Era mais um dia no tempo quando Clara pensava em tudo que poderia ter feito, nas coisas que não deveria ter falado, nos momentos bobos que deveria ter aproveitado e naquele beijo que não deu. Era como se o seu infinito fosse cortado ao meio. A aleatoriedade da Vida pesando esmagadora sobre a cabeça dela. A menina foi até a câmera do seu quarto e a posicionou no local costumeiro para gravar seus conteúdos. Sentou-se e respirou fundo antes de começar, as palavras saindo junto com o choro:
“Hoje gostaria de fazer um desabafo. Sei que não sou perfeita. Tenho muitas falhas. Falo demais, sou inconveniente e me deixo levar pelas coisas que gosto a ponto de ficar obcecada. Além disso, não sou a garota mais cuidadosa com a minha aparência. Tenho preguiça de arrumar o cabelo, não gosto do meu corpo, ainda mais com essas bochechas enormes que me deixam desconfortável quando me vejo no espelho. Finjo ser confiante, conhecedora do mundo dos relacionamentos, animada e criativa, mas não acho que sou nada disso de verdade. Tenho medo quando publico um vídeo, sinto pavor quando recebo uma crítica, me sinto repetitiva e monótona como se todos fossem me abandonar a qualquer hora. Luto sempre com essa sensação de que as pessoas estão comigo por caridade, por pena e por tédio. No começo até pareço ser interessante, mas no final sempre me torno a garota exagerada que todos enjoam. Aquela que dá pra se divertir, mas não dá para levar a sério.”
Parou de falar e se olhou ali na imagem da câmera. Sentiu vergonha do que viu, como se uma capa tivesse caído e o que apareceu por baixo não fosse agradável. Ela então tomou fôlego e limpou as lágrimas. Fechou os olhos por alguns segundos e quando os abriu tinha mudado de atitude. Reiniciou o vídeo: “Então, pessoal, neste vídeo vou mostrar mais detalhes de como manter a autoestima com três passos bem simples”. Ao terminar de falar, o sorriso se desmanchou. Começou a chorar novamente em frente a câmera desligada.
Ao presenciar aquilo, só consegui pensar que não sou tão importante quanto vocês pensam. Nada está planejado. Nem para Clara, nem para você que me lê. O que governa a Vida, de fato, é a vontade dos humanos em viver. Não tem nada no fim da estrada, meus queridos. Porque não é sobre chegar. Só consegui dizer para a menina: Faça agora, por favor, Clara. Não faça a Vida esperar.
E então torci para que ela me ouvisse.


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