Localizado no imaginário centro da Galáxia de Gutenberg, Loquaz apresenta mais crateras que qualquer outro corpo interplanetário. E asteróides e meteoritos não são a causa da superfície esburacada: ele foi escalavrado por descomunais escavadeiras e perfuratrizes, que o exploram da crosta às profundezas. É que, na sua singular geologia, Loquaz oferece abundante matéria-prima, a mais rara em meio ao silencioso vácuo estelar: palavras.
Suas expressivas reservas vocabulares – estimadas em quarquiquantiquilhões de toneladas de palavras – têm elevado teor de inteligibilidade. Não há pobreza de linguagem, é como se o planeta inteiro fosse composto por metais nobres.
Tais jazidas provocam suspiros em linguistas internacionais.
O astro sem luz própria cintila de possibilidades: lá existem, como os elementos aqui na Terra, montanhas de verbos, vales com intermináveis veios de substantivos e adjetivos, planícies sem fim de preposições, advérbios, conjunções. As sondagens confirmam até um pré-sal, rico em locuções. Tudo em estado quase lapidar: a partir de um punhado do solo, se consegue o suficiente de palavras para um bom livro, diálogos proveitosos na ONU, aulas de todo tipo.
O peculiar, nesse dadivoso planeta, é a morfologia do solo, que ajusta a sua sintaxe à necessidade de expressão: misturam-se porções extraídas de diferentes minas, instruem-se as máquinas e o amálgama ocorre sem precipitações. Entram palavras soltas de um lado e saem textos fluentes do outro, para uso escrito ou oral. Tudo criativo, sem equívocos, como há muito não se lia e ouvia aqui na Terra.
A partir dos entusiasmantes testes em Loquaz, a esperança tomou conta da vida na Terra: seria a derradeira chance de entendimento entre os terrestres? Afinal, bastaria um fornecimento regular de melhores palavras e já não faltariam argumentos entre os povos, a harmonia mundial viria naturalmente. Também afetaria a produção cultural dos terráqueos, pois escritores, dramaturgos, roteiristas, poetas, até cronistas tipo eu, não poderiam mais se queixar de escassez de vocabulário.
O problema é que a humanidade não cala a boca.
Assim que os gigantescos cargueiros espaciais atracaram, todo o estoque foi logo contaminado pelo vírus da comunicação atual. Num ataque fulminante de logorreia e verborragia, tudo se esvaiu numa súbita explosão de algazarra bizarra, alarido sem sentido pra todo lado.
Agora, tal e qual Saturno, a Terra já tem um anel ao seu redor. É a loquacidade.
(Publicado originalmente no jornal Extra Classe, mar/09)
No mato, os bichos demarcam
seus territórios com excreções.
No campo, os latifundiários demarcam
suas terras com sangue.
De novo lá vem a mídia polarizar as
atenções em duas candidaturas presidenciais,
como se o leitor e o eleitor fossem bipolares.

Telemarketing:
a inquisição por outros meios e motivos.
Antevisão comercial teve o criador do GPS:
o mercado potencial abarca 7 bilhões de desorientados.
VOLTINHA NO SAUDOSISMO
Saudosismo é um mirante interior de onde,
nos dias mais límpidos, se avistam épocas
que a gente nem curtiu direito.
Quem não sente saudades não sabe o que perdeu.
Nos anos 60, nada amassava nem perdia o vinco.
Aí o jeans expulsou o Nycron e o Tergal da vitrine.
Até hoje moram em brechó.
Saudades do tempo em que Brasília não era nem
um esboço na prancheta do Niemeyer.
Quando um saudosista e uma saudosista se casam,
depois de anos juntos eles comemoram bodas:
de poeira e teia de aranha.
Saudade não tem idade só quando a idade não tem lapso.
Em busca do passado, o cliente visita regularmente
o neurologista. Para indagar a mesma coisa:
doutor, eu venho sempre aqui?
1968 deixou saudades:
eu e meus cabelos éramos rebeldes.
Agora, nem eles.
Olhar para trás nem sempre é nostalgia.
O torcicolo é a prova.
Bons tempos os de hoje.
Ditadores e carrascos vão morrer na saudade:
ditadura nunca mais.
Recordar é viver,
enquanto o Mal de Alzheimer não vem.
(Carona no tema Saudosismo do twitter @na_kombi, quinta)
Pedofilia
não tem cura.
Tem Cúria.

Filhos, a gente faz ou evita.
Netos, a gente não faz nem evita.
(Parabeniza pelos teus 16, Mariana!)

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial