidados ter?
Esse caso em específico foi bastante curioso porque a orientação foi mudando com a cobertura em andamento. Porque nós começamos como sempre fazemos – contar como aconteceu, recontar os fatos, dizer quem é o autor. Em um primeiro momento chegamos até a nomear, até que a direção aqui da NSC foi percebendo que, nacionalmente, o grupo Globo estava tendo um entendimento diferente dos fatos. Durante o próprio ‘Jornal do Almoço’ de 2h30 que foi ao ar quarta-feira, a política já foi mudando: “Não conta tantos detalhes, já não dá mais nome do cara, não dá mais a idade dele”. Até que veio a formalização da Globo dizendo que, “a partir de agora, com base em estudos recentes a que tivemos acesso, a gente entendeu que o que as pessoas fazem ao cometer massacres é obter notoriedade e aqui elas não vão ter”.
E aí foi muito curioso, porque, no dia seguinte, eu fiz muitas participações ao vivo para a Globo mesmo, entrei algumas vezes no ‘Momento Jornal Hoje’, que acontece dentro do ‘Encontro com a Patrícia Poeta’, e no ‘Mais Você’. E com essas orientações eu comecei a ser bastante cauteloso usando termos como “o autor dos fatos”, “o autor do atentado”. Aí meu editor de São Paulo me ligou e falou: “Cara, a gente não precisa dar nome, dar as características do homem e nem dizer como foi, mas o nome a gente pode dar: é um assassino, e disso você não precisa se privar. As orientações são novas, a gente está aprendendo junto com vocês e, se bater dúvida, me consulta. Mas não fala nada ao vivo que você acha que pode estar comprometendo essa nova diretriz”.
Mas de um modo geral eu senti que todos ficaram muito gratos em saber que essa decisão tinha sido tomada, justamente por isso: a gente não quer dar publicidade ao que não é publicizável. Então que bom saber que há cabeças pensando nisso, sobretudo em grandes companhias, em grandes empresas de Comunicação, e que, além de tudo isso, foi se tornando efeito cascata, e de um modo geral isso foi se tornando um consenso: não se deve mais dar publicidade a essas figuras – e eu achei isso de uma pertinência imensa. Eu fiquei feliz de ver que essa decisão foi tomada. Algumas reportagens que nós havíamos pensado tiveram que tomar o curso. Eu não me importo mesmo, prefiro isso do que, na intenção de cobrir os fatos, a gente crie outros fatos semelhantes.
Esta matéria integra uma série de reportagens especiais assinadas pela gerente de Projetos de Coletiva.net, Tássia Jaeger. Ela conversou com Felipe Sales, repórter da NSC TV que atuou na cobertura da tragédia na creche Cantinho do Bom Pastor, em Blumenau, Santa Catarina, ocorrida em 5 de abril de 2023. A primeira parte da entrevista pode ser conferida neste link.

