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Sem participação, não há solução!

Vigora no comportamento dos gaúchos a “cultura política da descrença” e um ceticismo em relação aos políticos e às instituições, com baixa participação política. …

Vigora no comportamento dos gaúchos a “cultura política da descrença” e um ceticismo em relação aos políticos e às instituições, com baixa participação política. Segundo estudos do IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, apenas 12,1% dos gaúchos participam de “alguma” entidade representativa.

Este comportamento diverge do princípio do Estado Democrático de Direito, que tem a prerrogativa reconhecida e incontestável da participação política, que apregoa que todo o ser humano tem o direito de tomar parte do governo e das instituições representativas de seu país, e a vontade do povo será a base da autoridade do governo ou das instituições.

Por esse princípio, a participação política é um dever de todos e deveria permitir consciência e informação “do que está sendo feito” e ser uma ferramenta fiscalizadora das políticas públicas. A participação política nas mais variadas instituições sociais deveria ocorrer de várias formas: individual, coletiva, eventual ou organizadamente. Na atual cultura política, a participação é formalizada pelo ato de votar!

Os motivos pelos quais os eleitores não participam das instituições representativas se distribuem em três grupos:

  1. argumentos de descrença nos políticos ou representantes (líderes sindicais, associações…);
  2. argumentos relacionados ao desconhecimento do funcionamento das instituições;
  3. argumentos relacionados aos hábitos familiares/cotidiano.

Os argumentos de descrença estão associados à leitura de que os políticos e/ou representantes atuam em “causa própria”. Os eleitores relatam que, em sua percepção, tanto nos partidos, nas associações de bairro ou nos sindicatos, “são sempre os mesmos”. Não percebem resultados práticos das ações destes em prol do grupo ou da comunidade. Nesses casos, a instituição representativa na figura de seus representantes não tem a capacidade de demonstrar para os seus filiados, associados ou potenciais associados a sua capacidade de representar o “bem comum”. Parte desta deficiência é resultado do modo como as instituições estão organizadas e do predomínio da reciprocidade nas relações políticas (tratado no artigo anterior).

Os argumentos relativos ao desconhecimento das instituições servem como reafirmação da cultura do descrédito. A população não acredita nas instituições representativas e desconhecem seu funcionamento, importância e papel. Esta junção de fatores, além de nutrir o distanciamento das instituições, atua como um “bloqueador da participação” e sustenta a premissa de que “não vale a pena participar”.

Para fechar os principais argumentos da não participação política, os eleitores relatam argumentos associados ao seu cotidiano, em especial, os relacionados à luta de sua sobrevivência e de sua família, externado pelo conceito de “falta de tempo”.

A cultura política da não participação pode ser representada pela seguinte lógica:

Descrença + desinformação = falta de tempo!

Neste contexto, o “remédio” para a cultura política da descrença está no resgate do princípio da participação política e no fortalecimento das instituições. O distanciamento dos eleitores das entidades representativas é tão grande que os vínculos tênues entre representantes e representados estão próximos da ruptura, indicando a necessidade dos partidos e das instituições representativas voltar ao ponto inicial, de como a democracia foi pensada, reconstruindo os elos de participação política.

Autor

Elis Radmann

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996 e tem a ciência como vocação e formação. Socióloga (MTB 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e tem especialização em Ciência Política pela mesma instituição. Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Elis é conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) e Conselheira de Desburocratização e Empreendedorismo no Governo do Rio Grande do Sul. Coordenou a execução da pesquisa EPICOVID-19 no Estado. Tem coluna publicada semanalmente em vários portais de notícias e jornais do RS. E-mail para contato: [email protected]
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