Você ainda não ouviu falar do Congresso Internacional do Silêncio? Não podia mesmo. A falta de repercussão é a prova do seu não-retumbante sucesso. Nele, milhares de representantes de centenas de entidades sussurram denúncias a respeito dos danos da oralidade contemporânea. Em vez de muito barulho por nada, agora é a vez de nenhum ruído por tudo. Shakespeare sabia o que estava calando.
A OMS já havia antecipado relatórios preocupantes sobre os efeitos do tanto falar e do tanto ouvir em nossa sociedade. Alertas sobre atividades funcionais prejudiciais à saúde em guichês, ouvidorias, consultórios de psicanálise, confessionários, etc. Os excessos de fonemas como fonte de danos auditivos em pessoas altamente expostas. Descobriu-se que o agudo agora é crônico.
Sem estridência, pesquisas inovadoras apontam males inesperados. Advêm de certos tipos de exigência profissional, como vocabulários específicos, jargões científicos e técnicos. Inesperadas causas de distúrbios do aparelho fonético, desde tensões maxilares (o chamado bruxismo parlatorial) até o estresse verbal, em que as cordas vocais seriam reduzidas a barbantes.
Um dos casos que mais notórios é o efeito do matraquear incessante sobre os ossinhos do ouvido médio. Conforme a carga, o estribo estrila, o martelo martiriza, a bigorna bangorneia. Esses desajustes do mecanismo que amplifica os sons resulta em entupimento da trompa da Eustáquio e o bloqueio da cóclea. Aí, de tempos em tempos, é preciso promover a filtragem dos fluidos do ouvido interno, que se tornam espessos demais pelos resíduos acumulados de sotaques e prosódias reincidentes.
Com isso, surgem novíssimas especializações médicas para tratar de sintomas inéditos e doenças atípicas. É o caso da otofoneticologia, que trata desde a surdéia até a otititi, e da foniodontia, que cuida de quem sofre de desarranjos bucais por repetitivos esforços lingüísticos. Daí as clínicas avançadas para a recomposição palratória e recuperação do tímpano empanado. E já há remédio para proparoxítonas oxidantes e cura para consoantes dissonantes e destoantes.
As conclusões da atual edição do Congresso Internacional do Silêncio vêm aí, de algum lugar de baixa acústica. Do múrmur dos participantes, virão as soluções para um salutar vozerio. Ou será o enrouquecimento global.
O movimento por diálogos mais suaves já hasteou sua bandeira: é o pavilhão auricular.
(Publicado originalmente no jornal Extra Classe, set/09)
A OAB já fez muito pelos Direitos Humanos.
Mas não consegue ganhar tantas causas
quanto a Sociedade Protetora dos Animais.
Afirmam que as classes E e D diminuíram.
Não é de duvidar: nessas camadas sociais,
ninguém sobrevive por muito tempo.
A liberdade tem seu preço.
Basta conferir na tabela dos agentes
carcerários da Susepe.

Nas cidades, as pessoas se estrepam de tudo
quanto é jeito. No meio rural, só com estrepe.
Antes, se via muita urbanidade nas ruas.
Aí os urbanistas a levaram para
os seus gabinetes e lá a desfiguraram.
Atrocidades – não é à toa que a palavra
já vem com a causa e o efeito embutidos.

Depois do mural e do afresco, a humanidade
decaiu até chegar ao mais baixo nível de
expressão: o painel de avisos nas empresas.
O alpinismo social
não vai longe: o Everest
é a capa de Caras.

O coração tem carências no plano de saúde
que o próprio coração desconhece.
Longevidade, por
mais longeva que seja,
sempre acaba mal.

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