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Canini: necrológio do elogiável

Morreu nesta quarta-feira Renato Canini, do qual, de tão raro, existia só um em todo o planeta. Morreu um ser humano com um rol …

Morreu nesta quarta-feira Renato Canini, do qual, de tão raro, existia só um em todo o planeta. Morreu um ser humano com um rol de qualidades tão extenso que mais parecia  catálogo do lado bom da espécie: amigo, generoso, bem-humorado, afável, modesto, gentil, educado, inteligente, doce, solidário, confiável, sensato, amoroso, simples, honesto, sensível, justo, sincero, otimista, divertido, correto, prestativo, companheiro, terno, ponderado, discreto, animado, amável, altruísta, enfim, a bondade em pessoa. Morreu um artista sem igual no Brasil ou no mundo; um talento que teve a facilidade de ser original e a faculdade da sutileza; um criador incessante e abundante a rechear a cultura como se fosse uma equipe de profissionais; um trabalhador mais manual que braçal; um desenhista cujo traço mais famoso foi abrasileirar o que não nos retratava bem; um autor de incríveis cartuns, tiras, caricaturas, charges e ilustrações, todos com sua marca registrada, a simplicidade, com a qual recheou revistas, jornais e livros por quase 60 anos. Morreram com ele vários outros dentro dele, alguns quase secretos: o cidadão que enriquecia o conceito de cidadania, o natural defensor da natureza desde quando ela não era tão ameaçada, o benemérito anônimo, o bom vizinho, o colega admirável, a influência de incontáveis novos autores, o filho dedicado de uma vida inteira, o irmão adorado das três queridíssimas irmãs – Damaris, Eunice, Consuelo –, o tio prezado, o primo do Claudius Ceccon e da Terezinha, o marido que a Lourdes ganhou na loteria da vida (e ele sorteado com ela na mesma ocasião em que se viram pela primeira vez). Morreu o Canini, que fez por merecer loas e boas e recebeu as flores em vida por esse Brasil afora, prêmios e reconhecimento que em nada afetaram seu perfil calmo e tranquilo. Morreu Canini, que não teve filhos a não ser no papel, e por isso ficam órfãos as formiguinhas Corta-Corta e Ligeirinho, o indiozinho Tibica, o cangaceiro Zé Candango, o cowboy Kactus Kid, o dr. Fraud e de certa forma – se ele não for um ingrato – também o enteado Zé Carioca. Mas para quem conviveu, conheceu, admirou, leu e sobretudo riu com Canini, ninguém morreu.

 

 

O que vale pro dólar,

vale pro mercado corruptor:

compre homens públicos

na baixa, venda na alta.

Com o Pré-Sal, finalmente

o Brasil vai ter a sonhada

auto-suficiência nos aumentos

do preço da gasolina.

Hospital é um lugar

muito perigoso:

quase todo

mundo morre lá.

 

 

BUGIGANGAS LITERÁRIAS

No sado-masoquismo, depois dos 50 tons de cinza,

vêm as 50 nuances de hematoma.

Papel higiênico existe para a imundície.

Dependendo do autor do livro, papel offset vai até lá.

Destino traçado só as traças têm.

E mesmo assim podem escolher seus livros.

Não julgue pela capa.

Muito melhor ser rigoroso com o miolo.

Qualquer bom leitor pode se defender de livro ruím. 

Nenhum livro bom tem defesa contra mau leitor.

Ao leitor que não lê nem meia dúzia de tomos

por ano é recomendável uma tomografia.

O mercado editorial está engrossando: 

não pára de lançar opúsculos de 500 páginas.

 

Falir:

um negócio muito mais lucrativo

que progredir.

O melhor dos testamentos

é deixar para a posteridade o que

houver de bom atrás da testa.

O desespero faz subir pelas paredes,

mas não tão bem como o skate.

  

ATÉ DIA 16, NO CORAÇÃO DA CIDADE

É sempre assim. Ou chove chuva ou chove flores roxas. Ou, como dizia o Quintana, os leitores esgotam livros ou livros esgotam os leitores. Ou venta ou nos abanamos. Ou passarinhos trinam ou bandas treinam. Ou os besta-sellers dominam ou os autores gaúchos domam. Ou a praça ganha apreço ou o preço vence a praça. Ou há filas de autógrafos ou cáfilas de retrógrados. Ou abençoamos os toldos ou bem-aventurados os saldos. Ou os amigos se encontram ou os encontrões fazem inimigos. Ou barracas cheias ou cheios das barracas. Ou prosa impressa nas măos ou impressăo de poesia no ar. Ou compramos obras ou comparamos sobras. Ou as bancas disputam o público ou o público disputa os bancos. Ou os admiradores soam ou os escritores suam. Ou cafezinho ou chopinho. Ou descontos ou desencontros. Ou leio ou me enleio. Ou vamos à Feira do Livro ou a Feira do Livro vem a nós. Ou sineta ou silêncio. (Dessa vez o silêncio ganhou longe: perdemos o xerife José Júlio La Porta, agora mais inesquecível que nunca por sua presença digna, a emblemática atuação e a mansa autoridade. Lembrar do xerife será a homenagem diária de livreiros, editores e leitores.) Assim sempre é.

 

Poeminha do Desencontro Final

Que estranho é o Finados:

quem visita não é recebido

quem é visitado não está

quem está não é encontrado

quem é encontrado está vivo

quem é vivo não foi pra lá.

 

 

 

 

 

 

 

Autor

Fraga

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