Às vezes a gente lembra de coisas que até os neurônios duvidam. Cenas que passam como um filme. Todas em desaparecidos cinemas de Porto Alegre. Em sessões contínuas, entre 1952 e 1985. Na tela mental, vejo a mim mesmo no escurinho, ao meu lado a indispensável companheira, a suspensão da descrença – sem ela ninguém se diverte.
A primeira tela é a do salão paroquial do Pão dos Pobres, que vira cinema aos domingos. Logo a cavalaria americana e os índios vão pra casa com a gente. Depois vem o carro do Sesi e o cinema pro trabalhador, tela ao ar livre. Dali, já fã das imagens, corro pro centro.
O roteiro é geográfico, nada cronológico.
Estou no Cacique, ladeado pelos imponentes índios de Glauco Rodrigues. O projetor da memória emenda sucessos: Tubarão, O Franco Atirador, Homem Elefante. Subo até o Scala, ao lado, onde tá em cartaz Esposamante. Satisfeito, me mando pros vizinhos Guarani e Imperial, e neles as atrações se embaralham, impossível separar o que vi num ou noutro: Se Meu Apartamento Falasse, Irma La Douce, ambos do meu mais admirado diretor, Billy Wilder. Minhas sinapses também me chamam atenção sobre Cassino Royale e Deu a Louca no Mundo.
Dali sigo pra 7 de Setembro, pro meu cinema favorito, o Rex, onde me sinto na França. Lá sou envolvido pela novelle vague: Uma Mulher Para Dois, Os Amantes, O Demônio das Onze Horas. E a graça de Esses Homens Maravilhosos e Suas Máquinas Voadoras. Volto à Rua da Praia, rumo ao Ópera, também com atrações europeias Ontem, Hoje, Amanhã. Deixo Vitório de Sica e Mastroiani e me acho no Carlos Gomes, vendo Pistoleiros do Entardecer e Inferno no Pacífico.
Subo a Borges, até o Victória, pra assistir a obra-prima de Jerry Lewis, O Professor Aloprado. De lá saio marcado pelo penúltimo Visconti, Violência e Paixão. Perto dali, no São João, assisto Excalibur em matinal do Clube de Cinema. Passo depois pelo Continente ou Lido, onde vejo Klute, o Passado Condena, algum Drácula e até um Columbo, que escapuliu da telinha pra telona. Mais abaixo, no Marabá, uma experiência sensorial, numa sala lotada num verão de rachar: Lawrence da Arábia, todo solar, enche a tela em reprise inesquecível. Fica, para sempre, no topo das lembranças.
O projetor cerebral acelera e as fitas rebentam. Sou obrigado a interromper esta sessão e reorganizar o acervo. Pra completar o circuito dos antigos cinemas faço um intervalo, como ocorria entre filmes numa tarde. Entram os baleiros e começa o segundo rolo.
Agora sigo pros cinemas dos bairros, onde chego ora menino, ora rapaz, doido pra sair da realidade por 2 ou 4 horas.
Na Venâncio Aires o Garibaldi/ ABC tem o estupendo 1900, do Bertolucci. Próximo, o Avenida, exibe O Planeta Selvagem e, acho, Dívida de Sangue. Vou ao grandão Castelo pra matinês: Delírios de um Sábio, Viagem ao Centro da Terra e O Manto Sagrado. No Roma, Palavras ao Vento. Ainda na Azenha, no Oásis, vibro com Acorrentados e rio com Oscarito em Pintando o Sete. Já no Marrocos (pra mim, a sala ideal), os clássicos Noviça Rebelde e Alien.
Pela Bento Gonçalves, vou até o Regente ver O Estranho Caso do Conde e o Pirajá traz O Inspetor Geral (ou tô misturando salas?). Na Medianeira, o Alvorada mostra Fim de Semana em Zuyde-Coote, com Belmondo. E no Teresópolis, vou à África com Michael Caine em Zulu.
Na Oswaldo Aranha frequento o Mônaco pra ver Sua Última Façanha, com Kirk Douglas, e Ivanhoé, com os Taylor, Elizabeth e Robert. A seguir me enfio no Baltimore: assisto ao antológico O Sol é Para Todos e o cinerama de A Conquista do Oeste. Anos depois, no Bristol, levo meus 3 filhos pequenos pra vermos Poltergeist (que eu já vira), em sessão “proibida” às 22h.
Na Protásio Alves, no Rio Branco, um típico Howard Hawks, Hatari! Sigo até o Ritz, onde passa O Vôo da Fênix e A Casa da Noite Eterna. Vou até a Independência, ao Vogue, que projeta Longe Desse Insensato Mundo, If e Esse Mundo é dos Loucos. No Coral, a sala mais chique, mergulhei em O Mais Longo dos Dias. Por fim, o grandioso Astor. Aí, evento pra cinéfilo não botar defeito: a estreia de 2001: Uma Odisséia no Espaço em sala impecável, obra genial. Para garantir o ingresso, o cinéfilo falta a uma tarde no trabalho. E de lambujem, o cinemão da Benjamin Constant exibe o magistral Grand Prix. Hoje, o pórtico em ruínas no estacionamento embaça as recordações em 70mm.
Sei que entrei, mas sei lá o que vi no Rivoli. Capitólio, Ipiranga, Colombo, Eldorado, Presidente, Real, Rosário, Atlas, Arco-Íris (vulgo Leleco). Nunca pus minhas retinas no América, Brasil, Estrela, Gioconda, Glória, Miramar, Navegantes, Rival, Tamoio, Thalia, Rey. E pela fama, adoraria ter visto o Central, o Apollo e o Coliseu. Mas cheguei tarde, o progresso já arrasara todos.
A gente sempre lembra onde viu filmes memoráveis. Se não lembra, ou o filme não era memorável ou a amnésia já entrou em cartaz. Agora, duvido que as salas multiplex dos shoppings permitam reter essa simetria das lembranças.
Nem todo político tem rabo preso mas todo rabo preso tem vários políticos.

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