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O hino do Rio Grande do Sul estava quase pronto, letra e música. Faltava um refrão. Tinha que ser algo bom, que arrebatasse os …

O hino do Rio Grande do Sul estava quase pronto, letra e música. Faltava um refrão. Tinha que ser algo bom, que arrebatasse os corajosos, encorajasse os covardes, animasse pessimistas, curasse moribundos, alumiasse horizontes. As sugestões choveram até que apareceu um que acalmou as coxilhas: “Sirvam nossas façanhas de modelo a todo o Universo”. Um delírio ecoou, até o gado vibrou. Era sob medida, dava a real dimensão da nossa capacidade de luta e resistência. Nele cabia, em apenas três linhas, todo o brio pampiano. Ia além: abarcava várias das nossas ânsias – arrogância, jactância, petulância. E englobava tudo que se podia imaginar de prepotência no cosmos. Ninguém ia nos ganhar em orgulho, inda mais com uma melodia dessas de fundo! O problema é que havia gente de bom senso ouvindo. E esses mais discretos pediram: “Menos, gente, menos.” Não houve outro jeito senão abaixar um pouco a crista da canção. “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a nossa galáxia.” E não é que funcionava? Estropiava um pouco a métrica mas, sim, já não era mais um refrão tão excessivo. Porém, bastou ser ensaiado e cantarolado algumas vezes e lá veio a modéstia exigir algum comedimento. Não ficava bem gritar ao espaço tamanha empáfia. Vai que houvesse vida inteligente por aí e essa inteligência sideral se sentisse, digamos, provocada. Melhor reavaliar o júbilo pela nossa tradição guerreira. O mais sábio dos poetas da ocasião consertou. “Sirvam as nossas façanhas de modelo a todo o Sistema Solar.” Perfeito, não extrapolava nada, nossa influência sabia o seu lugar, afinal! E o canto entoou uníssono, um coral de guascas em aprovação. Bonito aquilo. Mas. Olharam feio pro bagual que discordava de estrofe tão apaziguadora. Ainda passava da conta. Discutiu-se muito, cantores e compositores rearranjando o estribilho final, rédea curta na bravura. A contragosto, chegou-se a um consenso. Doloroso, de tão redutivo. “Sirvam as nossas façanhas de modelo a toda Terra.” Ooohhhhh!, um murmúrio contrariado percorreu a vastidão. Tal concessão destoava da raça, ameaçava a harmonia da música. Até que uma voz soberana, herdeira da cautela gaudéria, sentenciou, numa baforada de palheiro: “Mesmo contido, tá bom assim. Não mexe mais no hino.”

(Publicado em 18/9/09. Republicado porque a efeméride merece.)

Deus vê tudo,

mas não tanto quanto

o FBI e a Cia.

 

Alguém tem que avisar

ao STF que a impunidade

no Brasil tem limite.

Só cabem 202 milhões

de impunes no país.

 

Olha lá o tradicionalista:

usa facão na linguagem,

esporas nos gestos, buçal

nas ideias e relho na vida.

 

 

BUGIGANGAS AVULSAS 

 

Nos protestos com nudez,

fica evidente o seguinte:

nem todas as causas são boas,

algumas manifestantes são boazudas.

 

 Já não fazem filmes admiráveis.

A maioria feita para espectadores idiotas.

O que explica os cinemas lotados.

 

As maiores paranóias americanas são duas:

1) de atiradores que matam a esmo.

2) de uma proibição do porte de armas.

 

Se Ética fosse vendida por quilo,

roubavam no peso.

 

 O principal movimento tradicionalista

consiste em ficar sentado ao redor do fogo.

 

Dilma x Obama:

Se Maomé não vai à montanha,

a montanha fica chateadíssima.

 

Comprovado:

senhas em excesso tornam os neurônios inacessíveis.

 

O justo paga pelo pecador.

Enquanto isso, o pecador se beneficia

da renúncia fiscal e da isenção de impostos.

“Chega junto!” Pena que não inclui a pontualidade.

 

Autor

Fraga

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