Lá onde faz escuro na memória, havia duas tribos: Escrevinhadores e Leitores. Embora a geografia fosse plana como um mapa, entre eles havia um abismo: uma tribo tinha aptidão somente para a escrita, a outra só para leitura. Assim estranhados por recíprocas incompreensões, em vez de se comunicarem se trumbicavam.
O problema das duas tribos é que além dos problemas de uma com a outra, cada uma tinha os seus. E o que mais problematizava a vida tribal eram os respectivos dons naturais.
Os escrivinhadores adoravam escrever, rabiscadores natos, toda ponta virava lápis, toda superfície virava folha. E o pior é que não fazia sentido: um escrevinhador escrevia e ninguém entendia. E não era a caligrafia, ou a complexidade. Era simples: ninguém sabia o que escrevia, não conseguia ler seu amontoado de letras, por mais fluente que fosse. E como saber o que era fluência ali, onde todo mundo era, ao mesmo tempo, letrado e iletrado?
Os leitores, numa voracidade ocular, liam de tudo, de arranjos de pedrinhas e arrumação de gravetos, até as constelações reconfiguravam para soletrar o céu. A agonia dos leitores iniciava quando alguém cismava em grafar algo lido. A escrita jamais fluía.
A lenda empacaria aí não fosse um idílio inesperado, um par de escrevinhador e leitora. Ocultaram a atração e passaram por cima das incompatibilidades, ou se enfiaram sob elas. Depois de nove meses, uma das tribos ficaria maior: nascera um escrevinhador ou um leitor? O tempo diria.
A genética, que adora miscigenar a vida, fora provocada. Um dia o menino começou a ler. Festa entre os leitores! Soltaram a criança, seguiram a habilidade. Depois de ler tudo que era legível no território, avançou para o dos escrevinhadores.
Chegou a uma pilha de placas de ardósia sobrescritas, abandonadas ao desentendimento. Leu em voz alta. E os leitores vibraram de novo. De repente, o menino estacou, mirou, intuiu, pegou um carvão, uma lasca limpa e… começou a escrevinhar. E não parou mais. Festa na tribo dos escrevinhadores!
Algum tempo depois, dois fenômenos: 1) Aulas em massa com o professorzinho. Agora tudo podia ser escrito por qualquer um, tudo podia ser lido por todos. 2) Casamentos em massa entre as tribos. Agora tudo podia ser transmitido.
E a escrita e a leitura se espalharam pelo mundo, por tribos nem sempre aquinhoadas por aptidões. Ainda há pouca miscigenação. É por isso que ainda hoje tanta gente lê mal e tantos escrevem pior ainda.
(Publicado originalmente no jornal Extra Classe, nov/09)
Aprovado o parcelamento de multas de trânsito.
Com este Senado, não demora o Código Penal
ganha o seu cartão de crédito.
O marketing político insiste que todo candidato
se diga transparente. Mas basta olhar através
da maioria deles pra ver que não são.

Tão deplorável anda a imprensa que outro dia,
no mercado, um peixe reclamou ao ser
embrulhado com certo jornal do sul.
TUITADAS DA SEMANA
O Brasil torce, o Dunga se contorce e a Globo distorce.
Com Copa ou sem Copa, o futebol é uma caixinha de soberba.
Se discos-voadores vêm até nós, taí a prova de que
deve haver vida burra em outros planetas.
Palestra motivacional: se é palestra, não pode ser motivacional.
A palavra Bar fica muito mais bonita
quando pintada com letras garrafais.
Quem não bebe não pode doar o corpo para estudos:
ninguém aprende nada com um fígado sadio.
A gente bebe para esquecer que é sóbrio.
Badalam tanto os esportes radicais e não citam
o mais perigoso de todos – o radicalismo.
A ferramenta de busca favorita dos preguiçosos é a pergunta.
Ofensas são moedas, logo voltam pra quem as passa adiante.
Preferível o insulto, nota graúda que dificulta o troco.
Confidencial – uma das palavras mais inúteis da nossa época.
A franqueza põe tudo em pratos limpos;
o ressentimento guarda a louça suja.
Etc.
Uma câmera na loja e uma idéia invasiva
na cabeça: “Sorria, você está sendo fichado.”

Nos fins de semana, as pessoas saem
em busca de sossego, enquanto o sossego vai
ao encontro das que não procuram nada.
Datas de validade têm seus limites,
porém a mais limitada é a de hoje:
amanhã não valerá nada.

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