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A crise econômica analisada por grupo etário

A cada dia os gaúchos estão mais temerosos em relação à economia, à política e externam essa preocupação nas pesquisas de opinião, demonstrando seu …

A cada dia os gaúchos estão mais temerosos em relação à economia, à política e externam essa preocupação nas pesquisas de opinião, demonstrando seu ceticismo, fomentando uma crise social que questiona a credibilidade e a ética das instituições brasileiras. O Instituto Pesquisas de Opinião (IPO) verificou que há uma distinção na percepção da opinião pública que varia conforme a faixa etária e centra-se, principalmente, na nova classe C e na população de baixa renda, maiores quantitativos da população gaúcha.

A principal variação de percepção sobre o cenário está associada ou é resultado da experiência da população com maior faixa etária. Os gaúchos que vivenciaram o período de inflação da década de 90 e o impeachment do presidente Collor analisam o atual cenário com lástima, percebem o retrocesso econômico e político do País e fazem esta avaliação munidos de uma leitura realista sobre a necessidade de “aperto do cinto”, reagindo com muito trabalho e reposicionamento da sociedade.

A população com menos de 40 anos, que cresceu sobre a égide de uma democracia estabilizada e do Plano Real, que era adolescente ou nem havia nascido na época do impeachment de Collor e que “ouviu falar” da tal de URV (Unidade Real de Valor), em sua maioria, apresenta índices de descrenças maiores do que o grupo etário acima de 40 anos e não percebe o seu papel social no processo, “não sabe lidar com uma situação de crise”.

O comportamento dos consumidores com mais de 40 anos frente à crise se caracteriza pela (o):

– Diminuição da compra por impulso, com corte dos produtos ou serviços considerados supérfluos;

– Existência de reservas econômicas ou endividamento compatível com a renda familiar;

– Ajuste fiscal doméstico com revisão dos gastos da residência e repactuação das despesas com os membros da família;

– Receio com a possibilidade de desemprego e recolocação no mercado de trabalho;

– Retomada da premissa de pesquisa de preço, resgatando a prática “da pechincha” e buscando marcas e produtos alternativos.

Este processo de “ajuste fiscal doméstico” é reflexo do atual momento e sucede o momento anterior de crescimento econômico, onde o gaúcho estava “aumentando a sua lista de compra” e escolhendo em função da qualidade e da marca. Agora, as marcas secundárias, com preços competitivos, passam a ser reavaliadas pelos consumidores que buscam produtos alternativos.

Os consumidores com menos de 40 anos frente à crise se caracterizam pela (o):

– Sensação de “inércia” quanto ao futuro. Percepção de temor com a economia e com a política do País, um momento de incerteza que não permite uma avaliação a médio e longo prazo;

– Avaliação de que precisam “desacelerar o consumo”, mas sem definição da estratégia a ser adotada. Necessidade de novo aprendizado no processo de comprar, trabalho e economia dos recursos pessoais ou familiares em um cenário com inflação;

– Compra de produtos/ marcas alternativas que ofereçam sensação similar, atendendo a demanda do consumidor;

– Grau de endividamento maior do que 50% da renda familiar, sendo que 1/3 das famílias tende a não conseguir quitar algum de seus compromissos financeiros. Com o agravo da diminuição do poder de compra tendem a ter que “abrir mão” de alguma de suas contas;

– Alto grau de relacionamento com as redes sociais, internet e smartphones. Aumento da procura de produtos e serviços em sites de compras e aplicativos. Preferem realizar compras no mundo virtual, em detrimento da loja física;

– 68% se preocupam com o desemprego e estão revendo a sua relação com as chefias, buscando a manutenção de sua vaga de trabalho ou avaliando a possibilidade de se submeter a vagas inferiores (com tendência de diminuição do turnover);

– Avaliação da possibilidade de empreender, o orçamento apertado ou comprometido estimula as famílias a desenvolverem atividades econômicas que possibilitem rendas ou rendas extras.

O consumidor continuará comprando, mas sua decisão será menos impulsiva e mais seletiva, de acordo com as suas necessidades e capacidade de compra. Neste contexto o preço torna-se um dos principais fatores de decisão e as empresas terão que compreender as diferenças entre estes dois grandes grupos etários, mantendo diferentes estratégias mercadológicas e publicitárias.

Autor

Elis Radmann

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996 e tem a ciência como vocação e formação. Socióloga (MTB 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e tem especialização em Ciência Política pela mesma instituição. Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Elis é conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) e Conselheira de Desburocratização e Empreendedorismo no Governo do Rio Grande do Sul. Coordenou a execução da pesquisa EPICOVID-19 no Estado. Tem coluna publicada semanalmente em vários portais de notícias e jornais do RS. E-mail para contato: [email protected]
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